Jornal do Brasil

Coisas da Política

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Tropeça sozinho e pede o VAR

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Em mais uma demonstração de que não compreende a dimensão do que é ocupar o cargo de presidente eleito da República Federativa do Brasil, Jair Messias Bolsonaro perdeu hoje uma excelente oportunidade de ocupar o palco e a atenção da mídia mundial. A ausência na cerimônia de sagração, na Cidade do Vaticano, da primeira brasileira nata Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes, (a Irmã Dulce dos Pobres, o “anjo bom da Bahia”), como santa pelo Papa Francisco, foi uma enorme oportunidade desperdiçada.

Não há justificativas para a ausência, que desconcertou o porta-voz da Presidência da República. Em junho, o general Otávio Rego Barros confirmou a ida do mandatário brasileiro a Roma. Preservação da saúde não cola, pois sacrifício muito maior foi a ida a Nova Iorque para a polêmica performance na abertura da Assembleia Geral da ONU. Dizer que cedeu às pressões dos evangélicos é ainda mais estapafúrdio.

A Constituição brasileira reza que o Estado é laico. Portanto, quando um presidente eleito ou em exercício legítimo do cargo representa o país em qualquer cerimônia pública, civil, militar, honorífica, política ou religiosa, não importa se o ocupante do cargo de presidente (podia ser também o vice, Mourão, o presidente da Câmara ou o presidente do Senado, os três, por ordem na linha de sucessão) é ateu, católico, protestante, evangélico, budista, islâmico, umbandista, ou o que seja.

Quem estará ali é o presidente da ainda maior nação católica do mundo. Sim, ainda a maior, mesmo com o avanço dos evangélicos, religião professada pela primeira-dama, Michelle e à qual Bolsonaro aderiu. O presidente é uma persona de que deve transcender a si mesmo. Mas convenhamos que na história recente é difícil separar a criatura do ser presidencial.

Talvez o último que tenha feito isso com graça tenha sido JK. A persona de Jânio o traiu sempre, com ajuda de uns goles a mais. Os militares, por sua formação, tinham a persona anulada. A de Ernesto Geisel talvez tenha sido mais fechada e marcante. Tentaram mudar a face do general João Batista Figueiredo, último presidente da era militar, criando uma imagem de presidente acessível, o João do povo, que ia tomar cafezinho em bar do Leblon.

Tudo começou a ruir quando lhe serviram um prato de feijão soja que iria fazer parte da merenda escolar: sem o decoro e o recato que o cargo presidencial exigia, Figueiredo cuspiu no prato e exclamou ao vivo às câmeras que registravam a visita e espanto das crianças na cantina da escola pública. “Que gosto horrível”. Morreu ali a introdução da soja na merenda escolar (o que poderia ter evitado a obesidade das atuais gerações). E a falsa imagem do presidente acessível e popular foi sepultada de vez na chamada “novembrada” de Florianópolis (1979) quando ouviu da sacada do Palácio do governo do Estado, na Praça 15 de Novembro, o povo cobrando a comida na panela, que prometera encher, e a xingá-lo de FDP. Figueiredo não resistiu: “Minha mãe, não” e desceu para a briga campal na praça.

Jair Bolsonaro parece estar sempre pronto para a briga, com inimigos reais ou imaginários. Já se disse que atravessa a rua para pisar numa casca de banana na outra calçada. Tudo isso porque não domou ou não lhe domaram a persona. Seu jeito de ser pode agradar à militância, mas não ajuda a pacificar o país e a instilar confiança externa e em quem faz a roda da economia andar.

Nas últimas semanas, Bolsonaro entrou em clinch com quem não estava disposto a brigar. Criou um imbróglio com o presidente francês Emmanuel Macron, que envolveu também a Alemanha, as nações líderes da União Europeia, com a qual o Brasil, via Mercosul, pretende estabelecer acordo de livre comércio. Chamou para a briga o cacique Raoni, seu índio de “estimação”. Salvou-se do constrangimento com a eleição do primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, como Prêmio Nobel da Paz, pelos esforços de tentar pacificar os conflitos na vizinha Eritréia. Imagina se a candidatura Raoni emplacasse...

