Premissa falsa e conclusão à vista

Entrou em circulação, sem ao menos disfarçar a falta de originalidade e a aparência grosseira do conteúdo, uma frase que soa como moeda falsa e tem impressões digitais que levam o raciocínio de volta ao mais interessado dos pretendentes à eleição de 2014: “se houver crise” e o moedeiro falso emergir como “polo por consenso” , “aí ele se dispõe a ser candidato”. Ele, Luiz Inácio da Silva, Lula para todos os efeitos. Os manipuladores da candidatura estão sem rumo.

Para fazer confusão e garfar a oportunidade de Dilma Rousseff se reeleger, o lulismo de gabinete espreita uma farsa com segunda intenção. O golpe é elementar: sacrificar a candidatura da presidente e favorecer a pretensão de Lula, a um custo menor do que marcar passo num desgaste enfadonho ao longo do ano. Um susto na opinião. A última vez em que ocorreu tentativa parecida, na metade dos anos 50 do século passado, o tiro saiu pela culatra: o golpe no golpe. JK se elegeu e legou uma senhora lição aos golpistas da época. Qualquer semelhança não será mera coincidência.

Trata-se, sem cerimônia, da candidatura de Lula, cada dia mais remota, que ele próprio esculpiu para 2014 e se asfixia todo dia  por falta de oxigênio. Acontece que ele continua o mesmo, mas a opinião pública, não. Entre soprar e esvaziar candidaturas alheias e ser eleito, abriu-se um espaço do qual Lula não se deu conta exata. Nem prestou contas das lambanças que continua a patrocinar. A oportunidade presidencial no ano que vem será bola dividida, e não apenas com a presidente Dilma. Há sinais por toda parte e, entre indícios preciosos para a democracia, além da reeleição da presidente, novos nomes cruzam o espaço político nacional.  

Se a candidatura Lula depende de consenso conspiratório, depois  que o esquema se tornou público, pode bater à porta de outro eleitorado.  O silêncio do ex-presidente não é capaz de convencer, seja quem for, de que a democracia precisa dele, depois de toda a falta de consideração praticada sem ao menos o cuidado de enfeitar o esquema primário.

Enfim, com Lula, a crise se reservou para mais adiante, sob a forma de consequências. E, por intermédio de terceiros, o canastrão inverte a ordem dos fatores sem saber como evitar a armadilha: fomenta uma falsa crise republicana para esconder o que não poderia explicar na campanha presidencial, que já não lhe reserva  o papel principal. O ex-presidente enrolou-se em arame farpado. Não há escândalo em apuração sem sua impressão digital. A repetição dos mantras “não sabia” , “nada viu”, “não tem prova” cansou o ouvinte e exasperou o eleitor. Na hora de falar na primeira pessoa, Lula esquiva-se à responsabilidade de dizer a verdade, pelas razões de cada um dos três macaquinhos: um não vê, outro não ouve e o terceiro não fala. Lula assume os três micos.

A fatia do eleitorado com que a democracia conta no Brasil é a classe média propriamente dita, sem precisar das parcelas recém-oficializadas na periferia da sociedade,  com a qual Lula se engana e engana o petismo. A classe média que conta e tem peso crescente na vida nacional é, com uma boa distância à frente, aquela parcela que  aprendeu a ouvir com mais atenção,  a entender melhor, e já se vacinou contra o conto do vigário,  invariavelmente no interesse de  gente que faz (ou tem a ver com) política.

“Se houver crise”  não passa de chantagem com que áulicos bem instalados anunciam um produto sem assumir a responsabilidade, e sem habilitação para remover dificuldades. Lula ficou para trás mas, para reaver facilidades, falta-lhe a confiança da classe média propriamente dita, à qual opunha anacrônicos preconceitos do século 19,  e se dispensa de explicações depois de tudo que se passou no século 20.

O bando de Lula se recusa a entender que coube à classe média a função de sustentar o consumo como motor do crescimento e se beneficiar, politicamente, do privilégio histórico que a expandiu socialmente. E, de quebra,  já passou a dar peso estabilizador à democracia representativa. O resultado virá a seu tempo.

A hipótese da candidatura  Lula para o ano que vem se torna cada dia mais difícil de ser encaminhada no pântano em que se atolam os que dependem de crise para sobreviver. No apelo ao último recurso, os neogolpistas não fazem mais do que turvar o sentimento de legalidade em franca expansão no amplo  espaço social onde a internet introduz novos padrões políticos e éticos.

Os tempos que se anunciam se confirmam afinados com padrões de que sempre se ouviu falar, mas nunca foram praticados. A oportunidade se mostra, mais do que nunca,  favorável à democracia e desfavorável às tentações reacionárias que enferrujam noções equivocadas a respeito do que seja considerado  esquerda, onde quer que se apresente (com todo o respeito à democracia).

Lula faz-se de empresário de uma suposta crise,  fácil de simular mas difícil de sustentar, pois começa (mas não acaba) na cabeça do próprio paciente, que não se cura de uma candidatura sem cura. A distância a que a insensatez o deixa é cada vez mais desconfortável em relação à candidatura Dilma Rousseff, que não passa de reparação pelo curto mandato de quatro anos do primeiro. A dele é megalomania mesmo.

O governo Dilma nem precisou fazer mais do que contemporizar, para ganhar tempo, em relação à moralidade pública reivindicada pela classe média — a de sempre, acrescida da parcela em processo de inclusão — cuja vantagem é não precisar errar duas vezes para saber com quem estava tratando. Fica implícito.