Chame o Posto Ipiranga

Visto de fora, ou por alguém, como o ex-presidente Lula, que ficou à margem da vida política do país, preso em Curitiba, desde abril de 2018, o país parece mesmo “governado por um bando de maluco”(sic, sem o s). Foi assim que o ex-presidente ironizou o governo Bolsonaro, em entrevista conjunta concedida sexta-feira, à jornalista Mônica Bergamo, da “Folha de S. Paulo”, e ao jornalista Florestan Fernandes, do espanhol “El País”, com autorização do ministro Ricardo Lewandowski.

Não se trata da velha tradição proclamada pelos anarquistas e revolucionários - “si hay gobierno, soy contra”. Na oposição, o PT era contra tudo e todos. Não assinou a Constituição de 1988; não quis fazer parte do governo Itamar Franco, após a renúncia de Fernando Collor. Ficou contra o Plano Real e perdeu no 1º turno de Fernando Henrique Cardoso, que comandara a gestão do plano no Ministério da Fazenda. Perdeu novamente em 1998 e propõs seu impeachment após a desvalorização do real, três meses após a reeleição, em janeiro de 1999.

Finalmente no governo, a partir de 2003, com o convencimento dos banqueiros e a classe média na “Carta aos Brasileiros”, escrita em meados de 2002, com a ajuda de Emílio Odebrecht, o PT tomou gosto pelo poder e passou a fazer o que condenava.

O ex-capitão Jair Bolsonaro, eleito em 1990 deputado federal, na onda conservadora que elegeu Collor, logo ficou contra seu governo, contra o de Itamar e chegou a pedir o fuzilamento de FHC. Agora que virou vidraça, só lhe resta chamar o “Posto Ipiranga” quando não entende o que se passa principalmente na área econômica e recorre ao hoje ministro da Economia, Paulo Guedes. Num outro ataque de ‘sincericídio’, Jair Messias Bolsonaro disse, recentemente, que “não nasceu para ser presidente”.

Se serve de consolo, Collor também já disse que não estava preparado em 1989/90 e Lula também reconheceu, já presidente, que não estava preparado para exercer o poder quando perdeu para Collor. Pior para o Brasil não ter presidentes preparados, ou desequilibrados como Jânio Quadros, que, em 1961, tentou um golpe com a renúncia (pensando obter o apoio dos militares contra a posse do vice João Goulart). Essa semana, após os feriados da Páscoa e o feriado de São Jorge, dia 23 de abril, em algumas cidades e no RJ, o presidente Bolsonaro quase ateou fogo no Posto Ipiranga.

O resumo é o seguinte: pressionado por políticos, como o Senador José Serra, que pediu o detalhamento do que seria economizado em cada item da reforma da Previdência, que, se for aprovada mesmo em setembro, como prevê o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, só vai ter efeito prático a partir de 2020, o ministro Paulo Guedes liberou na quinta-feira, 24, o detalhamento, que, ao retardar em um ano os cálculos do impacto da reforma, elevou a economia projetada em 10 anos, de R$ 1,082 trilhão (2019-28) para R$ 1,237 trilhão (2020-29). Acontece que na mesma quinta-feira, em café da manhã com os jornalistas, o presidente deixou escapar que a situação ficaria ruim se a reforma economizasse menos que R$ 800 bilhões, pois a crise viria em 2022, no fim do seu mandato. Na prática, Bolsonaro baixou o sarrafo da reforma em 35,4%, para R$ 800 bilhões. Um gol contra no Posto Ipiranga.

Repetindo o desejo de atuar em todos os campos do governo (contrassenso para quem diz que “não nasceu para ser presidente”), deu sequência à revogação do aumento de 5,7% do diesel nas refinarias (adiado por uma semana, com aumento de 4,84%, ou de 22,8% no ano), quando mandou retirar do ar a campanha de marketing do Banco do Brasil. Suas alegações foram de que as pessoas retratadas (jovens e negros) não representavam o povo brasileiro. E mandou demitir o diretor de Comunicação e Marketing do BB, Delano Valentim, em férias.

O presidente Jair Bolsonaro talvez não saiba, mas mais de 51% da população brasileira é composta por mulheres e 53% da população é de afro-descententes. O Banco do Brasil, que é uma S.A., não uma autarquia estatal,com julga o presidente, disputa com o Itaú a liderança do ranking bancário em ativos (em dezembro estavam na faixa de R$ 1,4 trilhão, com diferença abaixo de R$ 40 bilhões). O Itaú, que tinha 78 milhões de clientes, contra 95,8 milhões do Bradesco, 3º banco do país, fez ampla campanha em 2018 para atrair o público jovem às suas plataformas digitais. E jovens negros eram um dos alvos. O Bradesco, com 4.700 agências, mira no segmento jovem, mais suscetível à automação, com a BIA, criatura feminina virtual, além, do banco digital Next, que já tem 900 mil clientes. Com 4.733 agências, o BB contava só com 64,5 milhões de clientes,bem menos que os 91,2 milhões da Caixa e à frente dos 43,7 milhões do Santander.

Aparentemente o objetivo da campanha era atrair mais jovens para a clientela do BB, concentrada em funcionários públicos e das estatais, o que lhe dá perfil mais vetusto. O plano podia dar certo ou errado. O presidente abortou a campanha com duas semanas. Pode ter sido preconceito. E é...