Quarteto de hipóteses (ou concerto de fantasia)

Bem fez a ex-senadora Marina Silva, que não quis chegar atrasada nem perder tempo na sucessão presidencial, depois que Lula se incumbiu da regência oculta de um improvisado quarteto de cordas. Tudo sem deixar a função de adjunto presidencial de Dilma Rousseff, com que contemplou — com simpatia e ironia —  seu antecessor no Planalto. Não se sabe o que acontecerá à presidente Dilma no sinuoso percurso até as urnas ano que vem. Por enquanto, todos somados, formam o quarteto de hipóteses presidenciáveis o governador de Pernambuco, o ex-governador de Minas e a ex-senadora.  Mas, candidato mesmo, para valer e prevalecer, apenas Luiz Inácio Lula da Silva. Se houver dúvida, faça-se pesquisa de opinião pública, e a eleição será o óbvio.

A senadora Marina, considerando que eleição não se antecipa em vão, não quis esperar mais e cuida da moldura da sua candidatura. Preferiu fazer uma rede e correr o risco de ouvir o próprio Lula  recomendar cuidado porque, como se diz no varejo, “caiu na rede, é peixe”. Pelo menos, era. Lula pratica o arrastão de liberais que se assustam com o esquerdismo meramente sindical com que se fez e se refaz.

Lula é candidato nato à procura de eleições. A futura sucessão presidencial foi por ele trazida para o presente por ter emprestado o mandato a Dilma Rousseff. Historicamente falando, a vez caberia, por gravidade palaciana, a José Dirceu de Oliveira, se não tivesse sido atropelado pelas consequências. Quis a História que Dirceu fosse descartado pelo mensalão e, em proveito de Lula, que a candidatura Dilma Rousseff surpreendesse pela originalidade. Mulher com currículo de esquerda foi ponto certo. Golpe de surpresa. E surpreendeu  com a disposição ética com que se apresentou ao limpar a fachada do governo. Durou pouco.

A economia rateou, e Lula percebeu que recairiam sobre ele as consequências de um governo Dilma trincado nos resultados. As nuvens se acumularam. Aos primeiros sinais de mau tempo na economia, o ex-presidente e atualmente adjunto empurrou a presidente para a campanha eleitoral, com  chuva ou com sol. Mais do que a sucessão propriamente dita, o que se passa à margem dos fatos é farsa.

A sucessão derrapou até agora no vácuo político, mas tanto fez que o motor pegou no tranco e Dilma Roussef foi empurrada por Lula, que fez que ia mas não foi. Dilma foi, mas ao jeito dela e, por educação, para retribuir à gentileza do adjunto, e assumiu desajeitadamente a candidatura à reeleição, que se tornou o anexo do nosso presidencialismo de estimação. Até prova em contrário, a candidatura Dilma Rousseff não passa de gentileza para preservar a candidatura de Lula (implícita na própria eleição dela).

Governantes não gostam de ser enganados, e nisso Lula tem demonstrado  talento destituído de ética. É suficiente o que se vê e se esquece como se fosse descuido. Estão aí, para quem quiser ver, as biografias insepultas sacrificadas pelo mensalão e o equivoco fatal de achar que o tempo dá conta de tudo.

Assim que a tempestade desabou, ao peso do mensalão, na metade do primeiro mandato de Lula, José Dirceu de Oliveira foi sacrificado pelo silêncio presidencial e demitido farisaicamente da Casa Civil —  sem consideração política —  para aliviar a barra e aplacar a ira da opinião pública. Dirceu não era o único, mas o credenciado pela confiança petista para suceder a  Lula nos vinte anos ininterruptos  de  poder previstos para o petismo.

Como diria no seu tempo Benedito Valadares, o que movia Lula  era o sintoma indisfarçável da mania nacional de bancar Tiradentes com o pescoço dos outros. Com a candidatura Dilma, Lula surpreendeu o PT e frustrou a pressão em favor da candidatura de Dirceu. O fato é que a hipótese  Dilma Rousseff, se tiver efeito político suficiente nas pesquisas, pode atravessar o caminho do adjunto de presidente e levá-lo de volta ao insucesso. A antecipação da campanha eleitoral tem várias impressões digitais.   

Mesmo assim, o adjunto eleitoral de Dilma Rousseff deve estar convencido de que, no pedregoso solo da sucessão presidencial, o futuro imediato não oferece garantia de continuidade. Nada impede que a história venha a ser contada de outra maneira. Até lá, Lula está se poupando do bombardeio que o espera. Nem a dívida de gratidão com José Dirceu poderá ser utilizada como recurso final, pois a condenação de seu ex-ministro da Casa Civil não o livrou  de uma dívida sufocante junto à História. Desenha-se o final punitivo, pois Lula não gosta de pagar o bem com o bem: ficou devendo a reparação a Dirceu quando o demitiu e, quando podia trazê-lo de volta à Casa Civil, como reparação política, tratou  foi de mantê-lo longe do poder. Só se livrou, porém, de ser o patrono oculto do mensalão, com a esfarrapada desculpa de se proclamar o último a saber dos fatos. E das consequências a longo prazo.

Pelo lado de dentro do poder,  não há outro roteiro para a sucessão presidencial senão esse método furado, de dar a largada sem sair do lugar. Este começo limitado a empurrar a candidatura presidencial à reeleição será página virada assim que se apresentar um bom fato. A candidatura de Lula está posta e conta com ele, que conta com ela. A conferir.