A mítica revolução cubana chega a uma encruzilhada

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Como se fosse personagem de um romance polifônico, Cuba, o país do Caribe, está numa encruzilhada. O abalo provocado pelos protestos ocorridos em 11/07 em diversas localidades repôs o país no centro do debate internacional e empurrou o destino do seu regime político para um ponto de impasse. O governo terá que ceder e preparar mudanças com urgência. Qualquer solução exigirá negociações difíceis e prolongadas e novos sacrifícios de população, que sempre deu seu apoio à revolução.

Com o tempo, a ilha de Fidel e de Padura, do Che e de Lezama Lima, ficou prisioneira de uma ditadura socialista de partido único e economia centralizada, na qual a liberdade é vigiada. Que reprime manifestações e censura vídeos que circulam pela internet. Excluída do cânone democrático-liberal do Ocidente, que insufla e tolera transgressões e aberrações de países amigos. Não se trata somente de uma agressão externa, vinda da quinta coluna anticastrista de Miami com o apoio dos marines americanos e de agentes da CIA, que há 62 anos tentam desestabilizar e derrubar o regime castrista.

Os distúrbios e atos de violência que deixaram dezenas de feridos e centenas de detidos decorrem de problemas do agravamento da crise sanitária e do estrangulamento econômico, que chegou a um ponto extremo de desabastecimento. O governo central respondeu com manifestações em várias cidades, reunindo, segundo estimativas oficiais, 100 mil pessoas. Em Havana, em frente à embaixada americana, no Malecón, o presidente Dias-Canel ao lado de Raul Castro, acusou Washington de estar por trás dos protestos e de manipular as redes sociais. Repetição de uma velha e desagastada fórmula que não pode mais ser aceita.

Situada no imaginário de nosso tempo de transição entre os séculos 20 e 21, ocupando uma dimensão mítica que transcende a ruptura revolucionária com a derrubada do ditador Fulgêncio Batista, a ilha sobrevive no limite da dignidade a um covarde e desumano bloqueio imposto pela maior potência do planeta. Para tirar o território socialista cubano de sua vista, os EUA já invadiram, bombardearam e executaram inúmeras ações de sabotagem, desrespeitando decisões de organismos internacionais, que condenam o terrorismo e o embargo.

O mistério está em que Cuba é um pequenino país fascinante, que transpira história, literatura, música, cinema, poesia, box e esportes olímpicos, associados à boemia e sensualidade de suas praias e de seus mojitos da Bodeguita del Medio. Com a revolução, a ilha emergiu com um extraordinário potencial de libertação política, respondendo em especial aos anseios e desejos de liberdade e criação da juventude. Um ícone que passou a transitar entre o paraíso e o inferno.

País com uma população de maioria negra que canta e dança nos terreiros de macumba, teria feito um pacto com o diabo. Que ousou expulsar o capitalismo de suas fronteiras e produziu avanços significativos na saúde, na educação na erradicação do analfabetismo e de doenças. Que exportou a revolução, sua literatura, sua música, seu cinema e seus charutos. Que ao longo desses anos recebeu manifestações de carinho e solidariedade da maioria de sua população, a despeito de todos os sacrifícios que lhe são impostos. Che e Fidel têm tratamento de heróis.

E que envelheceu e chegou a uma encruzilhada. Precisa se abrir, com reformas políticas e institucionais para renovar energias. Para minha geração, assim como para boa parte da esquerda latino-americana, Cuba é uma espécie de tabu. Ninguém pode tascar a ilha de Alicia Alonso e Camilo Cienfuegos, Cabrera Infante e Alejo Carpentier, Omara Portuondo e Compay Segundo. Quem lá não esteve fazendo treinamento para guerrilha na década de 1960, por lá transitou na volta do exílio, deixando recordações e amores. Ou visitou depois, como foi o meu caso.

Desci com Alice no aeroporto Jose Martí em fevereiro de 2005. Ficamos num cinco estrelas em Havana e depois num resort na praia de Varadero, diante das águas esverdeadas do mar do Caribe. Não encontramos Hemingway bebendo um mojito na Bodeguita, nem Garcia Márques na Casa das Américas. Instruído por meu amigo Cordeiro, levei numa malinha de mão um precioso pacote contendo sabonetes, pasta de dente e papel higiênico. Mongue, um disciplinado quadro do Partido, apareceu no hotel para receber. Depois nos levou a restaurantes familiares baratos. Um retrato da Cuba socialista.

Afinal, que país é este? Para o escritor Leonardo Padura chegou a hora de realizar mudanças. Se houve provocações e atos de oportunismo e vandalismo, também se ouviu um grito que é fruto do desespero de uma sociedade que atravessa não só uma longa crise econômica e uma crise pontual de saúde. Trata-se também de uma crise de confiança e de perda de expectativas. A esse clamor desesperado, segundo Padura, as autoridades cubanas não deveriam responder com os habituais lemas repetidos há anos. O que se impõe são soluções, que os cidadãos esperam ou exigem.

Certamente que não é um país ideal, mas também não é uma ditadurazinha de merda como tantas que floresceram neste continente. A história registra que Cuba fez uma revolução, uma das três que mudaram o panorama do século XX, ao lado da bolchevique, de Lênin e Cia, e da chinesa, de Mao, Chou Enlai e Lin Piao. Em nome da justiça revolucionária, o grupo guerrilheiro enfileirou inimigos, membros do antigo regime e “traidores” no Paredão. E fuzilou. Revolucionários se consideram portadores de um direito visceral, que lhes dá legitimidade.

O destino da ilha está em jogo. Há dez anos Raúl Castro iniciou um processo de reformas abrindo o mercado de trabalho para iniciativas privadas nos setores de turismo e alimentação, Também promoveu mudanças na mídia, dando espaço para canais de informações independentes. Mas isso é pouco. Precisa abrir de fato, acabando com os velhos dogmas do Partido, com eleições diretas e liberdade de expressão. Biden já declarou que o boqueio continua, nos moldes de Trump. A tensão aumentou. A obsessão das autoridades americanas é tirar a ilha socialista do mapa do Caribe.

*Jornalista e escritor