Como Lula e Dilma, Bolsonaro usará a Petrobras para reeleição

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Que ninguém se iluda. A popularidade do presidente Jair Bolsonaro caiu barbaramente com o fim do Auxílio Emergencial e a escalada da Covid-19, que já deixou o Brasil com mais de 250 mil vítimas fatais e mais de 10 milhões oficialmente contaminados. Especialistas dizem que os números reais são o dobro, o que explica a rápida contaminação pelo país afora e o surgimento de novas cepas, mais virulentas e letais. Enquanto isso, a vacinação para, por falta de adequado planejamento lá atrás, quando o presidente desdenhava da ”vacina chinesa de João Dória” e agora se agarra a ela, ordenando ao ministro da Saúde, o general Pesadelo (ops, Pazuello, mas a boa tirada é do jornalista Vinícius Torres Freire, da centenária “Folha de S. Paulo”), pois é praticamente a única vacina disponível. Lobbies acolhidos pelo líder do governo de Bolsonaro e ex-ministro da Saúde de Temer, Ricardo Barros (PP-PR), estão conseguindo liberar a importação dos insumos da russa Sputinik V e da indiana Covaxim, do Bharat Biotech, antes da aprovação das mesmas pela Anvisa. Mas isso é outro capitulo...

Com 212,4 milhões de habitantes, o Brasil precisa vacinar pelo 177 milhões para garantir um mínimo de imunidade. Ou seremos os “párias”. Não como defensores da liberdade (aqui entendida como sinônimo dos princípios democráticos que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, tentou resgatar perante os parceiros europeus e ao Grupo do G-7, quanto condenou o autoritarismo, após os quatro anos de Donald Trump remando ao contrário, até trincar os cristais em 6 de janeiro de 2021, na maior infâmia contra a democracia americana, quando insuflou seus asseclas a invadir o Capitólio reivindicando uma vitória fake no Colégio Eleitoral e nas urnas, nas quais perdeu por quase 8 milhões de votos), ideia do chanceler Ernesto Araújo a novas turmas do Instituto Rio Branco, que forma os diplomatas do Itamaraty.

Seremos párias porque, sem vacinação, perderemos o direito de ir e vir pelo mundo. Os voos provenientes e com destino ao Brasil estão sendo proibidos por dezenas de países. Mas nem é preciso comprar passagens aéreas para verificar como o Brasil virou um ponto fora da curva no governo Bolsonaro. Na fronteira do estado do Acre com o Peru, brasileiros estão sendo barrados na cidade de Assis Brasil. A cidade dá acesso à rodovia Pan Americana, cujo destino final para milhares de emigrantes da América Latina seriam as fronteiras dos EUA, com supostas restrições mais brandas na gestão Democrata. Haitianos, que há alguns anos estavam no Brasil e decidiram ir embora, em busca de novas oportunidades diante da perda de empregos e serviços no Brasil, são os principais alvos, facilmente identificáveis. Mas os brasileiros são evitados e barrados por trazerem o risco da peste.

É incrível que enquanto todos os países responsáveis tomam drásticas medidas profiláxicas para isolar a propagação das novas cepas e redobram os esforços pela vacinação em massa – o único antídoto, até agora, contra a Covid-19 e seus derivativos – o Brasil nada faz nas duas frentes. Não suspende voos internacionais. Não redobra o rigor nos voos domésticos. Nem faz cerco como fizeram as autoridades sanitárias paulistas nas duas cidades do interior do estado que tiveram surto das novas cepas. Ao contrário, a “logística” do ministro da Saúde espalhou o novo surto do Amazonas para outras regiões do país, quando deslocou pacientes (sem o devido isolamento prévio e cuidados durante e depois dos traslados) a hospitais das grandes cidades.

O Rio de Janeiro foi um dos receptadores dos contaminados e nada se sabe de providências posteriores para evitar a proliferação. Nenhuma campanha de rastreamento de contatos e, enquanto a vacinação não tem dia para retornar, não se viu nenhum reforço do uso de máscaras pela cidade. Moradores de todos os cantos do Grande Rio acorrem às praias já sem máscaras no trajeto de chegada e lá encontram vendedores que apregoam toda a sorte de produtos sem o equipamento preventivo. Os assintomáticos espalham vírus pelo ar. Não é toa que a cidade tem o mais alto índice de mortes do Brasil. Triste país que não planeja nada e parece viver sob um total improviso.

