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Coisas da Política

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Se resposta de Trump foi lenta...

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Domingo de Páscoa é dia de confraternização familiar em quase metade do mundo. Há povos que não seguem essa tradição judaico-cristã. Mas nesse bissexto ano de 2020, que teve uma data estranha (20.02.2020), a quinta-feira anterior ao feriadão do Carnaval podia ter evitado que boa parte do mundo estivesse hoje com o coração na boca sem poder confraternizar com os entes queridos. Os que têm responsabilidade consigo, os seus, e os semelhantes, estão se resguardando à espera da luz no fim do túnel.

O jornal americano “The New York Times” trouxe na edição de sábado uma extensa reportagem produzida por seis experientes jornalistas mostrando como o presidente da maior nação do mundo poderia ter evitado que os Estados Unidos (com 329 milhões de habitantes) chegassem ao Domingo de Páscoa com a liderança absoluta dos casos registrados (550 mil) do novo coronavírus (Covid-19) e mais de 20.500 mortos, superando a Itália (20 mil) e a Espanha (quase 17 mil), países com 60 e 47 milhões de habitantes, respectivamente. Vale lembrar que, se o Brasil, com 211 milhões, já acumula 1.250 vítimas fatais, a França já tem 14 mil baixas e o Reino Unido 1 mil, ambos com população da ordem de 67 milhões de pessoas. Quem demorou a agir contra o vírus surgido na China em dezembro enterra seus mortos sem poder velá-los.

O NYT é peremptório na capa: “O presidente Trump demorou a absorver a escala do risco do vírus e a agir em conformidade, concentrando-se em controlar a mensagem e proteger os ganhos na economia”. O NYT lembra que o primeiro alerta foi feito no país em 28 de janeiro, quando um calejado consultor médico do Departamento de Assuntos de Veteranos, Dr. Carter Mecher, advertiu em um e-mail para um grupo público de especialistas em saúde espalhados pelo governo e universidades. "O tamanho projetado do surto já parece difícil de acreditar."

Uma semana após o primeiro caso de Covid-19 ter sido identificado nos EUA (23.01), e seis longas semanas antes de o presidente Trump (em meados de março) finalmente tomar medidas agressivas para enfrentar o perigo que o país estava enfrentando - uma pandemia que agora está prevista para levar dezenas de milhares de vidas americanas - o Dr. Mecher, relata o NYT, instou os altos escalões da burocracia da saúde pública do país a acordar e se preparar para a possibilidade de uma ação muito mais drástica.

Trump nega, mas semanas depois, ele foi informado na época sobre um memorando datado de 29 de janeiro produzido por seu consultor comercial, Peter Navarro, que detalhou os riscos potenciais de uma pandemia de coronavírus: até meio milhão de mortes e trilhões de dólares em perdas econômicas. Alertas se sucederam ao longo de janeiro.

O secretário de saúde e serviços humanos, Alex M. Azar II, alertou diretamente Trump sobre a possibilidade de uma pandemia durante uma ligação em 30 de janeiro, o segundo aviso que ele enviou ao presidente sobre o vírus em duas semanas. O presidente, que estava no Air Force One enquanto viajava para aparições no Centro-Oeste, respondeu que Azar estava sendo alarmista.

Ao participar do Forum Econômico de Davos, em 21 de janeiro, na Suíça, centrou fogo no “alarmismo ambiental” da jovem sueca Greta Thunberg, e minimizou os primeiros registros do Covid-19 nos Estados Unidos “Isso são poucos casos, em breve reduziremos a zero”, disse, e preferiu saborear o triunfo americano na guerra comercial com a China. Só no fim de janeiro adotou a primeira medida restritiva: proibiu voos provenientes da China.

Azar anunciou publicamente em fevereiro que o governo estava estabelecendo um sistema de "vigilância" em cinco cidades americanas para medir a propagação do vírus e permitir que especialistas projetassem os próximos pontos quentes. Foi adiado por semanas. O início lento desse plano, além das falhas bem documentadas no desenvolvimento da capacidade de teste do país deixou os funcionários do governo quase sem entender a rapidez com que o vírus estava se espalhando. "Estávamos pilotando o avião sem instrumentos", disse uma autoridade.

