Oportunidade para os partidos

Não neste momento, provavelmente nem nos meses seguintes, com o Congresso Nacional assoberbado, e previsão de prioridades, como a reforma da Previdência; mas os partidos têm tudo para, logo que possível, abrir discussão sobre a adaptação de seus programas, não como capricho diletante, mas para se situarem frente a uma realidade política que reclama deles ideias e objetivos mais claros. Há nesse campo uma visível defasagem, confirmada nestes dias que antecipam tramitações importantes nas casas legislativas, onde a interlocução se processa no varejo. Não há como dialogar com os partidos, porque eles não têm programas definidos a defender, nem mesmo para instruir seus parlamentares. O que se supõe existir são letras mortas a compor o estatuto indispensável para que a sigla logre registro junto ao Tribunal Superior Eleitoral. E tudo fica nisso.

Se, de início, tal crítica possa parecer intolerância ou preocupação menor, para justificar o contrário bastaria lançar mão do tema favorito da hora, a revisão do sistema previdenciário. Dos 35 partidos oficialmente registrados, sendo duas dezenas com bancadas, qual ou quais poderiam destacar em seus programas propostas consistentes para contribuir nesse debate e orientar seus parlamentares? Estes são levados a conduzir o voto com base em convicções pessoais ou por adesão às correntes que se posicionam contra ou a favor do governo. Situação diametralmente ao que se assiste em países onde predomina a nitidez programática, como agora no debate orçamentário dos Estados Unidos ou nas relações da Inglaterra com a comunidade europeia.

A previsão de um enxugamento da paisagem partidária, consequência da cobrança de desempenho, pode ser adequada oportunidade aos sobreviventes para reconstruir seus programas, que em geral não passam de peças de fantasias, com frases elaboradas, sem conteúdo e raras preocupações em tornar realidade o que, ao se organizarem, prometeram ao competente Tribunal. A hora é esta, sem que se saiba se outra oportunidade melhor haverá.

Como fênix

Sobre as cinzas de Renan, que entrou na legislatura do Senado protagonizando a segunda derrota do MDB, após o grave acidente eleitoral de outubro, o partido ressurge, na mesma casa, ao conquistar cobiçadas posições em comissões temáticas; na verdade, as principais, com poder de influência política. Constituição e Justiça e Comissão Mista de Orçamento têm desempenhos decisivos no processo da governabilidade, e a elas o presidente Bolsonaro terá de recorrer com frequência. Para completar, o partido também ganhou a Comissão de Educação, onde, como é permitido prever, o Senado será chamado a conter excessos da engenhosidade do novo ministro.

Com essa conquista, visto ficou que no episódio da eleição do presidente da casa a resistência estava apenas em Renan, não no partido; tanto, que acaba aquinhoado com poderes estratégicos para a tramitação dos projetos.

O MDB tem uma história de ressurreições. Renasce e se recompõe, quase sempre sem maiores esforços, mesmo quando submerge em derrotas acachapantes. Em 2018, sendo o partido do governo federal e do presidente Temer, teve um desempenho tão pálido, que ficou parecendo incomodar-se pouco com a derrota de Meireles.

Essa repetida competência de ressurgir de cinzas, quando ainda mornas, é definida por Almeida Reis como certa virtude que tem o partido de assumir a forma do objeto que o contém. Com alta capacidade de adaptação e fluidez, a história emedebista é pontilhada de poderosa presença nos governos que não são propriamente seus. Sempre morando em Pasárgada, para ser amigo do rei. Agora, o destino pode levá-lo à sombra de Bolsonaro.

"Não há pior coisa para um partido fora do poder, se não tiver vocação para isso" (Charles De Gaulle, presidente francês)