Quando a pandemia partir

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Graças a uma comissão de inquérito, instaurada no Senado Federal, estamos diante da tentativa de apurar culpas pela tragédia que o país sofreu e ainda sofre, na passagem devastadora da Covid 19. Os senadores saem à caça do perfil de culpados, mas já antecipando visível intenção de onerar o governo, pelo que deixou de fazer, ou, se fez, incorrendo em equívocos, além das inseguranças na condução das políticas sanitárias. Com quase meio milhão de brasileiros defuntos, confiscados do direito de despedidas solenes, velados em ambientes restritos, realmente é preciso que alguma coisa fique minimamente clara; o que se espera, mesmo ante o temor da visível politização de questões pertinentes à ciência e à medicina, várias vezes relegadas, ante a preocupação inquisitorial que estimula certos senadores.

É possível, entretanto, que alguma responsabilidade fique definida, por mais que se suspeite da tradição das CPIs…

Mas, há uma coisa que não pode escapar das preocupações do Congresso Nacional, até porque elas já serão do domínio de toda a sociedade. Trata-se, primeiro, de encarar o conjunto de desafios que essa pandemia nos deixará como herança sinistra. Qual será - cabe indagar desde agora – o patrimônio das experiências e de ensinamentos que restará do rastro lutuoso, quando ela for embora. Que lições a aprender na lápide de meio milhão de sepulturas?.

Líderes religiosos têm se antecipado. Lembram Tomás, o grande doutor da Fé, para quem o mal que Deus permite é exatamente para ensinar; e, mesmo com dor, estimular o aperfeiçoamento da vida que segue. Santo Agostinho, que o precedeu, insistia na mesma reflexão, para garantir que Deus jamais permitiria a pandemia, que não fosse para dela tirar um proveito maior. Fazer nascer melhor sentido da vida, sem ganâncias excessivas, mas olhar para os excluídos, descer dos orgulhos, remir dos pecados. Um recado universal, pois todos padecemos das mesmas vulnerabilidades, fracos diante de um vírus que entra sem pedir licença, mata bons e maus, culpados e inocentes, crentes, ateus e agnósticos. Um vírus democraticamente assassino.

É duvidoso que tão profunda lição seja assimilada facilmente nestes tempos que preferem esquecer o passado, ainda que recente, porque prazeres e prosperidade são coisas do imediato. Mas é bom aprender, porque o futuro pode estar preparando outras surpresas, como a Covid de hoje, que escapou das previsões de Nostradamus e de todos os astrólogos de plantão…

É estimulante pensar no que virá depois da pandemia, quanto às relações entre as pessoas, no trabalho ou na convivência social, nesta hora confinadas e distantes, por medo do contágio. Reféns dos computadores. As crianças, presas nos apartamentos, com o ano letivo cambaleando, enganadas e enganando o pouco que não aprenderam nas aulas virtuais. E qual será a demanda de setores produtivos da economia, gravemente afetados? Como ficarão os sistemas de transporte, o comércio, os hospitais?, todos chamados, seguramente, a uma reciclagem que não fazia parte de seus planos.

Já não mais preocupado apenas em buscar culpados pelo desastre, ao Congresso se impõe a iniciativa de discutir rumos para o Brasil no pós-pandemia. Não faltam questões capitais, como a premência de uma legislação que permita ao país superar entraves para produzir insumos destinados a vacinas, sem depender da correria das importações. Como também – e aqui vai uma das primeiras responsabilidades das casas legislativas – traçar diretrizes para condutas sanitárias de abrangência nacional, evitando-se o que se tem visto: confrontos entre os governos central, estaduais e municipais. Convém lembrar que somos entes federativos. O Brasil é um só. A Covid 19 ajudou a construir essa advertência.

Nós, os da selva

Um pedido de desculpas foi insuficiente para conter reações contra o presidente Alberto Fernández, que, num momento de fogoso patriotismo, definiu os brasileiros como gente saída das selvas, enquanto seus argentinos, mais bem formados e cultos, fizeram-se graças aos barcos europeus. No tropeço verbal, fez pouco caso dos portugueses, não menos europeus, também aqui aportados sob o sopro de ventos marinhos. Com fervor portenho, pouco antes, havia dito que o mundo todo se orgulhava de seu país.

Mas não é uma expressão atropelada, de mau gosto, que deve constituir preocupação maior. Pior que isso é, da parte de um governante, o repetido descuido no uso das palavras. Porque, quando, infelizes nas línguas oficiais, elas tendem a gerar dificuldades, como nesse caso mais recente, que vem dando trabalho à chancelaria de Buenos Aires. “Não foi bem isso que ele quis dizer”… Antes, o conterrâneo Francisco, Papa, brincando, não nos definiu como silvícolas, mas sugeriu ocupássemos mais tempo em rezar do que beber cachaça. Identificou aqui uma robusta identidade com as destilarias. Nada que seja capaz de nos recomendar à misericórdia de Deus.

Cuidado com as palavras!, porque sobre como o dizê-las haverá de se pedir estreita conta no Juízo Final, ameaçou o evangelista Mateus. Disso eram mais ciosos os políticos antigos. A não ser nos discursos lidos, só falavam o estritamente necessário. Um ajudante de ordens do presidente Dutra julgou-se premiado, quando ouvi dele uma raridade, a breve queixa sobre o calor que fazia em certa manhã. Não menos econômico, cultivando horror ao excesso de palavras, o governador Benedito Valadares queria que as reuniões do secretariado só se fizessem depois de tudo resolvido, para que se falasse pouco

A loquacidade faz mal aos estadistas, e acaba comprometendo muitas biografias. E aqui, tão perto da bela capital argentina, o presidente Bolsonaro corre esse perigo, embora, quando fala, ganhe o aplauso de grande parte dos apoiadores. Deixa-se trair facilmente pelas palavras. Estou inclinado a achar que o verbo pode ser seu grande adversário, maior que o próprio PT, embora também ali não falte palavrório inútil; o palavrório, de ambos os lados, disputando a chegada ao segundo turno.