A fúria dos populistas ronda a democracia

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Em meio a um mundo convulsionado pela recusa de Donald Trump de aceitar a derrota na eleição americana, erguendo barricadas na Casa Branca, o presidente Jair Bolsonaro submerge num surto de descontrole emocional, com reações típicas de um déspota ensandecido. No mesmo momento em que perde seu guia ideológico e espiritual, ele vê o seu governo despencar ladeira abaixo nas pesquisas eleitorais. Acossado pela perspectiva da derrota no pleito, com as divisões em sua base de apoio, restou ao presidente tornar-se refém do Centrão no Palácio da Alvorada, de onde acompanha a derrocada de sua política econômica liberal.

Impossibilitado de se movimentar em Brasília, o ministro Paulo Guedes foi para o canto do ringue, sem ação, enquanto vê crescer o risco fiscal e o enorme contingente de brasileiros desempregados. Nenhum economista sério, da Avenida Paulista aos da Fundação Getúlio Vargas, acredita mais em retomada da economia. É hora de Guedes pedir o boné e voltar a tratar de seus negócios particulares. Frustrado por não ter conseguido vender nenhuma estatal, disse que o país pode ir para a hiperinflação muito rápido se não rolar a divida satisfatoriamente.

Os fatos mostram um país desgovernado que se encaminha para o caos. Fosse Dilma Rousseff na presidência o barulho seria outro, com os íntegros varões da República Cunha e Moro pontificando nas manchetes dos jornais. As panelas estão caladas. A ressentida classe média, que votou no capitão de bravata, enfiou a viola saco. Se tivesse coragem e convicção, deveria ir agora para as ruas defender o seu falso mito.

O cenário torna-se mais grave na medida em que cresce o risco de prisão de seu filho Flávio e amigos milicianos. A detalhada denúncia apresentada pelo Ministério Público do Rio depois de mais de dois anos de investigações, acusa o senador Flávio Bolsonaro, seu ex-assessor Fabricio Queiroz e ouros 15 investigados dos crimes de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

O ex-deputado estadual é acusado pela promotoria de ter desviado R$ 6,1 milhões dos cofres públicos, entre 2010 e 2014, por meio de depósitos fracionados recebidos através do esquema da “rachadinha”. A diferença é que desta vez há na peça a confissão de uma ex-funcionária do gabinete do parlamentar. Luiza Sousa Paes entregou seus extratos bancários e afirmou ter contribuído com quase todo seu salário para abastecer o esquema. Caberá ao TJ-RJ analisar as 300 páginas da denúncia e aprovar a abertura de ação penal contra o primogênito de Bolsonaro, sua mulher, Fernanda Antunes e o amigo Queiroz. Só não o fará por incúria, desfaçatez ou pressão política.

Em meio a um confronto planetário que põe em cheque as próprias instituições democráticas dos EUA, o Brasil se mobiliza internamente para enfrentar uma grave crise política e social, que o resultado da eleição municipal pode tornar descontrolada. A ponto de por em risco a democracia, a liberdade de expressão e o respeito aos direitos humanos, conquistas sempre sujeitas a serem interrompidas por golpes em nossa História.

Isolado, Bolsonaro criou uma realidade paralela e repete suas bravatas num tom mais alto. Declara guerra à vacina chinesa, fala em usar pólvora contra Biden, tudo expresso numa linguagem agressiva em suas rápidas declarações. A mesma retórica da guerra psicológica adversa, seguindo os manuais do velho SNI da ditadura. Passa a mensagem que fará do Alvorada um bunker de resistência, repetindo as ameaças autoritárias de seu mentor político e guia espiritual.

Protagonizando um dos capítulos mais tenebrosos da história da América, Trump rejeitou a derrota e investe numa cruzada judicial. Seu secretário de Estado fala num segundo mandato para o líder populista que dividiu a América ao meio. A reação internacional é de espanto e temor. As principais nações europeias reconheceram a vitória de Biden. Rússia e China mantém uma postura cautelosa, com receio de desagradar ao xerife.

Como ao final da última Grande Guerra, em 1945, quando as potências vencedoras se reuniram para redesenhar o mapa político mundial e as áreas de influência de cada uma, disputas de poder estão em jogo neste novo cenário. Diante do impasse eleitoral nos EUA, as principais potências procuram manter seus interesses neste novo cenário de poder global. Derrotado o nazifascismo, Roosevelt, Stalin e Churchill se reuniram em Yalta para decidir o que fazer com a Alemanha derrotada e o futuro da humanidade. Estabeleceram as bases de uma nova ordem internacional para as cinco décadas seguintes, dando início à guerra fria. A fúria dos populistas derrotados cobre de sombras e ameaça o futuro da democracia.
*Jornalista e escritor