De quantos anos de silêncio vamos precisar?

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Diante de todas as urgências e tumultos dos dias que estamos vivendo, com um volume perturbador de crimes envolvendo a participação do governo, surge a premência de falar do silêncio. O silêncio é misterioso, pode ser agressivo, expressão de recolhimento, de dor e horror. Penso no silêncio a partir de uma indagação angustiante para o futuro de um país atraiçoado, longe de abençoado por Deus. Quantos anos de silêncio serão necessários parta cumprir o luto pelos mais de 530 mil brasileiros mortos pela Covid 19, com a cumplicidade criminosa de Jair Messias Bolsonaro?

Pelo menos 350 mil poderiam ter sido evitados se autoridades de vários escalões não tivessem sabotado medidas sanitárias e agido de forma irresponsável e corrupta na importação de vacinas. Quantos minutos de silêncio convertidos em anos serão necessários para assimilar a raiva e a impotência dolorosa dos que testemunharam o genocídio? Daqui a 80 anos, até o final do século, familiares e amigos ainda estarão lembrando-se dos mortos que não puderam chorar e velar, neste banho de sangue sem precedentes na história mundial.

Foi a escritora Noemi Jaffe, em sua coluna no jornal de literatura Rascunho, que me chamou a atenção sobre o peso e a graça do silêncio. Noemi trata do tema da memória em seu último livro, O que ela sussurra, Cia. das Letras. Usando a sua ela dá voz à jovem Nadejda, que guardou na memória os poemas destruídos de seu marido, o poeta Óssip Mandelstam, morto num gulag stalinista na Sibéria. O silêncio também pode ser hipócrita e omisso, agressivo e irônico, quase sempre acompanhado de um olhar que o corrobora, diz Noemi.

Os ecos e os traumas da bomba atômica lançada em Hiroshima permanecem até hoje na cidade reconstruída, nas deformações dos sobreviventes e na consciência da humanidade. Na manha do dia 6 de agosto de 1945 um bombardeiro B 29, da Força Aérea americana, soltou a bomba na cidade japonesa, matando mais de 100 mil pessoas e causando ferimentos em outras milhares. O presidente Truman ordenou o ataque nuclear para atingir seus objetivos na guerra. O presidente Bolsonaro usa a estupidez e o negacionismo de sua ideologia fascista, associada a seu desprezo pela vida e ao ganho extra de propina nos contratos, para dizimar parte da população brasileira.

Estes últimos dias foram tumultuados, sem espaços livres para o ócio e momentos de contemplação. Os acontecimentos se precipitaram, aparelhos de televisão permaneceram ligados durante a jornada de trabalho em casa. A cada nova notícia, as palpitações se aceleravam. Jornais publicaram editoriais na primeira página. Os crimes atribuídos a Jair Bolsonaro e seu governo multiplicaram-se. Crimes miúdos, crimes graúdos e cabeludos, de natureza diversificada.

Crimes contra a vida, a natureza, as artes, contra negros, os indígenas, as florestas, as mulheres, os 14 milhões de desempregados, os gays, os funcionários do SUS, jornalistas e cineastas, contra os cofres públicos, a Constituição. As coisas desandaram. O cara parece encurralado e enlouquecido. Seu mandato periga. No final de semana abriu-se o inquérito para investigar o presidente por crime de prevaricação. No sábado, manifestantes foram às ruas, em todas as capitais do país, para pedir o impeachment. Foi a terceira onda de manifestações em dois meses.

A cada dia cresce o número de brasileiros convencidos de que Bolsonaro é uma fraude, cometeu crimes de responsabilidade durante a pandemia e deve ser afastado. Seu índice de rejeição pulou de 51,4% para 62,5%. Estouraram escândalos nas negociações para a compra de vacinas, envolvendo pessoas estranhas e suspeitas como um cabo da PM, militares que ocupam o ministério da Saúde, uma escória de atravessadores, operadoras e picaretas. Com o conhecimento e omissão do presidente. Na presidência da Câmara, Arthur Lira fecha os olhos. Comporta-se com o cinismo de um cúmplice na defesa de seus negócios.

A jornalista Juliana Dal Piva, do UOL, trouxe fatos novos ao inquérito da “rachadinha,” dinheiro recebido por familiares, milicianos e amigos no gabinete do deputado Flavio Bolsonaro e repassado à organização, chefiada pelo PM Fabricio Queiroz. Gravações com o relato de uma ex-cunhada, Andrea Valle, apontam a participação pessoal de Bolsonaro, o número 1 no esquema.

Diante de tantos elementos cruzados de corrupção, os brasileiros estão na expectativa de que alguma coisa importante está para acontecer. O reinado dos milicianos apodreceu. Algo que virá dos tribunais de Brasília, da CPI da Covid ou do grito das ruas, rompendo com o silêncio. Tornou-se imprevisível a caminhada até 2022. Os aguerridos velhinhos da geração de 68 combinaram uma pichação pelas ruas do centro do Rio, com apenas duas frases: Bolsonaro nunca mais, Hiroshima nunca mais.

*Jornalista e escritor