Falei em improviso e o caro leitor deve estar se perguntando: e a Petrobras?

Permita-me discordar da maior parte das análises que viram um improviso e intervenção indevida na decisão do presidente Jair Bolsonaro de não renovar o mandato do atual presidente Paulo Roberto Castello Branco – que venceria em 20 de março e a proposta de recondução ou troca seria feita em reunião do Conselho de Administração, no dia 23, terça-feira, véspera da divulgação dos resultados da empresa estatal no quarto trimestre, portanto, no ano de 2020. Castello Branco irritou o presidente, cuja popularidade está em franco declínio, daí seu empenho em ressuscitar o Auxílio Emergencial ainda em março (e nesta segunda-feira, 22 de fevereiro, devem sair novas pesquisas), quando promoveu esta semana o terceiro reajuste da gasolina, que acumula alta de 34,7% no ano, e nova alta do diesel e do GLP. Nesta segunda-feira, 22 de fevereiro, vencem também os contratos de opções da Petrobras na B3 (antiga Bovespa). As oscilações para cima (+14%) e para baixo das cotações de quarta (17) para 19 (sexta-feira -10%) fizeram muita gente que já comemorava perder milhões. O lucro saiu da mão dos comprados para os vendidos. O que explica a grita forte de sexta-feira. Com a palavra a Comissão de Valores Mobiliários para investigar e esclarecer se houve “inside information”.

O diesel, produto mais vendido no Brasil, pois é o combustível dos caminhões, ônibus e trens, além de pick-ups, a gasolina e o GLP, usado em quase 90% dos lares brasileiros, com o gás de bujão, são artigos muito sensíveis ao bolso da população. Todos os presidentes brasileiros, desde JK, passando pelos generais da ditadura militar, trataram do abastecimento e o preço dos combustíveis como “questão de segurança nacional”. Era um resquício da Segunda Guerra, quando na falta de combustível a frota diminuta do país parou por falta de derivados de petróleo. Houve improvisos, como o gasogênio e as primeiras experiências com álcool, retomadas na crise do petróleo, em 1973.

Desde 1954, o Brasil já tinha a Petrobrás (então com acento), mas não tinha petróleo nem refinarias – na crise de 1973, o Brasil só produzia 15% do consumo e importava derivados. A Bacia de Campos, descoberta em agosto de 1974, começa a produzir no fim de 1979, quando veio o segundo choque do petróleo. Foi a produção de Campos (permitindo reduzir drasticamente importações nos anos 80 e 90) que, ao lado das crescentes receitas do agronegócio, tirou o Brasil do buraco da crise da dívida externa. A expansão acelerada da China neste século (hoje absorve mais da metade das exportações do agronegócio, dos minérios e mais de 60% do óleo, extraído quase 70% do pré-sal) mudou a geopolítica do petróleo e da economia.

Vai longe o país que, nos anos 50-60, tinha no café 60/70% das receitas de exportações (hoje não chegam a 4%) e era vulnerável no petróleo e na energia. JK criou o binômio energia-desenvolvimento e construiu Furnas e Três Marias para atrair a indústria automobilística estrangeira. Muita matriz de segunda mão, liberada pela modernização do Plano Marshall, veio para cá como se bem de capital novo fosse. A abertura de estradas garantiu um mínimo de circulação dos novos bens pelo mercado interno que se alargava num país ainda rural.

Mas voltando à advertência inicial, o silêncio de Bolsonaro diante do destampatório do deputado Daniel Silveira (PSL-RJ) pregando a morte dos ministros do Supremo Tribunal Federal e a volta do famigerado AI-5 – a única voz da família a manifestar apoio foi o filho 03, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que votou contra a manutenção da prisão referendada por 11 X 0 pelo STF – o foco na Petrobras foi estudado pelo presidente e seus assessores para sair do “corner” (jargão do mercado financeiro para quem está acuado num negócio a futuro – no caso a reeleição em 2022) em que estava metido por uma sucessão de notícias desfavoráveis à atuação do governo.

