Com olhos nos EUA e o coração na boca

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Manoel Francisco dos Santos, o Garrincha, imortal camisa 7 do Botafogo e da seleção brasileira, que participou, junto com Pelé, da campanha vitoriosa da Copa da Suécia, em 1958, desde o 3º jogo contra a URSS, quando ambos estrearam na vitória de 2 X 0 (gols de Vavá), e que praticamente carregou nas costas a já velha e cansada seleção bicampeã de 1962, no Chile, após Pelé sofrer estiramento no 2º jogo, no empate sem gols contra os tchecos (perderam de 3 X 1 na final), teve uma tirada genial quando o gordo técnico Vicente Feola traçava uma série de jogadas ensaiadas para enfrentar o temível futebol de laboratório dos soviéticos. “Já combinou com os russos?”. O Brasil venceu a Áustria na estreia por 3 X 0 e empatou penosamente de 0 X 0 com a Inglaterra, com o goleiro Gilmar salvando a pátria duas vezes. Se os ingleses vencessem bem os austríacos, o Brasil corria o risco de cair na 1ª fase.

Macaque in the trees
Eduardo Pazuello (Foto: Marcos Corrêa/Presidência da República)

Pelé vinha de recuperação, mas estava pronto para o jogo. Por pressão dos mais velhos e experientes (Didi e Nilton Santos, seus companheiros no Botafogo) Garrincha também foi escalado e arrasou (sempre que ele e Pelé jogaram juntos, a seleção não perdeu: 36 vitórias e 4 empates). O falecido jornalista Nei Bianchi, em texto primoroso, se não me engano, em “Fatos & Fotos”, revista mais ágil e leve que a “Manchete”, descreveu as primeiras três jogadas de Garrincha que deixaram os russos (que não entendiam a “lógica” do bailado daquelas pernas tortas) absolutamente atônitos. A começar com Lev Yashin, o “Aranha Negra”, que com poucos minutos de jogo foi buscar duas bolas de Vavá nas redes, sem sequer esboçar uma defesa. Antes, a um minuto de jogo, Mané Garrincha estraçalhou três “Joãos” russos e desfechou um balaço na trave esquerda de Yashin, que reverberou em Moscou.

Estou lembrando de Garrincha pois ele seria a melhor pessoa para desdenhar do discurso organizado e vazio de quem está comandando o Ministério da Saúde, o general Eduardo Pazuello, ora conhecido como “Sancho Pança”, pela barriga, ou “Sargento Garcia”, pela agilidade e eficiência. Este, jamais prendeu o Zorro. Já o general foi escolhido, após a demissão do médico Luiz Henrique Mandetta, para ser o secretário-geral do ministério comandado pelo médico Nelson Teich, porque “era especializado em Logística no Exército” e coordenara a operação “Acolhida”, para receber refugiados venezuelanos em Roraima. Logística foi o que faltou na 1ª fase do enfrentamento do novo coronavírus. Mandetta tinha uma orientação no Ministério da Saúde: na falta de equipamentos (respiradores, leitos de UTI, uniformes, luvas, máscaras e álcool em gel para o pessoal da saúde), defendia o isolamento social, sobretudo dos mais velhos, para não sobrecarregar a rede do SUS (como ocorre agora).

Mas o presidente Jair Bolsonaro seguia os passos do presidente dos Estados Unidos, seu ídolo Donald Trump, que considerava a covid-19 “uma gripezinha”, que não poderia enfrentar o “poderio americano”. Bolsonaro era contra o isolamento e pregou abertamente contra governadores e prefeitos que tomaram medidas preventivas quando a primeira onda explodiu. Trump e Bolsonaro queriam reabrir a economia na Semana Santa (data importante para o comércio, sobretudo a venda de ovos de páscoa, o negócio de uma franquia, na Barra da Tijuca, Rio, do filho 01, o senador Flávio Bolsonaro). Bolsonaro sempre se recusou a usar máscaras, “coisa de maricas”. Teve a Covid-19 – que de resto atingiu mais da metade do seu governo e sua família – mas continua a não usar máscara. E, em vez de seguir o exemplo dos grandes líderes mundiais que correram a se vacinar para estimular a população a fazer a vacinação em massa – única forma de enfrentar as mutações da Covid – argumenta (erradamente) que não precisa usar máscara nem se vacinar porque já foi inoculado pelo vírus. Boris Johnson, primeiro ministro inglês, teve o vírus e se vacinou, assim como a Rainha Elizabeth.

