Jornal do Brasil

Entre realidade e ficção

Entre realidade e ficção

Álvaro Caldas

O explosivo estigma da cor da pele

Jornal do Brasil ÁLVARO CALDAS, ducaldas@terra.com.br

O que temos na tela do computador e nas páginas dos jornais populares é um retrato em preto e branco, sem contrastes, da perversidade do racismo brasileiro, que naturalizou a violência da escravidão colonial ao ponto de aceitar em silêncio a eliminação de suas vítimas. Luiz Carlos Justino, 23 anos, é violoncelista, casado e pai de uma menina de 3 anos. Desde os seis integra a Orquestra de Cordas da Grota, em Niterói. Passou quatro noites de terror na cela de uma delegacia, em Benfica, junto com outros 80 presos, sem contato com familiares ou advogados. Teve medo de ser esquecido e morrer. Acredita que a música o salvou.

Justino foi preso numa blitz quando saía de uma apresentação musical nas Barcas, por volta das 19 horas do dia 2/9, quarta-feira. Estava em companhia de três amigos também músicos. Sua pele é negra, esta a tipicidade de seu crime social. Os agentes da lei o arrastaram até um distrito policial por estar sem documento. Lá, foi informado de que havia um mandado de prisão contra ele, por assalto à mão armada na manhã do dia 5 de novembro de 2017, no bairro de Vila Progresso. No boletim de ocorrência, ele é descrito como agressivo e violento.

Os policiais apresentaram uma ação armada e uma data fictícias para justificar a abertura de um inquérito, o que se inscreve na tradição romanesca criada por Kafka, ao colocar seu personagem, Josef K., diante dos agentes de um poder totalitário que parece inverossímil e irreal, por isso kafkiano. O escritor tcheco começa seu livro O Processo com uma frase que se tornou exemplar para a descrição de situações semelhantes: “Certamente alguém havia caluniado Josef K., pois uma manhã ele foi detido sem que tivesse feito mal algum”.

No final de um exaustivo e longo processo pelos corredores do aparelho judicial e burocrático, K. é executado por dois carrascos vestidos de sobrecasaca. Numa sociedade que perpetua o racismo como a brasileira, o jovem violoncelista de uma orquestra de cordas sabe que sua tragédia é ter nascido negro. Que sempre haverá um caluniador para apontar sua diferença. Que os brancos da casta dominante não o aceitam - ou só toleram sua presença em postos subalternos - e querem destruí-lo.

Justino tem consciência de que esse encontro com a força policial do Estado podia acontecer a qualquer momento. Sai de casa todos os dias, no alto de uma comunidade no bairro de São Francisco, Niterói, para ir à padaria ou a um ensaio da orquestra, com esta apreensão. Leva no estojo o violoncelo, sabendo que no auto de resistência típico a ser redigido pelo policial, o instrumento se transforma numa metralhadora. Esta a lógica processual da política racista de extermínio. Luiz não conhece armas, nunca na vida ali-sou a coronha de um 38. Não vê saída para esses conflitos, agravados pela pandemia. Para trabalhar e cuidar da sobrevivência da família, leva consigo para a rua o estigma da cor da pele. E o violoncelo.

Aprendeu a manusear o arco que desliza pelas 4 cordas com o tio, que o levou para a orquestra de cordas ainda menino. Começou pelo violino e depois se apaixonou pelo violoncelo, que segundo os entendidos tem alma, depois que ouviu um recital de Pablo Casals. Na prisão, lembrava-se da orquestra, dos domingos que saíam para tocar. Usou esse artificio para resistir às provocações de um agente que ameaçava raspar sua cabeça com uma navalha. Luiz usa trancinhas no cabelo.

No documentário Narciso em férias, de Renato Terra e Ricardo Kalil, é perceptível em muitas passagens o mesmo ambiente kafkiano em que a violência cotidiana contra os direitos dos cidadãos não tem explicação. Caetano Veloso narra em detalhes sua prisão, junto com Gilberto Gil, em plena ditadura, há mais de 50 anos. Foram sequestrados em São Paulo e trazidos de camburão para o Rio, sem saber o que estava acontecendo nem do que eram acusados. Prenúncio do terror que estava a caminho.

No Rio, foram deixados em solitárias na Polícia do Exército, ainda na fase anterior à tortura, que se estabeleceu com a criação dos Doicodis, no ano seguinte. Um dia, ao ser retirado da cela, Caetano pensou que ia ser fuzilado. Foi conduzido a uma sala, onde o barbeiro cortou seus cabelos cacheados. Um cotidiano de pequenas cenas aparente-mente absurdas e sinistras, vindas de um poder incontrastável, como na retórica de Kafka n´O Processo.

Ao determinar a libertação do músico Luiz Carlos Justino, preso “por engano”, o juiz André Luiz Nicolitti perguntou no alvará de soltura: “Por que um jovem negro, violoncelista, que nunca teve passagem pela polícia, inspiraria desconfiança para ter sua foto num álbum de suspeitos”?. Data vênia, meritíssimo juiz, estamos num país em que a abo-lição da escravatura não foi completada. Os negros foram excluídos sem nenhuma repa-ração. Decorrido mais de um século, o racismo, atrelado ao liberalismo econômico, criou um sistema explosivo. 

*Jornalista e escritor