Partidos demais atrapalham

Em condições de normalidade política já seria suficiente, para espanto geral, o fato de um presidente da República pelejar, mais de ano, para descobrir o partido em que possa se filiar, e ali construir seu projeto político - fato inédito –, depois de fracassar na tentativa de criar um para uso próprio. Mas há outras razões para desconfiar, inclusive por terem várias legendas, não menos de uma dúzia, mudado o nome original, sem motivação programática ou ideológica, porém subservientes a conveniências do momento; e tentar ganhar mais adeptos. Para tanto, não titubearam em requerer novas certidões de identidade, sem que para isso faltasse a boa vontade do Tribunal Superior Eleitoral. Foram rebatizados com nomes mais convenientes. São duas realidades que socorrem a quem condena as deformações da organização partidária brasileira, defeito que já vem somando tempo.

Os partidos, salvo breves exceções, nascem e têm sobrevivido com base em princípios vagos e imprecisos. Atualmente são 33, em sua maioria carentes de autenticidade, mas resultantes de mistificações, criados em gabinetes fechados, onde raramente alguém se preocupa em saber o que a nação pensa sobre eles; e deles o que deseja. Daí a falta de ideias e ideais, o que se confirma amplamente para citar o fenômeno do momento, quando a sucessão do presidente Bolsonaro (de governadores não tanto) vai sendo discutida apenas entre possíveis caminhos da esquerda, direita e do centro, onde facilmente os partidos podem esconder a carência da identidade própria. O que também explica o hábito de os agentes políticos, principalmente deputados, poderem entrar, sair ou retornar às antigas sedes, sem maiores cerimônias e recatos. E tudo acaba ficando como sempre foi.

Desse quadro melancólico extrai-se a constatação de que, não satisfeitos com a fartura das 33 organizações já registradas na Justiça, 70 grupos interessados formam uma alegre fila, pleiteando registro, constrangendo os ministros, chamados a votar e liberar postulações pífias. Nem se poderia queixar-se de falta de humor, quando se fala em Partido dos Animais, das Sete Causas e Partido dos Piratas, entre outras extravagâncias, que merecem recusa “in limine”; já na fase postulatória, para que se evitem vexames e deturpações na já sofrida política brasileira.

Quando se chega a um quadro assim, muito próximo da licenciosidade e ampliando a coleção de aventuras políticas no Brasil dos nossos dias, vê-se que sobrenada a isso uma boa oportunidade para o Congresso Nacional e os tribunais estudarem a conveniência de certas restrições, talvez ainda em tempo de colocá-las a serviço das eleições de 2022. Necessitamos de partidos menos numerosos, mas com programas mais elaborados e sérios propósitos. O que faria muito bem ao Brasil e ao eleitorado. Feito isso de imediato, depois, aprofundando um estudo mais cuidadoso, teríamos tempo para discutir a redução de tantas siglas a um número razoável, de forma que nelas possam ter acolhida todas as tendências políticas e ideológicas. Cinco ou seis talvez fossem suficientes, com o que já têm acordado vários cientistas, amigos do aperfeiçoamento e adversários da pulverização partidária, que não tem sido boa para a democracia representativa.

Jacarezinho, a senzala

Aquela cena das mulheres e moças do Jacarezinho, cerca de 60, comprimidas em ruas estreitas para denunciar a ação policial contra os traficantes da favela, antecipou, por algumas horas, o 13 de Maio. Antes delas, a tragédia de 30 mortos já tinha avançado no calendário, para que não passasse em branca nuvem a infâmia da escravidão, que acabou sem ter acabado. Valeu o protesto, porque não se pode dizer que os enjeitados da sociedade sejam coisa do passado, pois persistem, de outras formas, as antigas maldades do cativeiro. Aquelas mulheres não se deram conta, nem perceberam isso, porque, embora raivosas, só pediam nada mais que um pouco de paz. Todas negras, muitas com o ventre mal coberto, que amanhã ou em qualquer outro dia haverá de gerar meninos que ali já nascem condenados ao trabalho servil exigido por traficantes, a versão atualizada dos antigos feitores e capatazes. As crianças saltam para a vida e crescem para serem escravas, com a diferença de que as mãos já não vão segurar enxadas, mas empunhar fuzis. Até a pena das chibatas foi transformada e decreta a eliminação sumária dos desobedientes. Porque no Jacarezinho o tempo recuou para revogar a Lei do Ventre Livre. Úteros condenados a alimentar gerações de ajudantes escravizados, humilhados no papel de capitães do mato ou mulas, com suas cargas de pó branco. E os jovens vão crescer deserdados de qualquer coisa parecida com a Lei dos Sexagenários, porque não terão chance de envelhecer. Só por milagre haverão de escapar das refregas com a polícia ou tombarão na guerra das gangues, que não param de disputar espaços para traficar mais e mais. A favela não deixa a escravidão morrer, todo dia coberta de sangue negro.

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