A falta que faz não ter governo

No começo dos anos 60, quando a audiência dos televisores em preto e branco se dividia no Rio de Janeiro entre a TV Tupy (canal 6) e a TV Rio (canal 13) e a novata TV Excelsior (2), que teve vida curta e sucumbiu com dívidas fiscais e trabalhistas no governo militar (a TV Continental, canal 9 dava traços e a TV Globo só surgiu em 1965), fazia grande sucesso um programa da Tupy que satirizava os costumes e a política. Era a “Boate do Ali Babá”. Um personagem recorrente era interpretado pelo ator baiano Mário Tupinambá, que ficou conhecido como “deputado baiano” e na “Escolinha do Professor Raimundo” era o esquentado “Camarão, é a mãe!”. Numa noite, Mário Tupinambá fez sátira fantástica de Carlos Lacerda, ferrenho crítico de vários governos, em especial de Getúlio Vargas. De óculos, a calva que se acentuou com o tempo, adentra a boate acompanhado de um séquito de assessores e um grupo de jornalistas e se acomoda numa das mesas principais.

[Transformada em Estado da Guanabara em 1960, após a mudança da capital federal para Brasília em abril, a antiga capital, assim como São Paulo, vivia em 1962 sob o racionamento de energia - as famílias ficavam à luz de velas das 18 às 20/21 horas, o que gerou um “baby boom” na época -, e a falta de água, problema crônico há duas décadas, tinha se acentuado. A situação era tão crítica que uma paródia alterou a marchinha de Carnaval “Cidade Maravilhosa”, de 1935, que virou o hino oficial do Estado da Guanabara, logo surgiu do espírito crítico carioca. Dizia assim: “Cidade Maravilhosa; Cidade que me seduz; De dia falta água, de noite falta luz”...]

Pois logo os jornalistas assediam o suposto Carlos Lacerda e começam a perguntar. “Por que falta luz e ele rápido no gatilho: “Se falta luz, de quem é a ccuulllppppaa? É do GOVEERRNNOO!”. Outro vem e alfineta, e a falta de água? [a construção da adutora do Guandu estava em curso, para “garantir água à Guanabara até o ano 2.000” e foi das grandes inaugurações de Carlos Lacerda] De novo ele responde de bate-pronto: “Se falta água, de quem é a cuullllpppaa? É do GOVEERRNNOO!”. Nisto, um assessor mais atento cochicha algo ao pé do ouvido, lembrando que ele era o próprio governador e ele exclama: “OH Diabos, chega de Oposição”.

Pois na 6ª feira, o vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, que não prima por se alinhar 100% com as ideias e atos do presidente Jair Bolsonaro, foi provocado pela imprensa, no Palácio da Alvorada, a avaliar o andamento da “CPI da Covid”. Sua resposta: "Acho que está desorganizada", e completou: "O objetivo da CPI qual é? Avaliar as ações do governo no combate à pandemia, e não a ação do presidente. A ação do governo". Bingo! Para ele, os senadores deveriam focar a investigação em ações voltadas para o que foi feito em relação à saúde, à economia e às questões sociais para produzir um relatório final “honesto”. E o general fez questão de enumerar três frentes que deveriam ser examinadas pela CPI: Saúde – “vamos ver o que foi feito para minorar os efeitos da doença; Economia - o que foi feito para mitigar os efeitos do lockdown na economia; Social - o que foi feito para auxiliar as pessoas que estavam em situação de dificuldade. E concluiu: Se (a CPI) se organizar dentro disso aí, chegará a um resultado, a um relatório decente e honesto". O general parece ter tocado justamente no ponto fraco da gestão da pandemia: a ausência ou inação do governo federal na coordenação das ações.

Comecemos pela Saúde – neste maio, no qual acumularemos mais de 460 mil mortos pela Covid-19, com cerca de 58 mil óbitos no mês, houve uma expressiva queda após a hecatombe de abril, quando perdemos cerca de 150 mil brasileiros. Em parte, a queda de mortes e contágios foi obtida com a maior rigidez na circulação aplicada por vários estados e cidades em abril, renovadas este mês. Mas os dados de novos contágios ainda põem o Brasil como 2° no mundo – a Índia lidera, com média de 188 mil casos, numa população de 1.380 milhões; o Brasil tinha 49 mil e a Argentina vinha em 3º com 39 mil, seguido da França, com 25 mil e da Colômbia, com 23 mil casos. Mas a cepa indiana está se espalhando pelos países vizinhos ou próximos (o Nepal, com 29 milhões de habitantes tinha 10 mil casos, Malásia, com 32 milhões, Tailândia, com 70 milhões, Vietnã com 97 milhões, Bangladesh, com 147 milhões, Indonésia, com 276 milhões, Paquistão, com 220 milhões e Filipinas, com 104 milhões vão demandar quantidades gigantescas de vacinas, escasseando a oferta no mundo. Para efeito de comparação, somos 213 milhões de habitantes.

