A Montanha Mágica

É rematada tolice considerar que o Fórum Econômico Mundial de Davos, nos Alpes suíços, que recebe esta semana o presidente Jair Bolsonaro e alguns de seus ministros, é um foro que trata somente de economia e dos interesses das grandes corporações. Também é primário achar que o viés social foi inaugurado pela visita do presidente Lula, em 2004, quando as grandes corporações estavam, de fato curiosas para conhecer o que iria fazer um líder metalúrgico alçado ao poder pelas urnas.

No primeiro ano, de governo com o país em grave crise econômica herdada do 2º governo FHC, o próprio Lula não tinha o que falar em 2003, recém eleito, quando lançou o “Fome Zero” para aplacar a fome da população e ganhar a mídia no Brasil e no mundo. O programa mal durou seis meses, arquivada a ideia de “ensinar a pescar, em vez de dar o peixe”. O pragmatismo falou mais alto e o governo turbinou o Bolsa Família, enfeixando vários programas de assistência da era FHC.

Davos, que inspirou Thomas Mann a escrever o clássico “A Montanha Mágica” não tem vara de condão para mudar a realidade. Mas as interrelações da economia há muito deixaram que as atividades dos negócios empresariais e de Estado sejam conduzidos de forma isolada do social. Que inspire Bolsonaro e Paulo Guedes a pensar global.

Quando o professor Claus Schwab criou o Forum, em 1971, as causas que hoje movem idealistas, governantes e empresários responsáveis eram remotas. Os anos 1970 seriam sacudidos pela crise do petróleo de 1973, quando vários cidadãos europeus tiveram de recorrer à bicicleta como meio de transporte. As questões da energia, das agressões da queima de combustíveis fósseis ao meio ambiente ganharam os fóruns de todo o mundo. As barreiras ideológicas ruíram com o muro de Berlim, o fim da URSS e o sucesso do capitalismo de estado chinês.

Não foi só o Forum Social Mundial que inaugurou, em 2004, o contraponto a Davos. Anos antes, as questões sociais entraram na pauta da reunião. Em 2002, o o Secretário Geral da ONU, Kofi Anan, lançou a iniciativa mundial da Saúde. No ano seguinte, a Educação dominou a pauta de discussões. Em 2005 foi a vez de o suprimento de água e cuidados com o clima. Discutir alta tecnologia ou sofisticação financeira como receita para países com educação deficiente para a população usar as ferramentas modernas e dar eficiência às famílias e empresas?

Imaginar que a economia pode caminhar sozinha e resolver os problemas da humanidade é grave engano. Não há bala de prata (como sonhou Collor) nem bala livre, como supõe Bolsonaro, capaz de resolver as sequelas sociais geradas pelas distorções da economia. Questões sociais não se resolvem à bala, nem com polícia. Erros acumulados necessitam de tempo para correção de rota.

Médici viu a seca

Em 1972, o Brasil vivia a euforia do milagre brasileiro. O PIB tinha crescido 11,9% (ainda chegou a 13,5% em 1973). A ditadura do General Médici, que tinha cunhado a expressão “Ame-o ou deixe-o” (slogan copiado dos Estados Unidos sob a diáspora provocada pela Guerra do Vietnã) cunhou a expressão ufanista “milagre brasileiro”, pilotado pelo ministro da Fazenda, Antonio Delfim Neto, um dos signatários do AI-5, de 13 de dezembro de 1968, que ajudou a parir o “milagre”.

Pois bem, o Nordeste vivia uma das cíclicas crises da seca. O presidente popular, apesar dos anos de chumbo, porque controlava a imprensa e aparecia nos estádios colado ao radinho de pilha, se viu diante do choque da realidade da pobreza e da fome no Nordeste e não pode esconder a expressão famosa: “A economia vai bem, mas o povo vai mal”.

Médici lançou o Funrural (meio salário para o agricultor sobreviver na seca), criou a Transamazônica e as agrovilas às suas margens para assentar famílias de nordestinos. O programa foi um desastre. Abriu caminho ao desmatamento da Amazônia, no Maranhão e Pará. Uma das áreas cortadas era próxima à Serra Pelada, destino de milhares de migrantes no fim dos anos 70. A mina fechou, mas a cobiça pelo ouro fez os garimpos ampliarem a devastação pela Amazônia.