Oscar, no mundo e no século

Duas ideias se associam, espontâneas, quando pensamos em Oscar Niemeyer: a da alegria e a da infância. Nem todas as crianças são felizes e, por isso mesmo, o adulto, quando pode, recupera o tempo de menino, mesmo que se veja obrigado a recriá-lo, livrando-o das tristezas e revivendo as horas felizes, ainda que escassas. Oscar foi, acima de tudo, um artista, que sabia desenhar. Ao ver o que veio de sua obra, poderíamos repetir — e com mais razão — o verso de Vicente Aleixandre, sobre Pablo Picasso: o mundo era uma linha na mão do menino.

A linha, na mão de Oscar, não foi habitar apenas a tela ou a cartolina: saiu de seus dedos para, através da arquitetura, levantar igrejas e palácios, universidades e capelas. Muito do mundo saiu de sua mão de gênio.

Oscar sempre foi o menino que amava contestar o mundo feito pelas normas, ou seja, pelos esquadros. Por isso mesmo, amolgou o ângulo reto, para voltar à verdade da curva. A inspiração, revelada, do corpo feminino para a sua ousadia em concreto, parece ter sido uma travessura de adolescente, e talvez tenha sido como ele costumava dizer.

Alguns de seus melhores amigos foram também moleques, naquele sentido lúdico do vocábulo. E entre todos os que já se foram, o mais próximo na visão menina da vida, foi Darcy Ribeiro. Foram moleques os dois, pela vida afora, e muitos daquela geração brilhante — e honrada pelo patriotismo e pela solidariedade.

E já que lembramos o espanhol Aleixandre, podemos recordar, também, a norte-americana Gertrud Stein, que considerava a alegria a coisa mais séria da vida. Porque eram meninos e porque eram alegres, Darcy e Oscar, Vinícius e Tom Jobim, entre outros de nossos anos dourados, foram homens sérios.

Tememos a morte, porque a desconhecemos. Oscar ludibriou a morte, até a bela idade a que chegou, por amar intensamente a vida. Ele parecia com ela negociar, sempre aceitando um novo trabalho, na certeza de que lhe seria concedido o tempo de cumprir seu compromisso, de concluir o seu projeto. Em seus últimos dias, revivendo a juventude leve e livre, pediu a Vera, sua mulher, que conseguisse alguns pastéis. Isso me fez lembrar o que ele me disse certa vez:  não conhecia iguaria melhor do que pastéis fritos, quentinhos, engordurados e quase torrados, e ainda mais saborosos se combinados com chope gelado.

Oscar e Darcy foram companheiros na trilha da utopia, esse caminho sem fim, mas no qual o destino que conta se alcança em cada passo. Um dia Oscar foi visitar Darcy Ribeiro em seu gabinete no Senado. Como o seu companheiro de travessuras não estava, fez, na parede branca, um belíssimo desenho. Era o recado que ali deixava para o amigo. O senador Francisco Dornelles, ao ocupar o mesmo gabinete, fez questão de manter  o  afresco em sua parede.

Oscar, em seus 105 anos, morreu menino.