A última do Bolsonaro

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No estranho Natal deste atípico ano de 2020, as famílias mais prudentes e esclarecidas evitaram a confraternização direta. A celebração do Natal, isolada ou em contato remoto pelas novas vias de celular (vídeo ou zoom), aliviou um pouco a saudade e serviu para sedimentar o espírito cristão de solidariedade. Presente, por sinal, em quase todas as religiões, pois a socialização é o caráter básico da sociedade humana. Neste sentido, nada exprime mais o espírito de Jesus Cristo, que se sacrificou pela humanidade, do que o isolamento social dos entes familiares. Sacrifício no Natal, à espera de que no ano de 2021 seja possível, com as vacinas, uma volta ao quase normal.

Macaque in the trees
Presidente Jair Bolsonaro na saída do Palácio do Alvorada (Foto: Reuters/Ueslei Marcelino - 5/5/20)

Como o Natal de 2020 foi tão diferente neste estranho ano, muita gente, sobretudo os mais velhos, se pegou a relembrar natais memoráveis. Da infância, da adolescência, da idade madura e terceira idade. No meu caso, lembrei de algumas reuniões na casa de meu avô, na Tijuca, na qual um tio que abusou um pouco da cerveja (constato que hoje se bebe muito mais que outrora, talvez porque tenha baixado o teor alcóolico das marcas. Manobra, bem antes da Lei Seca, para atrair as consumidoras. A média gira hoje em torno de 5º - caso da Heineken e da Bohemia, com algumas abaixo, caso da Brahma, com 4,8% (a malte tem 4,7º), da Amstel, a 4,6º, e a Itaipava, com 4,5º. A Stella Artois, que já teve 5,2° de álcool, reduziu a dose para 5% há dois anos).

Voltando aos goles, havia o tio que vira e mexe contava “a última do papagaio”. Algumas anedotas eram velhas. Mas sabia narrar com graça, e todos riam a valer. Isso tudo veio à luz quando, sem clima para piadas de papagaio ou outras politicamente incorretas que circulavam largamente no passado e foram ficando para trás neste 3º milênio, passamos a trocar figurinhas, pelo celular, com irmãos, primos ou amigos sobre “as últimas do Bolsonaro”. Impressionante como o presidente da República Federativa do Brasil se supera em dizer barbaridades a cada dia, com a cara mais cândida do mundo.

Entrevistados por “O Globo” nesse sábado (26), os dois primeiros ministros da Saúde do governo Bolsonaro, ambos médicos, fizeram críticas pesadas ao governo, em especial à falta de liderança do presidente da República, a autoridade maior de governo, e aos sinais invertidos que emite para a população. Oficialmente, o Brasil acumulou no Natal pouco mais de 190 mil mortes por covid-19. Mas Nelson Teich, que renunciou em 15 de maio, antes de completar um mês em substituição a Luiz Henrique Mandetta, por discordar da posição do governo contra o uso de máscaras e o isolamento preventivo, adverte: “O Brasil marcou, dia 24 de dezembro, 190 mil mortes. Se incluirmos nesse número as mortes subnotificadas, que conservadoramente representam 20% do total atual, estamos atualmente com cerca de 230 mil mortos pela Covid-19 e os números crescem de forma significativa", acrescentando que "não é possível saber onde esses números vão chegar". Os piores cenários de Oxford, descartados por Donald Trump e Jair Bolsonaro, em abril, eram nessa direção. Estão se confirmando...

O mundo atingiu um total de 80 milhões de contágios, comprovados, com 1.8 milhão de falecimentos. A estatística macabra é liderada pelos Estados Unidos, onde Trump tratou o “vírus chinês” como “uma gripezinha” que ia sumir, diante do “poderio da América”: até sábado foram 19 milhões de casos e 334 mil mortos. Mas o país, de 329 milhões de habitantes, já começou a vacinação desde o dia 14 de dezembro. É crescente a lista dos países que iniciaram o uso das mais diversas formas de vacinas, já testadas e aprovadas com o caráter de urgência que a epidemia pede, nesta 2ª onda que assola Europa, Estados Unidos e muitos outros países, agravada pela mutação do novo coronavírus. Os 27 países que integram a União Europeia, desde ontem, seguem os passos do Reino Unido, que vai deixar o bloco a partir de 2021, mas foi o primeiro a se vacinar na região, em 8 de dezembro. São nada menos que 514 milhões de habitantes, incluindo os 67 milhões do RU.

No Oriente Médio, Israel, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrein já iniciaram a vacinação. O Japão, país de 126 milhões de habitantes, onde o hábito de usar máscaras e extrema profilaxia (os sapatos ficam do lado de fora das casas e restaurantes, há muitos e muitos anos), acumulava, até sábado, 3.155 óbitos. Mas a preocupação com a nova cepa e o recrudescimento dos contágios que atingiram o recorde de 3.823 casos na 6ª feira, 25 de dezembro, levaram o país a adotar medidas preventivas drásticas, enquanto a vacinação não começa. A partir de amanhã, 28 de dezembro, estão proibidas as entradas de turistas estrangeiros no país. A medida vigora até fim de janeiro, quando pode ser abrandada ou ampliada, conforme a evolução da doença. A China, origem do vírus, iniciou vacinações em julho e conta com três tipos de vacina. Uma delas é a CoronaVac, que será produzida pelo Instituto Butantan.