Precipitado, anunciou em março, em visita aos Estados Unidos, a virtual entrada do Brasil nos quadros da Organização para Cooperação de Desenvolvimento Econômico (OCDE), com apoio dos EUA, fiando-se na sua afinidade com o presidente americano Donald Trump e nos laços que se tornariam mais estreitos entre os dois países a partir da indicação de seu filho Eduardo Bolsonaro para ocupar a Embaixada do Brasil em Washington.

Por falta de noção das diferenças entre uma visita particular, uma visita presidencial ou uma visita de Estado (obrigação de um Itamaraty que parece esquecer suas origens) Bolsonaro achou que qualquer presença nos Estados Unidos – em qualquer lugar – abriria um diálogo oficial com o governo Trump.

Ledo engano que se desfez logo da ida a Nova Iorque, em setembro, duas semanas após a última operação das sequelas da facada de Adélio Bispo de Oliveira, em Juiz de Fora, em setembro de 2018. Não foi convidado para um jantar com Donald Trump, que anunciara antes de partir do Brasil e no qual procuraria angariar apoio à indicação do filho 03. Para trocar palavras com Trump teve de esperar no corredor para esperar sua passagem rumo a discurso, que viria após o do presidente brasileiro. Visita de Estado é em Washington e na qual se tratam de selar laços entre nações, na figura de seus Chefes de Estado. Nada de negócios ou questões menores

O balde de água fria veio essa semana quando o secretário de Estado Mike Pompeo manifestou o apoio dos EUA ao ingresso da Argentina e Romênia na OCDE. Foi preciso uma cobrança da diplomacia brasileira para Pompeo lembrar que o nome do Brasil seguia na ‘pedra’. O exame para o ingresso na OCDE é tão difícil como a admissão de um novo milionário em clubes de ricos no Brasil. Há que preencher muitos requisitos, a começar por maior renda per capita e redução de desigualdade e mazelas sociais. Em outras palavras: mais IDH, a começar pela Educação, e menos PIB e indicadores de produção.

Trapalhada maior em matéria de imagem (que já estava chamuscada pelos incêndios na Amazônia brasileira, 68% de toda a região Amazônica) veio da tardia e equivocada reação do governo brasileiro ao gigantesco vazamento que espalhou quase uma centena e meia de toneladas de petróleo pelas praias da costa de nove estados do Nordeste. Segundo relato do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo Silva, responsável pela defesa do território brasileiro de 8,5 milhões de km2, do monitoramento das fronteiras e da vigilância da Amazônia Azul (o imenso mar territorial de 200 milhas, nos quais estão igualmente as riquezas do pré-sal e os biomas marinhos) o vazamento foi detectado no começo de setembro.

Mais de 40 dias se passaram os estragos foram imensos em todas as praias do Nordeste, afetando a fauna e a flora marinhas, as comunidades que vivem da pesca e do turismo. Agora, a Agência Nacional de Águas determinou o aumento da vazão das barragens do São Francisco, para evitar que o óleo entre pela foz contaminando a água e as atividades de cidades ribeirinhas de Alagoas e Sergipe.

Tivesse agido prontamente, acionando a Petrobras e empresas especializadas em conter danos ambientais, em vez de gastar tempo com uma retórica truncada na comunicação oficial, mal explicitada tanto nas falas do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, quanto do presidente Bolsonaro, que falaram em vazamento criminoso de petróleo venezuelano, em vez de crime ambiental causado por suposto vazamento de petróleo, com características (pesadas) do petróleo oriundo da Venezuela, e lançado na costa do Nordeste por navio petroleiro.

Deu margem a que Nicolás Maduro tentasse tirar uma casquinha do Brasil. Claro que não seria possível, pelas correntes das marés do Oceano Atlântico, que um suposto vazamento de petróleo em plataforma da Venezuela (que seria notícia mundial antes de atingir o litoral dos países vizinhos) chegasse às praias do Nordeste. Até porque as praias do Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco foram afetadas antes que as do Maranhão...

O fato concreto é que o governo brasileiro, que podia aproveitar a cerimônia de lançamento ao mar, na sexta-feira, 11 de outubro, do casco do submarino Humaitá, o 2º de quatro submarinos movidos a propulsão nuclear construídos no país, para reforçar a sua capacidade de patrulha da Amazônia Azul, tropeçou sozinho. Não adianta pedir o VAR, como Bolsonaro faz toda hora, a tentar anular o que ele ou sua equipe disseram pouco antes.