A falta de coordenação – de logística – privou o Brasil quando as nações mais ricas e poderosas chegaram a sequestrar aviões que pousaram em seu território e confiscaram as cargas. Jared Kushner, genro de Trump, fez leilões em aeroportos da China (maior produtor mundial de EPIs), desbancando cargas destinadas à França, pagando à vista. O general da Logística quase deixa caducar 7 milhões de testes nos galpões da Anvisa em São Paulo, por não fazer a coordenação junto aos estados. Demanda é que não falta.

A situação se agravou com a nova onda, turbinada pelo alastramento rápido de versões mutantes do vírus, identificadas no Brasil, na Europa, Ásia e Estados Unidos. A descoberta das mutações veio quase simultânea às aprovações das primeiras vacinas. O mundo ficou mais confiante, mas sabe que a batalha será longa e persistente para a vacinação em nível seguro dos 7,7 bilhões de habitantes. Mais de 53 países (um quarto das nações do mundo) já estão em plena vacinação. Nas Américas, EUA, Canadá, México, Costa Rica, Chile e Argentina já estão na segunda ou terceira semana de vacinação. A Colômbia começa agora e a Venezuela vai importar a Sputnik V da Rússia. E o Brasil, de novo, não se preparou para ter seringas e vacinas (Bolsonaro as desdenha). Levou um panelaço na 6ª feira à noite pelo Brasil afora.

Mas o vexame brasileiro parece ser muito maior. Na semana anterior, quando ouviu o ministro “Sancho Pança” falar que o Brasil teria mais de 300 milhões de doses de vacinação (em dois turnos), um amigo auditor, há décadas acompanhando balanços de grandes empresas, até multinacionais, me chamara a atenção: a AztraZeneca, que desenvolveu, através da Vaccitech (a incubadora de alta tecnologia da Universidade de Oxford), a vacina contra a Covid-19 que foi precedida de testes conduzidos no Brasil pela Fiocruz, não fizera nenhum comunicado oficial sobre fornecimento ao Brasil, que seria executado pelo gigantesco “Serum Institute of India” (SII), o maior fabricante mundial de vacinas.

O Brasil contava receber o insumo farmacêutico ativo (IFA) volume inicial para 2 milhões de doses. O Serum teve os testes da vacina aprovados no dia 6 de janeiro, conforme comunicado da anglo-sueca AztraZeneca. No site deles, nenhuma menção de fornecimento maior ou aprovação da vacina no Brasil (depende da Anvisa). Procurei a assessoria de comunicação da Fiocruz. Garantiu que o fornecimento estava certo, mas só seria possível acelerar a produção no 2º semestre. Minha preocupação se devia ao fato de que temos 16 milhões de habitantes com mais de 75 anos. Somando os profissionais de saúde (em 2 doses), só dá para iniciar vacinação com um mínimo de 35 milhões de doses garantidas (fora as seringas...).

As idas e vindas do “Sancho Pança” ou “Sargento Garcia” parecem indicar que não. Dia 4 de janeiro, um jornal indiano deu uma preocupante informação. O país de 1,350 bilhão de habitantes tem um convênio com a OMS para fornecer 1 bilhão de doses no programa de assistência a nações pobres e em desenvolvimento, mas daria prioridade ao atendimento de sua população antes de firmar contratos de exportação. O cronograma de atendimento às exportações (que incluiria o Brasil) não estava pronto. No mesmo dia o Chanceler Ernesto Araújo, enviou mensagem à Índia para a confirmação do pedido. E no dia seguinte expediu nota dizendo que a remessa de 2 milhões de doses, que seriam juntadas às da chinesa CoronaVac, do Butantan (SP), para dar início à vacinação nacional dia 20 de janeiro, estava garantida. Para reforçar o pedido, o presidente Jair Bolsonaro, enviou carta, dia 8 de janeiro, ao primeiro-ministro Narendra Modi, seu parceiro nos BRICS, pedindo prioridade.

Ato contínuo, o Ministério da Saúde afretou à Azul um Airbus A330 que decolou 5ª feira, 13 de janeiro, do aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), rumo a Mumbai (Índia), com escala em Recife. A logística do plano original era de que o avião estaria de volta com a carga neste sábado, 16 de janeiro (hoje, domingo a Anvisa deveria anunciar autorização para as vacinas do Butantan e da Fiocruz). Acontece que o avião não decolou na noite de 5ª feira. O governo indiano pediu mais um dia para o embarque de volta ao Brasil só se realizar quando começasse a vacinação no país neste sábado (16 de janeiro).

