Madeleine Peyroux encontra seu hino

Não falo de política, futebol, tampouco de religião. Não de maneira acalorada, buscando converter alguém para o que acredito. Mas, confesso, faço isso quando o assunto é jazz. Gosto, especialmente, de arrebanhar novos devotos para o ritmo. Foi assim com a minha mulher, Carolina, há oito anos. Para a conversão, claro, não posso mostrar inicialmente trabalhos complexos, como “A love supreme”, de Coltrane, ou “Kind of blue”, de Miles Davis. Existe um jazz suave, harmônico e estrategicamente cantado, que é a melhor forma de iniciação.

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Madeleine Peyroux encontra seu hino (Foto: Divulgação)


Madeleine Peyroux é uma das artistas capazes de conquistar novos fiéis para o jazz. Já foram 22 anos desde “Dreamland”, seu primeiro disco. De lá para cá, a cantora americana, nascida na Geórgia, flertou com os principais gêneros de sua raiz, como o folk, o blues e o rock, mas sem abandonar a veia jazzística, trazendo sempre uma encantadora melodia às suas composições.


Em “Anthem” (Verve Records), seu oitavo álbum, lançando mundialmente na última sexta-feira, Madeleine chegou ao ponto alto de sua carreira. Com um time de cinco compositores e 18 músicos participantes, ela se desafia, entrando e saindo dos limites do jazz, com sua voz singular e seu fraseado único.
O álbum reúne faixas que traçam um ponto de vista sombrio e provocativo sobre o estado atual de nossos tempos. “Anthem”, que dá nome ao disco, originalmente gravada por Leonard Cohen em 1992, é taxada por Madeleine como seu hino pessoal. O cantor canadense, que morreu em 2016, é uma de suas grandes inspirações.


De audição cativante e acessível (visto já na primeira faixa “On my own”), o álbum começou a ser produzido em 2016, durante as eleições americanas, tendo em sua maioria canções originais. Por isso, mescla letras que variam da amargura à esperança, em tons sarcásticos, reforçando a característica da cantora de lidar com situações políticas e do cotidiano em suas músicas.


Sempre comparada a Billie Holiday, Madeleine traz faixas como “Down on me”, que fala sobre atribulações financeiras, ou “Ghost of tomorrow”, que reflete sobre sonhos não realizados. As melodias leves de “Party time” e “Sunday afternoon” camuflam a escuridão de suas letras, em tons de resignação.


A Bossa Nova aparece em “Brand new deal” e “Last night we were young” (minha favorita), e no poema “Liberté”, de Paul Éluard, que aborda a experiência humana desde o nascimento até a morte, cantado por Madeleine a pedido de um amigo para um documentário sobre uma família com o filho em estágio terminal.
Apesar do nítido investimento em estúdio, Madeleine reforça que deixou as músicas “seguirem seu próprio caminho”, e que a mensagem principal é pela “busca do prazer enquanto é possível, já que o tempo é finito”.
Na religião de Madeleine Peyroux, menos palavras soam sempre melhor do que uma infinidade de detalhes.
Na minha, também.

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