Jornal do Brasil

Coisas da Política

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O país do juro baixo

Jornal do Brasil PAULO RABELLO DE CASTRO *, rabellodecastro@gmail.com

Na mesma quarta passada em que o FED (banco central americano) baixou seu juro básico para o máximo de 2%, nosso banco central também se moveu na mesma direção, ao reduzir para apenas 5,5% a taxa Selic. É uma mínima histórica. Enquanto isso, na Europa, o banco central BCE prometia punir com juro negativo o banco que nele depositasse reservas, como que cobrando um pedágio pela guarda do dinheiro do sistema bancário dos europeus. Lá, portanto, o juro básico está abaixo de zero.

As atuais políticas monetárias dos países do G7 são um caso de complexa explicação de que nem me atrevo a tratar aqui, menos para dizer as nuvens da incerteza financeira vão ficar mais pesadas em 2020 nos países avançados. Isso bastaria para nos situar como país de enorme potencial, onde a atração de capitais para investimento em projetos brasileiros seria uma barbada se houvesse mais respeito ao tempo e à forma das coisas. Como temos sido pouco respeitosos, tanto com o tempo que levamos para decidir o que reformar, quanto sobre a forma que damos à nossa imagem externa, pagamos com recessão e desemprego a prosperidade adiada para um futuro distante e incerto.

O juro que nosso Banco Central vem encolhendo é a ponta do iceberg de encargos financeiros arcados pelas empresas e famílias. A redução da Selic favorece apenas a rolagem da dívida federal. Isso alivia o Orçamento federal em 2020 mas longe de equacionar o rombo dos gastos ditos obrigatórios. A gastança pública, que vem de anos, tornou o Brasil refém dos grupos que dominam a despesa dos governos. Colegas economistas voltaram a ter a cara dura de defender o prosseguimento desses déficits catastróficos como uma necessidade para "não aprofundar a recessão brasileira". Justamente ao contrário. O déficit público, crônico e maligno, é a causa da estagnação. Mais gastança pública - que hoje é responsável pelo desemprego em massa - só agravará a condição miserável dos mais pobres. E por quê? Simples: o dinheiro sacado do seu bolso e do meu para sustentar a máquina pública, terá nos governos, com quase toda certeza, uso menos produtivo do que no bolso de onde veio.

Trocamos, no Brasil, mais por menos, mais gastança inútil por menos investimentos úteis que nunca acontecerão. Multiplique essa troca errada por 27 estados e 5.570 municípios e você confirmará que viramos aqui um grande edifício "balança mas não cai", com três níveis de síndico (Brasília, governos estaduais e municipais) com condomínio caríssimo, elevador parado e água cortada a cada dois dias. Falta gestão profissional de alto a baixo e sobra, entre as lideranças políticas do país, um absoluto descaso à agenda de investimentos. A guerra na política é por mais verbas partidárias, nomeação de afilhados e por apropriação de verbas.

Nesse cenário quase macabro, o Banco Central reduz o juro básico porque a economia produtiva está muito fraca. Mas fraca por quê? O juro deveria baixar até mais e isso deveria ter já ocorrido antes. A decisão monetária, que é boa, atrapalha a vida dos poupadores sem beneficiar a ponta das empresas que continuam amargando juros ferozes até para o giro das lojas e fábricas. O movimento benéfico do Banco Central não chega lá. Nem consegue tirar da inércia os projetos de investimentos das empresas maiores, cuja indecisão sobre investir é igual às dúvidas dos fundos de investimento externos, quando olham um Brasil pegando fogo, mas gelado na postura de completar reformas inteligentes e abrir um grande programa de metas. A oportunidade de ouro que nos abre o atual momento de juro baixo, aqui e lá fora, está indo ralo abaixo. Mais uma vez, o tempo e a forma errada de fazer as coisas acontecerem estão nos destruindo a janela do futuro.

* Economista e escritor.

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