Jornal do Brasil

Futebol & Cia

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Renato Mauricio Prado

Excelência em performance? Só rindo

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Faltando pouco pra bola rolar no Itaquerão, a paz reinava em Ponderosa. Com os cães tranquilos lá fora e um clima agradável na serra, tratei de me servir de um uisquinho com bastante gelo e me sentei em minha poltrona predileta diante da TV. Estava pronto para assistir, tranquilamente, à semifinal da Copa do Brasil, entre Flamengo e Corinthians. Vã ilusão! Logo, o vozeirão roufenho fez-se ouvir, às minhas costas:

- Gostou da escalação do estagiário, chefia? Eu não começaria com o Dourado, mas ver o Trauco de novo titular e o Paquetá mais à frente, com o Arão ao lado do Cuellar, me agradou. E o Diego, claro, tinha que jogar, né?

Sim, era o Bagá. Que está virando freguês de minha casa em Itaipava, nos dias dos jogos do Flamengo! A ponto de nem alvoroçar mais a matilha, que já o conhece e até abana o rabo quando ele chega. O ciclope foi adentrando a minha sala e, com ele, vieram Rin Tin Tin, Jade (meu casal de pastores alemães) e o Banzé (um dos vira-latas adotados da rua).

- Sabe por que eu não começaria com o Dourado, chefia? Porque se ele jogar mal e tiver que sair, durante os 90 minutos, o perderemos para uma possível decisão por pênaltis. Eu botaria o Paquetá de nove e o Vitinho na ponta-esquerda. Dourado só no finalzinho, se estivesse empatado.

O raciocínio do colosso de ébano era lógico. Mas preferi não dar corda e a bola rolou em relativo silêncio, quebrado apenas pelos barulhos que o ogro fazia ao sorver a cerveja, que pegou sem a menor cerimônia, na geladeira, e mastigar os biscoitinhos, igualmente apanhados sem licença, na despensa.

- Não gosto desse juizão! – disparou logo o Bagá, na primeira marcação contra o Fla. Uma falta de Diego em Jadson.

- Mas hoje tem VAR – repliquei, tentando acalmar a fera.
Aos 10 minutos de um jogo morno, boa jogada de Trauco com Everton Ribeiro acabou num passe para Dourado, cortado por Henrique, com perigo. O bramido do monstro fez Rintin e Jade levantarem as orelhas e Banzé, que dormia placidamente, abrir um dos olhos. Mas o urro de verdade aconteceria três minutos depois, quando Jadson encontrou Danilo Avelar livre, pela esquerda e o Corinthians abriu o placar. 1 a 0 pro Timão.

- @%$* *#@&% Não é possível, cacilda! Sai o Rodinei, entra o Pará e a avenida continua aberta na nossa lateral-direita!

Fato, mas quem também bobeou foi Everton Ribeiro, que não acompanhou o avanço do lateral-esquerdo corintiano. O jogo, porém, esquentou a partir daí. E Pará, vilão no tento corintiano, se redimiu logo em seguida, ao receber um lançamento perfeito de Arão e cruzar forte, provocando o gol contra de Henrique. Jogo empatado. 1 a 1.

- *@#* *&$@* Arão e Pará? Nunca critiquei! – gargalhou o ciclope aliviado, após o tradicional chorrilho de palavrões.
Bolinha na tela, gol de Barcos para o Cruzeiro, no Mineirão:

- É isso aí, é isso aí! Quero a revanche do ano passado – vibrou o Bagá.

Após trama de Diego, Paquetá e Everton Ribeiro, a bola chegou a Dourado, que fuzilou para a rede. Mas estava impedido...

- Esse poste só vive na banheira! Ceifador de oportunidades, isso sim! – estrebuchou, prenhe de razão, meu alucinado visitante.

Terminou o primeiro tempo empatado e a fera estava preocupada.

- Mengão tá melhor. Mas continua penando pra fazer gol! Se for pros pênaltis, meu coração não aguenta. E o Diego Alves ainda sentiu algo na coxa. Valei-nos São Judas Tadeu!

Recomeçou o jogo e a bolinha na tela logo deu conta do empate do Palmeiras, no Mineirão. Mas o empate ainda classificava o Cruzeiro. Em Itaquera, a igualdade também persistia, com maior posse de bola rubro-negra. Mas chance clara de gol, que é bom, nada.

- É muito toquinho, chefia, muito toquinho. Tem que chutar em gol.

Numa falta que ele próprio sofreu, Diego bateu de curva, meio cruzando, meio chutando, mas a bola foi pra fora. E seguia o empate no placar. Num contra-ataque, aos 15 minutos, Lucas Paquetá obrigou Cássio a espalmar, mas nenhum rubro-negro apareceu para concluir.

- Não disse que esse Dourado é um poste? Isso é bola pro centroavante marcar no rebote. Mas cadê ele?

Diego sentiu uma contusão muscular e acabou substituído por Vitinho.

- Tá na hora de você se consagrar, garoto! Chuta com vontade!

E ele atendeu, logo em seu primeiro lance. Tabelando com Paquetá, concluiu da entrada da área, obrigando Cássio a fazer boa defesa. Só que o garoto que entrou e fez a diferença foi Pedrinho que, também em seu primeiro lance, concluiu, balançando a rede. Timão 2 a 1.

- Ferrou, chefia! Acabou o ano. Esse time não tem uma jogada sequer, não faz gol em ninguém. Até o de hoje foi contra. Bando de armandinhos, dirigidos por um estagiário, num clube presidido por cara que não entende bulhufas de futebol e ainda é pé-frio. Vou me embora.

E foi mesmo. Nem viu a idiotice do estagiário, que tirou o melhor rubro-negro campo, Wiliam Arão, para colocar Lincoln, já no desespero. Não deu certo, claro. E o Flamengo acabará mais uma temporada de mãos abanando. Parabéns aos Centros de Excelência e Performance e de Inteligência e Mercado. Que de excelentes ou inteligentes não tem nada.



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