Medidas bem mais drásticas foram sugeridas em janeiro e fevereiro. O escritório do Conselho de Segurança Nacional responsável por rastrear pandemias recebeu relatórios de inteligência no início de janeiro prevendo a propagação do vírus para os Estados Unidos, e em poucas semanas estava levantando opções como manter os americanos em casa do trabalho e fechar cidades do tamanho de Chicago.

Na terceira semana de fevereiro (a de 20.02.2020), os principais especialistas em saúde pública do governo concluíram que deveriam recomendar a Trump uma nova abordagem que incluísse alertar o povo americano sobre os riscos e exigir medidas como distanciamento social e ficar em casa do trabalho. Mas a Casa Branca concentrou-se em mensagens e semanas adicionais cruciais se passaram antes que suas opiniões fossem aceitas com relutância pelo presidente - época em que o vírus se espalhou praticamente sem impedimentos.

Estados que tomaram decisões à frente, como a Califórnia, apresentam menos contaminações e vítimas que os da Costa Leste, como Nova Iorque, Flórida e a Luisiana. Donald Trump evitaria tais medidas até março. O presidente Bolsonaro viajou nesse meio tempo para se encontrar com Trump na sua residência particular de Mar a Lago, na Flórida. Nos 4 dias da viagem (de 7 a 11 de março) a comitiva parecia alheia aos riscos. O Covid-19 foi ignorado pelos assessores que cercavam Trump e pelo grupo de 52 acompanhantes do presidente brasileiro, dos quais pelos menos 24 voltaram contaminados, incluindo os ministros do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, das Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, o secretário de Comunicação Social da Presidência, Fábio Wanjgarten, entre outros, além do prefeito de Miami e de assessores de Trump.

Todos os planos e negócios discutidos nos encontros foram jogados para escanteio agora que a recessão e o desemprego viraram as economias dos maiores países do mundo de pernas para o ar. Os cálculos sobre recessão nos Estados Unidos falam por si: até 6% de queda do PIB e mais de 30 milhões de desempregados. Na França e países europeus (salvo a Alemanha), a queda do PIB é estimada entre 4% e 7%. A depender da duração da volta à normalidade (já espera apenas para o 2º semestre), pois os principais países europeus, os próprios EUA e o Japão estenderam o isolamento social para maio adentro.

No Brasil, diante de tanta precariedade das estatísticas e das antigas celebrações de que quase 13 milhões de brasileiros tinham virado ‘empreendedores’ após a grande recessão de 2015-16 provocada pela ex-presidente Dilma Roussef, se “virando nos 30” como motoristas de Uber, vendedores de quentinhas e mais recentemente, de entregadores dos Ifood’s da vida, falta um mínimo de preparo para enfrentar os dias muito duros que ainda virão. Não poder ver irmãos, netos e familiares neste domingo, chega a ser até uma privação pequena, diante do que nos espera.

Pelo menos, ontem, numa visita ao hospital de campanha inaugurado em Águas Lindas (GO), uma parceria dos governos federal e estadual, o presidente Jair Bolsonaro recebeu uma lição do governador e médico Ronaldo Caiado (DEM). O presidente, ignorando acintosamente os protocolos médico/sanitários, ia repetindo suas aparições no entorno de Brasília, quando Caiado – que foi aliado de primeira hora de Bolsonaro e rompeu com ele por “na qualidade de médico não poder comungar com tanta irresponsabilidade”, pediu para o presidente da República recuar e aplicou-lhe álcool em gel nas mãos para que fossem desinfetadas para o cumprimento, afinal.

Infelizmente, o desrespeito público e ostensivo ao protocolo do combate ao novo coronavírus embute outros desejos de afronta bem mais graves do presidente da República.