Ele escolheu a Petrobras porque os preços da energia elétrica (outro alvo em gestação nos bastidores da Casa Civil, sob o comando do general Braga Neto, e da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos), dos combustíveis e dos alimentos são os que mais pesam no bolso. E ele sabe que bolso é mais da metade de seu nome: Bolsonaro. Se não cuidar dos preços dos combustíveis e da energia elétrica e deixar tudo ao sabor do mercado, como aconteceu, absurdamente, na gestão dos estoques de alimentos, não adianta voltar com o Auxílio, pois será devorado e acabam suas chances de reeleição. Como pode o ”celeiro do mundo” ter alta de mais de 14% nos alimentos e bebidas em 2020 e o óleo de soja subir mais de 100% e o arroz mais de 60%? Com o descuido das áreas de Economia e da Agricultura, produtores exportaram tudo, aproveitando o dólar alto, e foi preciso importar arroz e soja em grão para extrair óleo. Um fiasco inimaginável. Algo como Getulio ou JK importarem café da Colômbia para abastecer o mercado brasileiro nos anos 50.

Os planos ultraliberais de Paulo Guedes e sua turma eram privatizar ao máximo as estatais e liberar a economia, no comércio exterior. No comércio exterior, houve liberação da importação de armas... No primeiro item, só as estatais, sobretudo a Petrobras, vendiam subsidiárias ou empresas periféricas. Estava para ser batido o martelo da venda da primeira das 8 refinarias (50% da capacidade de refino) na gestão Castello Branco: a emblemática Refinaria Landulpho Alves, no Recôncavo Baiano, a pioneira do Brasil. Com a troca dos liberais pelos generais – o general Joaquim Silva e Luna, que era diretor-geral de Itaipu Binacional, trocou um gordo salário de R$ 150 mil, pago em dólar, moeda da empresa compartilhada com o Paraguai, pelo espinhoso cargo de presidente da Petrobras, sendo deslocado para seu lugar outro general de quatro estrelas, João Francisco Ferreira, ex-comandante do Oeste no governo Dilma.

Na cerimônia de formação, sábado, de mais de quatro centenas de cadetes da Escola de Preparação de Oficiais do Exército, em Campinas, o presidente estava com boa parte do generalato que o acompanha: o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, que há muito não circulava, o chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, e comandante do Exército, Eduardo Pujol entre outros. E não se cansou de citar a palavra Pátria, em letras maiúsculas, ressaltando aos futuros 382 oficiais homens e 37 mulheres, trajando uniformes camuflados, que “o soldado não pode fugir ao chamamento da Pátria, pela qual “tudo é possível (...) até mesmo o sacrifício da própria vida”.

Ao assumir a casamata da Petrobras, Bolsonaro repete o que Lula e Dilma fizeram para turbinar a suas reeleições. Em 2005, fustigado pelo mensalão, quando muitos pensaram que iria até renunciar, Lula começou a falar diariamente na mídia (que esperava a renúncia ou novos sacrifícios, como a demissão de José Dirceu da Casa Civil) e foi reconquistando a opinião pública. Aproveitou a euforia da descoberta do pré-sal, em 2006, para segurar os preços dos combustíveis, enquanto percorria o interior do país alardeando a redenção dos biocombustíveis com o óleo de mamona (um dos maiores fiascos da Petrobras, enterrado de vez este mês). Nada se produziu de mamona, o biodiesel vem 87% da soja e 10% de gordura animal (boi, porco e frango).

Dilma segurou os combustíveis depois que o povo foi pra rua em 2013. Os preços e o câmbio começaram a subir após o resultado das urnas e explodiram na alta de 55% na energia elétrica e dos 26% da gasolina em 2015, primeiro de dois anos da maior recessão até a pandemia da Covid-19. Muito dos prejuízos da Petrobras vieram do congelamento dos preços, agravados pelas roubalheiras e superfaturamentos confessados pelas empreiteiras e fornecedores na Lava-Jato.

Se fosse o Paulo Guedes, amigo de Roberto Castello Branco desde os anos 80, quando fizeram PhD em Chicago e estiveram no Ibmec, e responsável por sua indicação ä Petrobras, pedia mais um dos uniformes de camuflagem para passar despercebido ou como “um dos nossos” pelos generais...