Como diria Garrincha, “faltou combinar com os hindus ou indianos”, ou pior ainda com os “índios”, na tradução ligeira do inglês para o português [a propósito, caro leitor você já acessou o site do Ministério da Saúde sobre a evolução da doença nas regiões e estados brasileiros? Além das cifras terríveis de mortos e doentes, o original em inglês traz traduções terríveis para o português: AM, abreviatura de Amazonas, vira Sou; no Nordeste, PE, sigla do estado de Pernambuco, é traduzida como Educação Física!; no Centro-Oeste, Goiás (GO) é traduzido como IR e Mato Grosso do Sul (MS), vira simplesmente em (em minúsculas); isso ocorre desde abril e ontem ainda estava assim]. O “Hindustan Times”, um dos mais influentes jornais da Índia, trata jocosamente a diplomacia e a logística brasileiras, transmitindo declaração de um porta-voz do Ministério do Exterior que ainda é "cedo demais" para o envio dos lotes do imunizante, produzido pelo Instituto Serum em parceria com Oxford e a AstraZeneca. E acrescentou: “O Brasil queimou a largada”, o “processo de vacinação está apenas no começo na Índia. É muito cedo para uma resposta específica sobre o fornecimento a outros países, porque ainda avaliamos os prazos de produção e de entrega. Isso pode levar tempo".

Resta torcer para que o atraso, que já será inevitável - Bolsonaro falou 6ª feira que “vai atrasar dois ou três dias” e voltou a receitar cloroquina e ivermectina (para que pressa, não é mesmo?) -, não impeça a vacinação de começar ainda em janeiro. É o presente que peço para o Brasil de aniversário (dia 31). Como farei 71, aguardo entre ansioso e revoltado na fila. Mas parece estar ficando claro: não há plano de vacinação firme no Brasil. Só vacilação no plano. O Dia D não será 20, nem 25 de janeiro. Só falta marcarem para 29 de fevereiro...

Enquanto a vacina não chega e os casos e mortes se acumulam no Brasil, com o coração na boca, os amantes da Democracia no mundo estarão de olho das transmissões dos Estados Unidos sobre a posse de Joe Biden como novo presidente, no Capitólio. Trump já disse que não irá. Vai o vice, Mike Pence. Espera-se que Trump e seus seguidores mais radicais não aprontem nova invasão da Casa que abriga a Câmara e o Senado do país. Preventivamente, perdeu acesso ao Twitter e a outras redes sociais. A perda de direitos políticos no julgamento do impeachment, já aprovado na Câmara, seria o maior castigo.

Por aqui, são assombrosas as informações que chegam do Amazonas e de Manaus. É inconcebível a descoordenação do Ministério do “general da Logística” com as secretarias de Saúde do estado, que levou à falta de oxigênio. Antes já faltavam seringas em sete estados. O general ligou o modo “positivo e operante” e, na 2ª feira, foi a Manaus, 7ª cidade do país, com 2,2 milhões de habitantes. Mas não viu falta de oxigênio. Se viu, não tomou providências. Com o atraso de dois dias ou três dias no começo anunciado da vacinação (agora se entende a “hora H do dia D” manifestado pelo general Pazuello), mandou o avião que estava em Recife (à espera do embarque para a Índia), voltar a Campinas e carregar cilindros de oxigênio para Manaus. Ainda bem que ele entende de logística... Com mais dias (ou semanas) deve ter tempo para solucionar novas falhas gritantes. Não há garantia de vacinas nem seringas. E a Anvisa, repetindo o genro Jared Kushner, vai sequestrar 4,5 milhões de doses do Butantan para redistribuir pelo Brasil afora. Quem diria, o governo Bolsonaro se agarra à vacina chinesa do Dória. Uma dose não basta. Se não sabemos quanto teremos, melhor não dar início às picadas...Seria o fim no começo.

Enquanto isso, o presidente da Venezuela, o inefável Nicolás Maduro (parece saído da série “Chaves”), deve estar às gargalhadas: Donald Trump, que prometeu tirá-lo do poder, está indo embora, escorraçado por boa parte dos americanos e pela opinião pública mundial, e seu vizinho Jair Bolsonaro, que tanto desdenhou do país de Hugo Chaves, no desespero, teve de se socorrer de tanques de oxigênio da Venezuela para reduzir a marcha da mortalidade em Manaus. Aguardam-se os próximos capítulos desta série de terror.



Eduardo Pazuello
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