Jornal do Brasil

Coisas da Política

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Retrato do Agro Brasileiro

Jornal do Brasil PAULO RABELLO DE CASTRO *, rabellodecastro@gmail.com

No último dia 25 de outubro foram divulgados no Paraná, com a presença do governador Ratinho Junior, os resultados definitivos do Censo Agro 2017 para todo o Brasil. Este levantamento nacional, a cargo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE - talvez seja o maior do mundo, no gênero, em abrangência e detalhamento, embora tenha custado ao contribuinte brasileiro menos da terça parte do que o Departamento de Agricultura dos EUA gasta para levantar informações de conteúdo semelhante para cada questionário aplicado a seus estabelecimentos rurais. O Brasil e os servidores do IBGE estão de parabéns. E os mais de 20 mil recenseadores contratados para percorrer cada rincão deste país nos dão a dimensão da tarefa gigantesca do IBGE de mapear todos os mais de 5 milhões de estabelecimentos rurais do país e sua respectiva produção.

Antes do Censo Agro, a política agrícola do país, a concessão do crédito rural, as políticas fundiárias e assistenciais, eram todas operadas no escuro. O Censo Agro 2017 revela a real dimensão do chamado agronegócio brasileiro e traz surpresas interessantes. Uma delas é sobre a repartição das atividades agrícolas e pecuárias entre a chamada agricultura familiar e o agronegócio profissionalizado e inteiramente comercial. São dois mundos bem distintos.

Num desses mundos, o agronegócio comercial representou a competência do profissional do campo em conduzir suas atividades bem próximo à fronteira das técnicas da chamada agricultura de precisão. São áreas de produção mecanizada, de elevada produtividade em termos mundiais e que comandam milhões e bilhões de dólares de valor de produção. Apenas um número: três lavouras - soja, cana e milho - hoje encampam mais de metade de todo o valor da produção agrícola nacional. Nessas propriedades, a mão de obra é qualificada e dispõe dos confortos da cidade. Pouca gente faz muito e agrega valor. A produção é toda tecnificada e o uso de agentes químicos e biológicos comerciais está presente para elevar a produtividade. O agricultor levanta crédito por telefone e a assistência técnica vem por internet.

A realidade, porém, da grande maioria das propriedades rurais é bem diferente. Dos 5 milhões de estabelecimentos rurais visitados entre out/ 2017 e fev/ 2018, menos de um milhão se qualificou como tendo um sistema de produção atualizado na visão técnica e comercial. Por isso, dá para concluir o quanto ainda precisa e pode ser feito para fazer avançar o acesso ao crédito, a conhecimentos e a conservação ambiental e humana no meio agrícola.

O crédito, que alguns imaginariam acessível a qualquer produtor, é uma realidade desconhecida da maioria dos que lidam no campo. As informações técnicas idem. Os insumos mais avançados tampouco estão lá. E na medida em que saímos da região Centro-Sul rumo ao Norte e Nordeste, os indicadores técnicos das propriedades rurais vão caindo vertiginosamente. Há muito que fazer no campo para universalizar a tecnologia e o potencial de melhoria das condições da economia familiar. A grande maioria dos 15 milhões de produtores rurais ainda está longe das informações e dos recursos financeiros.

Mas há também boas notícias trazidas pela macrofotografia do campo brasileiro do Censo Agro. Uma delas, surpreendente, é o ganho de conservação ambiental obtido entre a fotografia anterior, do Censo de 2006, e este, de 2017. Ganho de 12% em áreas de preservação. Houve mais do que compensação entre o avanço de áreas desmatadas no Norte e Centro-Oeste do país e a recuperação de áreas florestadas ou preservadas no Sul, Sudeste e, inclusive, no Nordeste. Com isso, avançou em 11 milhões de hectares o saldo de áreas rurais (106 milhões ha) mantidas como matas e florestas pelos produtores brasileiros dentro do total dos 351 milhões de hectares ocupados nacionalmente por estabelecimentos rurais.

Ou seja, embora a luz amarela de advertência continue ligada a fim de requisitar mais atenção à conservação ambiental, o Brasil como um todo não fez feio, na última década, no seu dever-de-casa ambiental. O Censo Agro 2017 é também uma expressão de afirmação da capacidade de o Brasil realizar muito com recursos escassos. O Censo Agro só foi a campo porque os técnicos do IBGE, com apoio do Congresso Nacional e da Frente Parlamentar da Agricultura, se determinaram a não deixar ocorrer mais atrasos e postergações em sua realização. O governo do presidente Michel Temer colocou o Censo como prioridade técnica nacional. O parque tecnológico do IBGE foi integralmente atualizado para poder suportar a megaoperação do Censo Agro.

Executar ações públicas com eficiência não é trivial. Exige decisão política do governante, determinação ferrenha e conhecimento adequado de como chegar lá. Não se admite improvisação por parte dos governantes. O Censo Agro, nesse sentido, é uma lição de quanto o Brasil tem jogado fora oportunidades de avanço em outras áreas públicas, como saúde e educação, quando a improvisação, a manipulação política e o desconhecimento - ignorância mesmo! - prevalecem sobre o saber fazer e o verdadeiro patriotismo. No caso do Censo Agro, felizmente, o resultado foi um espetáculo de eficiência e de amor ao país. Se você quiser obter os resultados do Censo Agro 2017 para seu Estado vá para: https://censos.ibge.gov.br/agro/2017/resultados-censo-agro-2017.html

* presidente do IBGE entre jul/2016 e mai/ 2017, quando equipou o órgão tecnologicamente e viabilizou a realização do Censo Agro 2017