Mas só na 5ª feira, 27 de maio houve a reunião mensal (via zoom) para coordenação do combate à pandemia da Comissão Intergestores Tripartite (CIT), integrada por representantes do Ministério da Saúde, do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e do Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems) para estreitar as ações de combate à Covid-19, que enfrenta novas e perigosas cepas, como a da Amazônia e a da Índia. O CIT foi criado nos anos 90 para dar eficiência às ações do SUS nas três instâncias de governo (federal, estadual e municipal). As reuniões acorrem na última semana de cada mês. Até a decretação da pandemia pela OMS, em março de 2020, os temas eram dengue, malária, tuberculose ou surtos de sarampo, vírus que já tinha sido erradicado com vacinação, mas voltou a grassar pela recusa de muitas famílias, por razões religiosas, a proteger os filhos na infância. Em janeiro nem houve reunião, embora já circulassem notícias do misterioso vírus na China.

A primeira de 2020 foi em 13 de fevereiro, antes do Carnaval, quando poderia ter sido decidido forte controle nos aeroportos, com testes em turistas e viajantes brasileiros vindos do exterior. O ex-ministro Mandetta já se penitenciou sobre isso. Durante a pandemia, ele atuava diariamente na TV, numa catequese para incutir na população os novos hábitos de higiene constante das mãos, uso de álcool em gel e máscaras, enquanto sua equipe articulava com os secretários estaduais e municipais a provisão de equipamentos de proteção individual (EPIs) para o pessoal da saúde, além de respiradouros, máscaras e camas especiais. A montagem dos hospitais de campanha veio desta articulação especial, na qual grandes empresas (industriais, comerciais e financeiras) se envolveram. A busca desenfreada pelas nações ricas destes insumos, cuja produção estava concentrada na China e na Índia, provocou uma inflação de preços com leilões em aeroportos vencidos pelas nações mais ricas. Mandetta deixou o governo em 16 de abril (na semana seguinte à Páscoa), batendo de frente com o presidente Jair Bolsonaro na questão do isolamento e da retomada das atividades (em “live” em 20 de março, Bolsonaro tratou a Covid-19 como “uma gripezinha” e anunciou, repetindo Donald Trump, a “retomada das atividades do comércio na Páscoa). Nélson Teich assumiu em 18 de maio e deixou o cargo 28 dias depois, também recusando avalizar a cloroquina na rede SUS. Fez uma reunião do CIT, em 21 de maio, quando foram estabelecidos a “criação de centros de triagem” – ele queria ampliar as testagens para ver onde o vírus estava mais atuante - e definidos “financiamento dos hospitais de campanha”.

O general Eduardo Pazuello, indicado para secretário-executivo de Teich, assumiu interinamente em fins de maio. Em junho, o CIT se reuniu mais cedo (18 de junho), porque, com as comemorações de São João no interior do país [que deveriam estar suspensas, como o Carnaval] a reunião marcada para dia 24 foi antecipada; este ano, ocorrerá o mesmo, ocorrerá no dia 13 [espero que entre as decisões, proíba as festividades que geram aglomerações, o que facilitaria a propagação da cepa indiana que já está presente em vários cantos do Brasil, sem falar da nova cepa brasileira. Na gestão Pazuello, efetivado a partir de setembro, há muitas reuniões. Poucas tratam de vacinas, que já tinham sido aventadas por Teich (os primeiros contatos da Pfizer foram com sua equipe em maio e as tratativas se arrastaram com Pazuello). As revelações já feitas na CPI já servem para montar um quebra-cabeças altamente devastador da falta de ação e coordenação do governo federal na saúde, cujo epicentro foi a falta de oxigênio em Manaus.