Na Coreia do Sul, outro país com rígidos hábitos de higiene, as mortes somam apenas 763 casos. Muito pouco para uma população de 51,4 milhões de habitantes. O Estado de São Paulo, com 46,4 milhões, registrava 46 mil mortes até ontem. O Rio de Janeiro, com 17,3 milhões de habitantes, registrava praticamente quase 25 mil óbitos. Em Minas Gerais, o 2º estado mais populoso, com 21,3 milhões de habitantes, o vírus atingiu quase todos os mais de 800 municípios e o estado já ocupa o 3º lugar em mortes: mais de 11.500. A Bahia, o 4º estado mais populoso, com quase 15 milhões, já acumulava 8,954 mortes, se aproximando dos trágicos números de Pernambuco (9.544) e Ceará (9.900 óbitos). Vale lembrar aos que desprezam o isolamento, as máscaras e os hábitos de higiene, que o Distrito Federal - onde está Brasília e o governo do DF determina o uso de máscaras, prática descumprida por Bolsonaro e a maior parte dos ministros - acumulava 4.192 mortes até o dia 25. Mais que a soma de 3.918 de Japão e Coreia do Sul.

Apesar destes números eloquentes e dos movimentos frenéticos dos países das Américas no sentido da vacinação mais urgente da população – Canadá, onde morreram 14.600 pessoas, para uma população de 37,5 milhões de habitantes, iniciou a vacinação esta semana, assim como o México, que acumula 122 mil mortos para sua população de 127 milhões, e Costa Rica deram início, secundados pelo Chile e a Argentina, que inicia a vacinação na 2ª feira, com a russa Sputinik V -, o Brasil segue sem data e programação efetiva de quando começa, de fato, o combate para valer ao novo coronavírus. Na semana do Natal, o presidente Bolsonaro repetiu a fala extemporânea de seu ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, cuja especialidade era logística no Exército, motivo de sua indicação como secretário-geral de Nelson Teich, o breve sucessor de Luiz Henrique Mandetta,, reclamando da “ansiedade” da população (expressa pelas indagações da imprensa sobre o tema) “para que tanta impaciência”. Para Bolsonaro, a pressão por uma vacina contra a covid-19 “não se justifica”. A mesma lerdeza e descoordenação nos custaram a perda de respiradores e equipamentos para os profissionais da saúde enfrentarem vírus fortíssimo lá entre março e maio.

Pior foi o mau exemplo que Bolsonaro deu, dia 23 de dezembro, em São Francisco do Sul (SC), ao ganhar máscara de um admirador catarinense, que lhe sugeriu usar, como exemplo: Bolsonaro afirmou que não usava o item por já ter a "melhor vacina". Como já fora infectado pela covid-19 (mesmo com o surgimento das novas cepas e o registro de quase seis dezenas de casos comprovados de reinfeção), o presidente que já disse que não tomaria vacina, por já ter sido infectado, fez a mais tosca declaração: para Bolsonaro, melhor vacina para a Covid-19 é o próprio vírus, “Sem efeito colateral”, completou.

Em pronunciamento em cadeia nacional, na véspera do Natal, o presidente da República, pela primeira vez, lamentou e lançou uma mensagem de conforto às famílias dos que morreram com o vírus. Foi muito pouco. Faltou anunciar um plano de vacinação e a urgência de ações.

Na entrevista a “O Globo”, Mandetta sintetizou bem o que o conjunto de chorrilhos ditos por Bolsonaro parece querer dizer: “Até hoje não houve uma fala do presidente que ajudasse a Saúde pública brasileira. Ninguém aguenta mais. É legítima a pressão da economia, mas todo mundo deveria andar junto, ou ter uma regra bem clara e transparente para “lockdown” tecnicamente e o governo federal apoiar medidas necessárias. (...) A saída da crise depende muito da capacidade de vacinação da população. Até agora não transparece que a gente vá ter a execução de um plano bem fundamentado. Parece tudo errático. É preciso ter uma capacidade de liderança muito forte, e o Brasil está sem liderança em Saúde”, disse.

“O número de mortes fala por si. Ele (Bolsonaro) teve uma condução desastrosa. A desautorização do ministro em público, “manda quem pode e obedece quem tem juízo”; o “e daí?”; “não sou coveiro”; “gripezinha”; “está no final”. Está no final nada. Agora, eles deixaram 7 milhões de kits [de testagem] no almoxarifado. O governo federal deixou as pessoas à própria sorte. Não vi nem sequer se solidarizar com quem perdeu um membro da família. É quase como se tivessem raiva das pessoas que morreram. Quem morreu é culpado”, disse Mandetta.

Se alguém tinha dúvidas do descaso e do desejo [expresso ou ato falho de desmoralizar a vacinação, aí vai a última do presidente da República Federativa do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, dita na manhã desse sábado, 26 de dezembro, ao ser indagado num passeio, em Brasília, se não ficava incomodado pelo fato de que outros países saíram na frente da vacinação e que a Argentina tenha proibido a entrada de brasileiros no país até 8 de janeiro: Bolsonaro disse que não se sente pressionado e "não dá bola" para o fato de outros países já terem começado a imunizar suas populações.

“Ninguém me pressiona pra nada, eu não dou bola pra isso. É razão, razoabilidade, é responsabilidade com o povo, você não pode aplicar qualquer coisa no povo” — comentou.

Napoleão ou Maria Antonieta não fariam nada mais aviltante.

 



Presidente Jair Bolsonaro na saída do Palácio do Alvorada
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