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Um CD pródigo em respeito à pluralidade da música brasileira

A cada dia André Mehmari se torna um músico maior. Dizer que ele é multi- instrumentista é chover no molhado. Pois o cara,...

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A cada dia André Mehmari se torna um músico maior. Dizer que ele é multi- instrumentista é chover no molhado. Pois o cara, de fato, toca muito e muitos instrumentos. A sabedoria e a qualidade insofismável de sua música e de sua virtuosidade levam-no ao restrito universo dos mestres de obras-primas.

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André Mehmari, Bernardo Maranhão e Alexandre Andrés lançaram o CD Rã (Foto: Reprodução)

Além de tudo, ele supera a dicotomia e evidencia aos “separatistas” que música popular e a erudita são gêneros univitelinos. Sua música rompe laços e agrega virtudes, provando que ela (a dele e de poucos mais) pode e deve ser vista como uma só: música brasileira, sem reducionismos!

Dormindo e acordando no Monteverdi, estúdio montado em sua própria casa, na Serra da Cantareira, André Mehmari é uma oficina de sons. (Por favor, não espalhem, mas para parir belezas o danado dorme com as músicas.)

Pois bem, André Mehmari e os ótimos compositores e músicos mineiros Bernardo Maranhão (letrista e cantor) e Alexandre Andrés (flautista, cantor e violonista) acabam de lançar Rã (independente).

Em suas dezesseis faixas, todas autorais, cinco são regravações e onze são inéditas – ali beleza é a tônica dominante. Além disso, Nei Dias, viola caipira, Artur Andrés, marimba, e a cantora portuguesa Maria João Granchana têm participações especiais.

(Faixa 1) “Dança” (Alexandre Andrés e Bernardo Maranhão) é cantada por Bernardo Maranhão. Afinada, sua voz tem personalidade. Nehmari toca piano, baixo fretless, synth e, de quebra, canta. As levadas são de responsa, múltiplas, saltitam leves, impulsionadas que estão pelo divertimento de Mehmari no synth.

(Faixa 5) “Nós outros” (Mehmari, Andrés e BM) tem AM no koto. Com som precioso, koto é um instrumento de cordas dedilhadas, semelhante a uma grande cítara: o mais popular dentre os instrumentos tradicionais japoneses. AA toca flauta em sol e BM canta, mas abre a faixa declamando um verso curto. Logo vêm melodia e letra – belas! A atmosfera é de reflexão.

(Faixa 6) Em “O Mantra de Miguel” (AM e BM) Nehmari toca piano, baixo fretless e synth, além de dividir o canto com Maranhão. O piano antecede o canto delicado. O synth vem bonito, e, sobre ele, as vozes criam um breve cânone.

(Faixa 9) Em “A Festa dos Pássaros” (AM e BM) Mehmari toca piano e canta, enquanto Andrés também canta, toca flautas e violão. A participação especial de Neymar Dias na viola caipira empresta ares nordestinos ao arranjo. E ela vem bonita na intro. Flauta e piano dedilham notas. A flauta segue. Mehmari e Andrés formam um duo a entoar vocalises. O Brasil está ali, infinito...

De tão pródigo em experimentações instrumentais, o álbum do trio é um prazer para os ouvidos. Sem parti pris, a música de André Mehmari, Bernardo Maranhão e Alexandre Andrés agrega valor ao CD e às suas próprias biografias.

Na verdade, tudo em Rã é apaixonante. Tudo é dessemelhante para ser ainda mais música brasileira. E é quando o popular e o erudito concebem um mosaico de música brasileira.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4