Restos a pagar

Depois que o ex-presidente Lula, politicamente insepulto, fez constar que era carta fora do baralho na sucessão presidencial que se precipitou no espaço político nacional (houve quem acreditasse), o nome de candidato com jeito de pegar de muda é o do governador Eduardo Campos. É a única hipótese com jeito e estímulos  para se candidatar, com um ano meio de antecedência. Não é demais lembrar o custo político de eleição no país em que Osvaldo Aranha localizou um “deserto de homens e de  idéias”. Sempre fica resto a pagar. 

É por aí que se arma a tempestade de premissas falsas e conclusões imprevisíveis. O pecado original da República foi a reeleição, e veio com atraso secular. A advertência dos seus fundadores se diluiu com o tempo. Foi de caso pensado que Luiz Inácio empurrou sua discípula Dilma Rousseff na sucessão que o deixou na mão, mas evitou o pior (a seu ver), que seria deixar ao PT a indicação do candidato. A sombra de José Dirceu acompanha, desde sempre, os passos de Lula. E, com o terceiro mandato fora de alcance, fez reserva de mercado: a candidatura Dilma para apenas um mandato. Seria dele, aos próprios olhos, a oportunidade seguinte. E se reservou a privilegiada posição de primeiro ministro sem pasta, e sem parlamentarismo, para se ocupar do mandato de Dilma Rolusseff. Não era outro Lula, mas o mesmo. Mesmíssimo.

Além de compartilhar , com espalhafato e falta de pudor, o mandato alheio, Lula exerceu censura política sobre os passos e palavras da sucessora. Deixou claro quem orientaria o exercício do mandato emprestado: fez questão de ser titular oculto, e que não houvesse dúvida. Se houve, foi silenciosa. E, por controle remoto, cuidou antecipada e displicentemente da sucessão a seu favor. Funcionou. Não houve protesto nem denúncia. A oposição boca-de-sirí não opinou. 

A social-democracia está em baixa nas bolsas. É universal. O prazo alongado pareceu a Lula suficiente para semear problemas de solução complexa. Coalizão foi a receita que o diabo deixou ao seu alcance, entre uma sucessão e outra. Baixou a quase zero o teor oposicionista fora do governo. Dentro, não. Ficou implícita a dualidade de candidaturas no mesmo espaço. Lula dançou com Dilma o Pas de deux. A oposição propriamente dita se desarticulou. (E, se não evaporou, foi porque o próprio Lula a prestigiou algumas vezes, pelo inigualável prazer de ser desagradável). 

A primeira curva, também chamada de conseqüência, veio a ser a derrapagem da presidente Dilma, que as pesquisas de opinião haviam aplaudido  depois da primeira vassourada que lhe abriu a porta ao sucesso  e deixou  mal o antecessor. Lula sentiu que o segundo mandato de Dilma  atropelaria fatalmente seu terceiro. A classe média é seduzida pela moralidade pública e se farta de indignação com escândalos sem fim. Não deu outra. Lula comprovou que um mandato não é suficiente para dois candidatos. Começou então a tecer a mortalha para um  enterro de primeira reservado à concorrente que arrastava a tiracolo.  

Antes que a reeleição de Dilma se impusesse por força das circunstâncias, e com peso específico da classe média, considerando que o segundo mandato passou a ser direito adquirido pelo primeiro, Lula a empurrou para a campanha. Não pediu licença. Nunca se viu igual. Dilma ficou elétrica, entrou em ação e passou a cuidar do futuro. Lula, ao purgatório. Foi um golpe de surpresa. Nenhuma outra tendência política enganchada no poder avançou o sinal. Ela e Lula abriram a temporada.

 Um ano e tanto, quase dois, como candidata exposta ao sol e à chuva, mas fazendo tricô burocrático, deixou a presidente Dilma Roussseff exposta aos desgastes e insucessos administrativos que batem à sua porta todos os dias. As más notícias povoam o dia-a-dia da presidente. De um lado, o moralismo em expansão na classe média e, de outro, a coalizão por baixo da retórica, num quadro ambicioso de 40 partidos à frente (sem falar dos interesses) sedentos e famintos de poder.

Desde então a presidente se esfalfa entre o protocolo de governar e a reeleição, com o cuidado de deixar em banho maria o terceiro mandato de Lula, que não vai, não haja dúvida, esperar para servi-la de  mais uma rodada de poder. Espichou a turnê à espera de que as candidaturas se ofereçam e a sucessão ocupe o espaço preenchido pelas preocupações oficiais crescentes com o desempenho econômico. O tempo é farto.

 Na certeza  de que, ao fim de tudo, nada teria para entregar – obras  já foram inauguradas antes de estarem prontas _  a presidente Dilma já não quis surfar na moralidade publica, que é o esporte cívico da classe média. Lula cortou-lhe as asas e, em nome da coalizão, um compromisso de honra (salvo seja) a obrigou a baixar o nível de exigência moral num país desigual até nesse aspecto secundário ( claro, para quem detém o poder). Recompensou com a volta ao governo os suspeitos por ela mesma demitidos. Gentileza pré-eleitoral.

A presidente esfalfa-se em viagens, o ex presidente faz a volta por fora e os  demais pretendentes à mão da República aproveitam para aparecer na tela. As conseqüências também se sentem em casa. A quem poderia (senão ao próprio ex presidente)  interessar a antecipação de disputas que, mesmo dentro dos prazos legais, geram turbulências ocultas e balançam o coreto? 

A hipótese de derrota nas urnas faria do PT um formigueiro e a candidatura Luiz Inácio Lula da Silva enfunaria as velas. É a sombra dele, Lula, que retém as candidaturas concorrentes em seus respectivos nichos. Na hora certa – e o relógio de Lula é de uma exatidão adequada ao atraso político proporcionado pela coalizão – ele entrará em cena. Sem surpresa nem grandes emoções porque o terceiro mandato passará a primeiro de mais dois ao seu dispor.