Memória de Lumumba exalta luta antirracista

Tudo começou quando li que os belgas decidiram retirar estátuas e bustos do rei Leopoldo 2º colocadas nas praças de Bruxelas, e imediatamente me lembrei de Patrice Lumumba. Os dois, o rei branco europeu e o primeiro-ministro negro se enfrentaram no Congo Belga, na década de 60 do século passado, na longa luta anticolonialista dos afri-canos. O monarca racista sobreviveu e virou estátua em seu país, o politico congolês que combateu a exploração colonialista e se projetou como um líder no cenário internacional durante a guerra fria, foi assassinado e condenado ao desaparecimento.

 

Esta recordação instantânea desencadeou outras imagens ligadas ao racismo e episódios envolvendo negros, como se eu estivesse acordando de um sonho tumultuado depois de uma longa noite assombrada por fantasmas. Fiquei com a confusa sensação de que viajara através de pequenos pesadelos, episódios curtos que se misturam e em se-gundos desaparecem da memória. Juntando todos talvez seja possível montar um longa metragem como o “Faça a coisa certa”, do Spike Lee, que vi na noite anterior.

 

Rodado no Brooklin em torno de jovens negros que frequentam a pizzaria de um italiano e seus dois filhos, até que uma noite explode a violência. Nos filmes de Lee os negros importam, rebelam-se, brigam por suas causas. O assassinato do negro George Floyd em Minneapolis, EUA, numa grotesca cena em que um policial branco o asfixia com a pressão do joelho sobre seu pescoço, detonou reações mundo afora. Entre nós, atos e manifestações antirracistas se espalham. O slogan vidas negras importam surge em camisetas, pichado em muros, outdoors, e é gritado em vídeos nas redes sociais.

 

Ao mesmo tempo, a imagem nítida do rosto de Lumumba não me sai da cabeça. Como se estivesse dirigindo-se ao rei Leopoldo, ele repete “Eu não sou seu negro”, ci-tando o título do livro de James Baldwin, escritor perseguido e discriminado nos Esta-dos Unidos por ser negro e homossexual. Do livro saiu um excelente documentário sobre o racismo americano, dirigido por Raoul Peck, que vi nestes dias de confinamento.

 

O racismo contra Lumumba foi atroz. Matou aos 35 anos aquele negro alto, elegante, orador fluente, que se projetou internacionalmente por sua forte personalidade na luta pela independência do Congo. Liderou a oposição ao racismo branco e à exploração da riqueza mineral do país por grupos estrangeiras aliados à Bélgica de Leopoldo 2º. Teve carreira politica curta e tumultuada. Preso durante um ano por militância, saiu para criar o Movimento Nacional Congolês pelo qual se elegeu primeiro-ministro da recém-criada República Democrática do Congo.

 

Os cenários voltam a se embaralhar e eu me vejo folheando a página de um jornal tomada pelo manifesto “Enquanto houver racismo não haverá democracia”. Leio que todos os movimentos ligados à causa negra se juntam na formação de uma Coalizão Ne-gra por Direitos, para exigir a erradicação do racismo como prática genocida contra a população negra. Uma proposta para valer, de engajamento e luta em todas as frentes. Um basta à mistificação de paraíso racial. O racismo deve ser rechaçado.

 

Permaneço indormido em estado de vigília. A tela do meu cinema noturno volta a se abrir para apresentar a figura criativa e engraçada de meu amigo de faculdade Oderfla Almeida, quase um Cantinflas. Negro, jornalista e compositor, cultivador da música clássica, nasceu em Niterói. Ele se prepara para assumir a presidência do Conselho Municipal de Tombamento e Urbanismo com um programa radical.

 

Na cerimônia de posse, para espanto de alguns dos presentes, Oderfla afirma que é preciso interromper a memória da barbárie. Chegou o momento de cancelar homenagens indevidas que consagram a desigualdade e a feiura. É preciso banir das vias publicas monumentos de opressores para dar visibilidade ao belo e aos que se destacaram por suas atividades solidárias nas artes, na política e na educação. Trata-se de um resgate da memória e não uma tentativa de destruição da memória.

 

Em sua crônica de indomáveis delírios, Oderfla pensou logo num busto para o historiador e professor Joel Rufino dos Santos, autor de uma dezena de livros de história para crianças e adultos. Ele quer pôr nas praças e calçadas estátuas e bustos de pessoas negras, porque é isto que importa no momento. De sua lista constam nomes como Pixinguinha, designado para saudar o publico do Teatro Municipal, ao lado de Villa Lobos. Machado de Assis, com o “Memorial de Aires” debaixo do braço, vigiará a entrada da Biblioteca Nacional. E completando o trio na Cinelândia carioca, a vereadora Marielle Franco, executada por milicianos, terá sua presença lembrada numa altaneira estátua na calçada da Câmara de Vereadores, a Gaiola de ouro.

 

Oderfla pensa em levar o escritor Lima Barreto para o Engenho de Dentro, para ornamentar o Museu de Imagens do Inconsciente, criado pela doutora Nise da Silveira. A estátua do sambista Ismael Silva, criador de Antonico, segue para o museu Niemeyer, em Niterói. A escritora Carolina Maria de Jesus, abraçada ao seu livro Quarto de Despejo, ficará na principal avenida de Madureira, e o geógrafo Milton Santos na praça do Museu do Amanhã, na região do Porto Maravilha. O monumento a Zumbi dos Palmares, ideia de Darcy Ribeiro, permanece na Av. Presidente Vargas, próximo ao Sambódromo. E o busto do guerrilheiro Carlos Marighela vai para a rua da Relação, no centro da cidade, onde fica o velho prédio do Dops, onde ele ficou preso.

O saltitante Oderfla ainda não decidiu onde colocar Zizinho, o extraordinário meia da seleção de 50. Pensou em retirar a estátua do Bellini da entrada do Maracanã. Depois achou melhor não. O ex-zagueiro do Vasco, capitão da seleção de 58, com nome de compositor de ópera italiano, merece permanecer. O negro Zizinho entra a seu lado e divide as glórias com ele.

 

Lumumba ficou apenas três meses no cargo de primeiro-ministro da República do Congo. Derrubado por um golpe de estado foi executado por um pelotão de fuzilamento comandado por oficiais belgas e líderes negros aliados. A trama para eliminação teve apoio da CIA e do Reino Unido, segundo documentos secretos divulgados em 2007.

 

A União Soviética tratou de homenagear o líder anticolonialista dando seu nome à Universidade Amizade dos Povos, uma das três mais importantes do país, criada para formar a juventude comunista de outros países. Muitos brasileiros passaram por lá. O irrequieto jornalista Oderfla já anotou em seu plano de reformulação da memória histórica que a UERJ, do Rio, passará a se chamar Universidade Patrice Lumumba.

Jornalista e escritor