Jornal do Brasil

Entre realidade e ficção

Entre realidade e ficção

Álvaro Caldas

O abominável Estado policialesco

Jornal do Brasil ÁLVARO CALDAS *, ducaldas@terra.com.br

Desde antes das eleições e com influência decisiva em seu resultado, o país vive sob um sistemático ataque de ondas virtuais que difundem o ódio, espalham vídeos, mentiras e denúncias anônimas típicas de um estado policial. Algo que se desenrola livremente no submundo das redes sociais da internet, constituindo uma ampla engrenagem controlada por grupos políticos e empresariais ligados direta ou indiretamente a familiares e apoiadores do governo Bolsonaro. Uma poderosa máquina ideológica que age impunemente fora da lei, exercendo forte impacto sobre o nível de informação e consciência das pessoas.

Antes se dizia laconicamente “deu no jornal”, para acabar com as dúvidas e confirmar a veracidade de um fato. Hoje basta mostrar a telinha do celular e dizer deu na internet. Pronto, fiéis e crentes acreditam piamente. Replicam de imediato como se estivessem cumprindo uma tarefa sagrada e já se armam para uma cruzada contra os potenciais inimigos denunciados. Manipulam os mesmos métodos que consagraram os serviços secretos de Inteligência de governos autoritários, aqui e no resto do mundo.

Na Alemanha Oriental, a Stasi, serviço secreto do regime comunista, criou um gigantesco acervo documental que possibilitou durante anos vigiar e saber tudo o que as pessoas faziam, através de informações anônimas. Os informantes eram premiados. No Brasil, o Serviço Nacional de Informações, SNI, criado pela ditadura, montou um as-sombroso esquema policialesco que controlava os cidadãos, estimulava o dedurismo e recompensava o hábito de delatar vizinhos, amigos e colegas de trabalho.

Qualquer um poderia se tornar de repente um perigoso subversivo, ser detido e perder o emprego, às vezes denunciado por um amigo ou familiar. Algo semelhante está se disseminando agora. Blogs e outros canais de mensagens que difundem o preconceito e a mentira, divulgam listas com nomes de jornalistas, pesquisadores, políticos, cientistas e artistas que não merecem confiança. São pessoas que defendem a liberdade sexual, religiosa, o aborto, o livre pensar, condenam o racismo, e que portanto também não me-recém-emprego nem patrocínios. Para serem presos, falta pouco.

O envio em massa de fake news durante a eleição presidencial foi denunciado pela Folha de S Paulo. Nada foi apurado, nenhum grupo identificado. Com o ministro Moro preocupado em proteger o clã Bolsonaro, envolvido no assassinato da vereadora Marielle Franco, a Polícia Federal tem outras prioridades. Agindo com total liberdade de ação, os blogs do submundo, muitos deles semioficiais, consolidaram um território para difusão de vídeos, notícias falsas e sensacionalistas de teor ideológico.

Fazem a defesa do autoritarismo e da intervenção militar, atacam ministros e instituições como o STF, rotulam pessoas de indesejáveis e comunistas, numa escalada em que ao atingir milhões de visualizações põem em risco as instituições democráticas. O ex-presidente Lula é um dos personagens mais visados neste circo de horrores. Com sua libertação, tornou-se um dos assuntos preferidos no Google. Ao ter seu nome digitado apareciam títulos como “Lula preso novamente”, “Ovada expulsa Lula de restaurante”. Tudo material fabricado, mas a verdade é o que menos interessa aos difamadores.

O perfil das postagens mostra que os vídeos chegam aos usuários de celular por mensagens de WhatsApp, e a partir daí geram buscas na internet. Nada que um delega-do da PF não possa investigar. O bombardeio segue um ritmo vertiginoso. Há vídeos de Marielle, com a voz arrastada de uma drogada, defendendo o aborto, enquanto se ou-vem comentários de que sua morte foi “justiça divina”. Em outro, uma quadrilha de tra-ficantes presa exibe camisas Lula livre. E há até um vídeo de navio venezuelano jogando petróleo no mar do Nordeste.

Tudo que se possa imaginar para espicaçar a ira dos seguidores do “mito,” que acaba de fundar o seu partido. Caberá a ele a presidência e ao filho Eduardo a vice. No sentido estrito da palavra, trata-se de uma seita, com o programa copiado da Ação Integra-lista, de Plínio Salgado. No interior de sua futura sede deverá ser instalado o ministério da Verdade, centro de difusão pelas redes sociais da politica oficial de mentiras, denúncias anônimas e pregação moralista e ideológica.

Não foram muitos os ficcionistas que trabalharam com sombrias projeções de um mundo futuro. O inglês George Orwell, com o romance distópico “1984” é o mais famoso deles. Orwell imagina um país totalitário, em que o governo persegue o indivíduo, considera crime a liberdade de expressão, reprimida pela Polícia do Pensamento. A tirania é supervisionada pelo Grande Irmão, que para seu exercício conta com o poderoso ministério da Verdade. Como quer Bolsonaro com seu partido, sua seita de fiéis e milicianos.

*Jornalista e escritor