Um disco voador desceu na selva colombiana

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JB
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Na desordem desse estranho mundo em que nos encontramos, o resultado da eleição colombiana consagrou uma surpresa e consolidou um novo giro da história do continente, que corre solta misturando parâmetros e quebrando tabus e verdades estabelecidas. Com o triunfo de um ex-guerrilheiro, cinco das seis maiores economias da América Latina passam a ter governos de esquerda, todos eleitos em pleitos duramente disputados. Com resultados até aqui assegurados.

Estão neste time a Colômbia, a Argentina, México, Chile e Peru, que elegeram governantes afinados com o pensamento reformista e social de combate às desigualdades. Venezuela vive o seu drama particular e o Brasil constitui exceção. Mantida a estabilidade democrática na Colômbia, os ventos que sopram das montanhas andinas contribuirão para reforçar as barreiras ao golpe posto em marcha por Bolsonaro e seu exército de milicianos.

Forma-se no continente uma imprevisível e instável vaga de mudanças, das quais a palavra revolução foi banida. Novos desafios são testados. Movimentos de resistência trabalham com diferentes afinidades ideológicas, diante do secular quadro de atraso e emergência política e social. A catástrofe da miséria e da fome espalha-se de forma generalizada, mantida por governos capitalistas corruptos e militares conservadores.

De forte influência na década de 60, o mítico exemplo da revolução cubana esvaiu-se no tempo. A busca por uma visão totalizante desapareceu. À frente de um movimento insurrecional que parecia irresistível, a geração de 1968 não conheceu o poder. Talvez tenha sido a última geração que discutiu e tentou levar à prática as teses da sagrada família do marxismo-leninismo. Seus livros eram levados debaixo do braço. Uma geração formada no reformismo do Partidão, que se sublevou e embrenhou-se na guerrilha urbana e luta armada.

Boa parte dela foi assassinada sob tortura. Os mais jovens saíram das ruas do movimento estudantil direto para os cárceres ou o exílio. Foram esmagados pelos exércitos dos ditadores que se uniram na Operação Condor. Outra parte destes jovens tomou o caminho da estrada. Viajou, cantou e dançou nos festivais, encantados com a liberdade e a sedução das drogas e do sexo. Deixou uma marca de rebeldia e transgressão.

Lembro-me de um dia, conversando com o Túlio Quintiliano, estudante de engenharia, ao final de uma reunião, ele me perguntou que trabalho eu faria uma vez instalado o governo revolucionário. Foi a primeira vez que alguém me levou a pensar sobre isso. Dei uma tragada, soltei a fumaça do cigarro e respondi que certamente algo parecido com o que fazia, na mesma área. Ele disse que queria trabalhar no setor de construção, abrindo estradas. Túlio foi preso no Chile depois do golpe de Pinochet e levado para o Regimento Tacna. Torturado e assassinado, seu corpo desapareceu.

Como se fosse um romance de difícil classificação, em que os tempos históricos se cruzam, eis que um disco voador pousa na selva amazônica colombiana. De dentro dele sai um homem de uns 60 anos, vestido com um casaco bege. Junta as mãos em cima da cabeça e exibe um sorriso confiante. Atrás dele desce uma mulher negra, com um vestido listrado de varias cores, folgado no corpo. De suas orelhas refulge um par de brincos com as pontas douradas.

Ele é o político Gustavo Petro, senador e ex-prefeito de Bogotá. Na juventude participou da guerrilha, integrante do Movimento 19 de abril (M-19), que depôs armas em 1991. Ela é a advogada e ativista ambiental Francia Márquez, detentora de um prêmio internacional, o Nobel Verde, por seu trabalho no combate a projetos de mineração ilegal. Engravidou-se aos 16 anos, quando já trabalhava na mineração artesanal de ouro. Conseguiu concluir o ensino médio e formou-se advogada.

Emana dos dois uma aura de vencedores, portadores de um histórico projeto de transformação social e verde, que ela apelidou de um governo de pessoas com as mãos calejadas. Gustavo, o primeiro presidente de esquerda, e Francia, a primeira afro-colombiana a ocupar a vice-presidência. Nos primeiros cem dias aplicarão um plano emergencial contra a fome, num país que tem 30% de sua população em condições de pobreza extrema.

A Colômbia da floresta amazônica e das montanhas dos Andes está num momento crucial de sua história. Trata-se de ir à frente e agüentar o rojão. A luta de classes será implacável. Não se trata mais do realismo mágico de García Márquez. Será preciso manter a estabilidade política e econômica diante dos ataques do poderoso algoritmo do mercado. Das tentativas militares de ruptura e de ações de sabotagem.

Uma antiga e violenta história de golpes que atravessa a América. Gustavo Petro e Francia Márquez terão que mobilizar suas forças para enfrentá-los e permanecer de pé. Com a maioria de jovens, mulheres e eleitores negros que os elegeram.

*Jornalista e escritor

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