Jornal do Brasil

Entre realidade e ficção

Entre realidade e ficção

Álvaro Caldas

Censura, mentiras e mistificações

Jornal do Brasil ÁLVARO CALDAS*

No título, não se trata de um lema, mas de um dado da realidade jogando com o que se contrapõe a ele. Nos palcos, nas galerias de museus e feiras literárias, os brasileiros celebram alguns de seus melhores autores no teatro, na literatura e nas artes plásticas ao mesmo tempo em que são assombrados pelo desenrolar de um cenário político perturbador. Em cartaz no Rio e São Paulo, Macunaíma, de Mário de Andrade, Os sertões, de Euclides da Cunha, homenageado pela Flip, e Abaporu, de Tarsila do Amaral em exposição no Masp, revigoram com a permanência de suas obras a importância da liberdade artística para a criação.

Em contraponto, partindo de Brasília, o país se encontra sitiado por um governo provocador de concepção autoritária, que produz um absurdo cortejo de aberrações a cada semana. Bolsonaro censura, mente e mistifica em suas ações e declarações. Em entrevista a correspondentes estrangeiros, defendeu a censura e ameaçou fechar a Agência Nacional de Cinema, (Ancine). Se arroga o papel arbitrário de censor para decidir qual filme pode ser visto pelo espectador. Se mantiver a escalada, vai criar por decreto um Departamento, o seu DIP, e pôr nas mãos de censores a aprovação de livros, revistas, jornais e peças teatrais. Como aconteceu durante a ditadura de seu herói, o abjeto torturador coronel Brilhante Ustra.

De antemão, anunciou que vetaria Bruna Surfistinha, o filme de grande sucesso de público. Em sua visão também não escaparia da tesoura o Nelson Rodrigues de Bonitinha, mas Ordinária, entre outros. Mostrando que não tem compostura para a função para a qual foi eleito, o presidente mente e mistifica. Depois de dizer que fome no Brasil é mentira, recuou ao reconhecer as evidências dos mapas divulgados pela FAO, agência da ONU. Questionou dados sobre o desmatamento da Amazônia e tentou desmoralizar o Inpe, considerado o melhor sistema de monitoramento de florestas no mundo. Depois foi obrigado a recuar. Em sua visão simplória, a divulgação constitui propaganda negativa para o Brasil.

Mentiu também ao afirmar que a jornalista Miriam Leitão, presa durante a ditadura quando tinha 19 anos e estava grávida, nunca fora torturada. Se tivesse conversado com Ustra saberia. Emendando uma mistificação em outra, Bolsonaro chegou ao final de sua entrevista aos correspondentes afirmando que a imprensa estrangeira está envenenada. “O mundo tem uma ideia totalmente distorcida de quem eu sou.” Com seis meses de governo, os brasileiros não têm mais o direito de desconhecer a quem entregaram a presidência de seu país.

Numa de suas ultimas medidas, cassou a vaga de especialistas representantes da sociedade civil no Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad). Justificou dizendo que não pode ficar “refém” de conselhos muitas vezes compostos por pessoas com viés ideológico diferente. Na verdade, o que fica claro é que Bolsonaro não quer ficar “refém “da democracia e só sabe governar de forma autoritária. Todas essas medidas e decisões enfraquecem instituições independentes, ou seja, minam o sistema de pesos e contrapesos que garante o equilíbrio da vida democrática.

Esta a grande sinuca de bico com que se defrontam os brasileiros, acarretadora de tensões, medos e ansiedades, apatia e depressão. As elites que o elegeram permanecem em silêncio, acovardadas. Euclides da Cunha, o autor homenageado na Festa Literária Internacional de Parati, a Flip 2019, ouviu tudo o que a crítica literária e especialista em sua obra, Walnice Nogueira Galvão, tinha a dizer sobre seu clássico Os Sertões. Em seguida pediu a palavra para afirmar, de certa forma respondendo às nossas indagações, que estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desparecemos.

Já a burguesa paulista Tarsila do Amaral está finalizando no Masp uma das exposições mais badaladas e concorridas do museu. As pessoas ainda querem desfrutar do prazer e da liberdade de ver obras de arte. Tarsila, que foi casada com o modernista Osvald de Andrade e grande amiga de outro, Mário, é uma das precursoras da arte moderna no Brasil. Há filas para entrar, filas para tirar selfies diante das telas A Negra e Abaporu, consideradas grandes enigmas de sua obra. Sucesso de visitação, “Tarsila Popular” já recebeu mais de 350 mil visitantes

E com isto chegamos a Macunaíma, e eu me lembro imediatamente do filme de Joaquim Pedro de Andrade, com Grande Otelo. Baseado no romance de Mário de Andrade, o controverso herói sem nenhum caráter ganha nova montagem teatral, que chega ao CCBB do Rio depois de passar por |São Paulo e Belo Horizonte. A encenação da talentosa Bia Lessa assume a obra como uma rapsódia musical. Bia vê muitas aproximações e semelhanças entre o ciclo de vida e morte do herói do livro com o que estamos vivendo hoje.

Segundo a encenadora, há no país um movimento de destruição muito profundo e sério. Há o perigo de coisas que podem acabar para sempre, do ponto de vista humano, ambiental, do saber, da preservação dos povos. Não podemos olhar isso como brincadeira. É inaceitável, porque apaga a memória, é contra a vida a contra a felicidade.

*Jornalista e escritor