Na área Social , houve enorme relutância na aprovação do Auxílio Emergencial para os milhões de brasileiros que perderam emprego ou renda com a redução (voluntária ou induzida na circulação). O ministro da Economia, Paulo Guedes, queria aprovar algo em torno de R$ 200 mensais que era o teto do Bolsa Família, distribuído a pouco mais de 30 milhões de pessoas. O Congresso fincou pé num auxílio de R$ 500 mensais. Com instinto político, o presidente Jair Bolsonaro aumentou o cacife para R$ 600 mensais. Mas, seguindo o projeto da calamidade pública, que limitou a autorização para o estouro das metas fiscais ao ano de 2020, o AE começou a ser podado 50% em setembro e não foi renovado para 2021, como se a pandemia fosse acabar na mudança do ano fiscal. Assim como a popularidade do presidente subiu, embalada pela ajuda do Auxílio Emergencial, ela começou a murchar tão logo foi cortado pela metade e a inflação dos alimentos tinha obrigado as famílias a cortar as compras nos mercados. O governo ressuscitou o AE a partir de março, no máximo em R$ 250. Cortou praticamente metade dos 64 milhões de beneficiados em 2020, mas a popularidade do presidente não reagiu e continua a cair. Cogita-se em nova prorrogação até o fim do ano e em implantar um Bolsa Família turbinado no ano eleitoral de 2022.

O desastre na Economia é o mais grave. O governo não cuidou de controlar o dólar. Irrigou a economia com bilhões de reais, liberando os depósitos compulsórios (à vista, a prazo e de poupança) dos bancos, mas (como em várias ocasiões na história do país) eles não se transformaram em créditos para as famílias e as empresas. Houve renegociações de empréstimos às famílias e às empresas. Os bancos limparam as carteiras de créditos em atraso, mas, embutindo os juros que estavam muito altos de março a maio de 2020, a expansão real (descontada os juros e a inflação) foi pequena para o setor produtivo. Os programas de sustentação do emprego não foram renovados na mesma intensidade em 2021 e os dados do desemprego ainda estão elevadíssimos mesmo na retomada (o Itaú previu esta semana que o PIB cresça 5%, devolvendo o tombo de 4,1% em 2020, mas, em função do alto desemprego e da pobreza mantém a expansão em apenas 1,8% para 2022).

Há setores que estão crescendo muito na economia, retomando níveis acima de antes da pandemia. A agropecuária segue com safras recordes. Em 2020 foi assim também, mas os brasileiros tiveram a maior alta na alimentação desde 2016. No ano anterior, a ex-presidente Dilma Roussef soltou o dólar, que represara no 1º mandato e ele subiu 52%, pressionando os produtos de exportação (como soja, milho, café, açúcar e carnes, que têm preços atrelados às cotações internacionais) e os combustíveis (a gasolina subiu 26%, depois de anos correndo abaixo da inflação) e a energia elétrica subiu 55%, após ter sofrido redução de 18% em 2013. O 1º reajuste dos juros, do câmbio e dos combustíveis e da energia veio menos de 30 dias após a reeleição. Muito da perda de sustentação de Dilma no “impeachment” veio daí. Agora, a história se repete: faz sentido o país “celeiro do mundo” ter tido de importar arroz e soja em grão, em setembro, para fazer óleo que subira 100%?

E a crise de energia que está ameaçando o país com novo racionamento como o de 2001, que facilitou a eleição de Lula em 2002, ou o apagão do Amapá em novembro e dezembro do ano passado? A energia vai dar choque no bolso do consumidor não só pela escassez de chuvas. O fato sempre ocorre nos períodos de estiagem (maio a outubro/novembro) nas bacias das usinas do Centro-Oeste e Sudeste. Agora, o governo terá de fazer leilões para acionar termelétricas a gás natural, a biomassa ou, em última instância, a óleo diesel ou combustível porque geriu mal a curva do consumo em 2020, quando devia ter acionado as termelétricas e poupado água. Comércio e famílias consumiram menos. Mas indústrias com uso intensivo de energia na produção (alumínio, celulose, petroquímica, mineração, ferro e aço, cobre) [alertamos aqui no JB] aproveitaram o dólar em alta e a tarifa baixa de maio a dezembro para expandir sua produção na faixa de 15% a 30%. Em novembro, com os reservatórios já baixos, prenunciando problemas em 2021, o governo elevou a tarifa da bandeira verde à Vermelha 2, com custo cinco vezes maior por KWH.

O bom gestor na economia teria evitado, em agosto, a crise, que levou os reajustes pelo IGP-DI a 37%. Que falta faz Carlos Lacerda nos dias de hoje.



Jair Bolsonaro
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