A insustentável letalidade do capitão de milícias

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O Brasil de Médici foi pior? A pergunta feita por um ex-aluno que hoje trabalha como correspondente de uma revista cultural alemã não teve resposta imediata. Disse que ia pensar. Qual deles, o general ou o capitão, causou mais danos a este país que por diversas vezes já teve o seu futuro roubado? São momentos históricos de natureza diferente, embora os rastros deixados pela brutalidade do autoritarismo tenham pontos de convergência. Numa primeira avaliação, digo ao meu ex-aluno que a letalidade do atual regime é insuperável. Os brasileiros morrem de forma indiscriminada e massiva, aos milhares, enquanto o regime de 1964 eliminou seletiva e ideologicamente.

A ditadura censurou, vigiou as pessoas, premiou a delação, fechou o Congresso, prendeu, torturou, matou e baniu os que se rebelaram. Do alto de sua arrogância autoritária, difundiu o slogan Brasil, ame-o ou deixe-o, indicando aos descontentes a porta de saída aberta. Muitos dos que acreditaram nesta falácia foram detidos nos postos de controle da Polícia Federal nos aeroportos e rodoviárias. Havia listas com os nomes de pessoas e também cartazes com fotos de terroristas procurados. Mais seguro era sair clandestinamente.

Hoje esse slogan não serve mais. Talvez se pudesse dizer: Brasil, abrace-o e lute por ele. No Brasil tomado pelos vírus da insanidade fascista combinado com o vírus de uma pandemia de alcance planetário, sequer podemos sair de casa e do país. As fronteiras estão vigiadas porque nos tornamos exportadores de variantes do novo coronavírus. Logo, uma ameaça à humanidade. Por descaso, incompetência, sadismo, negacionismo e desprezo pela vida, esses crimes são praticados por um governante que se pauta pelo cinismo e pelo escracho ao se dirigir aos outros. E às suas mães.

Um mito repelente que repete mentiras sem nenhum pudor. Um ser inominável que nem o rosto mostra, moldou sua face com uma máscara de látex, como se fosse um boneco, a ostentar permanentemente um sorriso desumano. Numa escalada assustadora, o total de mortes por dia está batendo as 2.500. Há colapso na distribuição de vacinas, os hospitais e UTIs estão superlotados, idosos infectados morrem em casa por falta de ar. No comando do caos mortífero, um chefe de milícias dotado do prazer e do poder de inviabilizar o trabalho e a vida dos brasileiros.

O nome disto é genocídio e isto é uma declaração de guerra interna. Pessoas que votaram nisto começam a declarar seu mal estar, não acreditaram que o ódio chegasse a tanto. Nem mesmo diante das tantas provocações e cafajestadas feitas durante a campanha, que incluíram declarações de amor ao Condottiere Mussolini. Trata-se de pessoas da elite, gente letrada com formação superior, e não dos excluídos que esperam o miserável auxílio de emergência para sobreviver à fome.

Na novela A morte em Veneza, de Thomas Mann, o personagem sabe que a peste está tomando conta da cidade. Sabe que as pessoas estão morrendo, que ele e todos os moradores correm perigo, mesmo assim não conseguem sair. O que impede o escritor Aschenbach de sair de Veneza é uma arrebatadora paixão. Prisioneiros de um momento obscuro de sua história, os brasileiros marcham como sonâmbulos rumo ao desastre, como notou o pensador Edgar Morin, 98 anos, sobre a crise da democracia na Europa no período de entreguerras, que levou ao fascismo.

O país vive a expectativa de irrupção de um clamor que interrompa essa marcha fúnebre silenciosa. Uma assembleia convocada por instituições e entidades democráticas como a OAB e a ABI, os partidos de oposição, movimentos sociais, setores do judiciário e até organismos internacionais. Uma assembleia que coloque em votação o direito à vida, à liberdade de associação e expressão, os direitos fundamentais do homem consagrados pela Declaração Universal. De onde virá a convocação? Pode vir de variados lugares, das igrejas mesquitas e sinagogas, mas é mais provável que parta das mulheres, que estão assumindo a liderança em todas as frentes de lutas.

Meu caro aluno versado em alemão, aqui concluo minha digressão. Cada autoritarismo tem seus horrores e particularidades. Na ditadura verde-oliva de Emílio Médici, a censura à imprensa e a repressão armada garantiram o funcionamento do regime. Enquanto enchíamos os cárceres, do lado de fora tinha início a caricatura do “milagre” econômico articulado pelo ardiloso Delfim, que rubricou o AI-5 e criou o arrocho salarial. O país estava perto da euforia e dos grandes negócios no mercado de ações, da formação dos conglomerados econômicos, da vitória na Copa do México. Estava em marcha a fase do “Brasil grande”. Dentro dos cárceres, o mais brutal e prolongado período de repressão da História do Brasil.

Mas tem uma novidade de última hora que você pode contar aos alemães em sua próxima correspondência. Desastres não são eternos. Há uma luz nova no cenário nacional. O ex-presidente Lula readquiriu seus direitos políticos e voltou à cena com um discurso em que juntou os cacos. Falou com sentimento e emoção da tragédia, pediu que não tenham medo dele e elegeu o capitão de milícias como o principal inimigo. Uma luz que pode contribuir para a urgente convocação da Assembleia do Clamor, que se propõe a romper esta doentia dualidade entre um capitão e um general, farinhas do mesmo saco autoritário.