A ascensão de James Francies

Sou extremamente bairrista. Morador do Jardim Botânico há quase uma década, priorizo o bairro nas minhas escolhas, especialmente as de lazer: dos bares e restaurantes às manhãs em família no parque. Mas tampouco fecho os olhos para as novidades que, mesmo diante da crise econômica e de segurança, o Rio ainda nos proporciona. Na última semana, um compromisso de trabalho me levou à cafeteria Cafuné, no Città América, na Barra da Tijuca. O espaço, comandado por Leonardo Esteves, filho de Erasmo Carlos, é um oásis em meio a estabelecimentos típicos de shopping centers. Com luzes baixas e vastas opções de cafés, o espaço conta com uma trilha sonora de primeira. A sensação era de estar em casa.

O jazz tem um pouco disso. São tantos consagrados artistas (vivos ou não) que dá uma certa preguiça de sair da zona de conforto dos discos e das playlists. Mas na última semana, acabei me deparando com o trabalho de James Francies, o novato pianista nascido no Texas e radicado em Nova York, que lançou em outubro seu álbum de estreia “Flight” (Blue Note Records). Existem muitos músicos promissores, mas poucos com uma ascensão meteórica como a dele. Com apenas 23 anos, o pianista, tecladista e compositor já tocou com nomes como Pat Metheny, José James, Eric Harland e Lauryn Hill, transitando entre o jazz, hip hop, e R&B.

Macaque in the trees
James Francies (Foto: Divulgação)

“Flight” chegou de maneira promissora e ambiciosa ao mercado, fundindo suas 11 faixas numa experiência do pop com o jazz, num disco musical e apaixonadamente acessível para todos.

Produzido por Derrick Hodge, o álbum conta com um time de peso, que vai desde o incrível saxofonista Chris Potter, passando por Mike Moreno na guitarra, Joel Ross no vibrafone, Burniss Travis II no baixo, Jeremy Dutton e Mike Mitchell na bateria, às poderosas cantoras Yebba, Chris Turner e Kate Kelsey-Sugg.

Influenciado por Oscar Peterson e Mulgrew Miller, Francies abre com “Leaps”, balada que me remete a Chick Corea e seu consagrado Return to Forever. “Dreaming”, primeiro single lançado do álbum, traz uma mistura de ritmos com elementos eletrônicos, que expressa a liberdade buscada por Francies na maioria das faixas. “My day will come” traz a cativante interpretação de Yebba, seguida da comercial “Ain’t nobody”, de Felix Jaehn. “Dark purple” mostra uma balada especial com ricas camadas orquestradas, reflexos de fluxo criativo de Francies. “Love and fighter” fecha o disco com seu solo lírico, reforçando o conceito do álbum, em que o fluxo se sobrepõe a qualquer faixa especifica, trazendo contrastes e disposições variadas, sem medo de ser julgado.

Entre recentes cafés e revelações musicais, Francies me convence que o novo tem seu espaço, e que o jazz pode (e deve) ter variadas faces de improviso. Se “Flight” trouxe timbres que me levaram para longe, assim como o Cafuné na barra, a qualidade do som me fez sentir sempre próximo de casa.

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BEPOP

Playlist Ainda falando sobre o Cafuné, a ótima playlist que está disponível no Spotify tem mais de mil músicas, entre o melhor de jazz, blues, folk e pop.

Herbie Hancock na área Na próxima segunda feira, a lenda do piano Herbie Hancock se apresenta no Rio de Janeiro, no KM de Vantagens Hall. O show faz parte de sua turnê pela América do Sul, que já passou pela Colômbia, Argentina, Chile e Uruguai.

Branford Marsalis na Sala Cecília Meireles O aclamado saxofonista Branford Marsalis desembarca no Rio em única apresentação, no dia 2 de dezembro, domingo, às 19h, na Sala Cecília Meireles. O artista, de 58 anos, membro da família mais emblemática do mundo do jazz, promete uma virtuosa apresentação ao lado de seu quarteto. Imperdível.