A estabilidade americana 

Há mais de duzentos anos que o rito se repete, com as eleições presidenciais norte-americanas. O país passou, ao longo da História, por crises pesadas. Enfrentou a corrupção política, que, de uma ou outra forma, permanece até hoje, entrou em guerras de conquista, ganhando algumas e perdendo muitas, foi ameaçado de ser dividido em dois, mas, em nenhum momento, interrompeu sua normalidade constitucional.

Nestas semanas, o povo norte-americano vive a campanha eleitoral. Embora muitos, fora do país — e este é o nosso caso — torçam pelos democratas, é bom o ceticismo. Republicanos e democratas têm suas divergências internas, o que é inerente ao sistema republicano, mas, quando se trata da política internacional, não há entre eles conflitos maiores. Sobre as ideias conservadoras ou liberais (de acordo com a semântica política anglo-americana) prevalece o nacionalismo. Sendo um país de estrangeiros, é natural que ali se exacerbe o patriotismo.

São várias as razões para que a pátria que se adota seja mais venerada do que a que se deixa. É a terra da promissão, que oferece asilo e destino. No caso dos Estados Unidos, com seu desenvolvimento econômico, que oferecia oportunidade de afirmação pessoal e conforto, mediante os empregos bem remunerados, tudo se fazia resumir no “sonho americano”. É certo que essa possibilidade de ascensão era, em grande parte, fictícia, mediante a literatura e o cinema — mas havia, no fundo, muito de real.  

Para os estrangeiros, portanto — e particularmente para nós, latino-americanos — pouco importa quem governe o país, porque ele sempre estará submetido ao complexo industrial-militar, formado depois da Segunda Guerra Mundial e denunciado pelo general Eisenhower, ao deixar a Presidência.

Há, é claro, algumas nuances. Os republicanos são mais grosseiros, e os democratas, herdeiros da aristocracia bostoniana, mais sutis. Uns mais, outros menos, no entanto, nos veem do alto, como se, obedecendo à representação cartográfica, o Norte estivesse acima e o Sul na parte inferior do planeta. No Universo, como se sabe, não há acima nem abaixo.

Reconheçamos, no entanto, uma vantagem histórica da República norte-americana sobre os nossos sistemas políticos: ali, as instituições são fortes. Sendo assim, os líderes não necessitam, nenhum deles, de ter o carisma, a inteligência e a coragem de homens como Washington, Jefferson, Jackson, Lincoln, Cleveland, Wilson e Franklin Roosevelt. Outra é a nossa formação, que sempre dependeu mais dos chefes e caudilhos, por falta de instituições sólidas. Os governantes sempre mudaram as nossas instituições e impuseram, para o bem e para o mal, alterações constitucionais que impediram a continuidade política e administrativa do país.

Outra vantagem — que Lord Acton considerava a viga principal da estabilidade republicana — é a autonomia federativa. O pensador inglês a expunha em termos de Realpolitik: nenhum presidente dos Estados Unidos se atreve a ensaios ditatoriais, embora Bush tenha chegado bem perto disso, porque os governadores podem unir-se em defesa de suas prerrogativas constitucionais e neutralizá-lo facilmente.

Um Congresso poderoso, que exerce a sua iniciativa de legislar e de impor a fiel execução do orçamento que elabora, em nome do povo; uma administração sob a total responsabilidade do presidente e de seus ministros, e a independência da Suprema Corte, asseguram essa notável continuidade.

Raramente nos damos conta de que, nos estados democráticos, o Parlamento é independente do governo: ele é a representação direta do povo, para legislar e fiscalizar a ação do governo. A Constituição dos Estados Unidos parte desse princípio — e nisso está uma das bases de sua estabilidade.

Esse reconhecimento das estruturas institucionais dos Estados Unidos não os redime dos crimes que têm cometido contra a Humanidade, nem da crescente desigualdade social entre os seus próprios cidadãos, em favor do grande capital.