Emancipação sem adaptação: a vez dos perdedores! 

O julgamento do mensalão (agora que os advogados censores do PT querem impedir a palavra, ela passa a ser a única que merece menção) vem despertando paixões e discussões. Talvez o mais importante esteja sendo a oportunidade para discutir a desigualdade dos cidadãos perante a lei. A opinião pública não espera que o embate principal deste julgamento fique entre técnica jurídica e discursos empolados. O verdadeiro jogo está sendo jogado nos vestiários, entre uma documentadíssima e consistente ação cívica versus um novo triunfo da onipotência do Estado contra seus cidadãos.

Adivinhem quem tem mais força. Numa cultura de ganhadores, leva quem tem mais cacife enquanto a igualdade morre todos os dias no documento constitucional. Mesmo assim, às vezes, vale a pena apostar no azarão e apreciar como os fracos podem surpreender. Os políticos, cúmplices e funcionários do Estado estão acima da população. O fenômeno é mundial e nada novo: não somos iguais. Era exatamente a lógica dos fundadores das Olimpíadas. Na velha Grécia de 2.500 anos atrás, a democracia não só previa como considerava imprescindível a lógica escravocrata. Para entender, talvez tenhamos que retroceder à época em que a espécie humana engatinhava.

Para Darwin, a travessia histórica da evolução das espécies culminava em sistemas progressivos de adaptação. Os mais adaptados sobrevivem e triunfam para procriar e prevalecer sobre os demais. Os outros... bem, os outros são os outros, quem mandou não seguir a cartilha? Dois séculos depois, para além dos estereótipos, achados científicos mostraram que, do ponto de vista biológico, as espécies continuam evoluindo. Finalmente, chegamos à nossa contemporaneidade atípica, em que a pergunta muda de direção: o que significa evolução para além da biologia?

Ficamos impressionados pela força, velocidade, e agilidade e respectivos records e medalhas, enaltecidos por locutores dos feitos olímpicos. A luta do atleta contra seus próprios limites faz do ouro a devida recompensa. Daí virá pódio, hino, superação triunfal, glória e os contratos de publicidade. Nesta lógica, a cultura do vencedor representa no mundo prático a bandeira da evolução. A atmosfera pop que ora nos governa pensa poder esnobar a cultura e escarnecer da opinião pública, assim como o político sem méritos se imagina o marco zero da nação. Mais comum que seja, só o zero. Como nada é linear, se houve um ganhador é porque muitos, necessariamente, perderam.

Ter isso em mente é amadurecer. O que está em jogo hoje é uma espécie de repetição do momento histórico de eclosão da contracultura. Ali uma geração atormentada diante da mesmice dos modelos políticos, guerras e desesperança, resolveu virar a mesa e criar um frontpacifista e antiestablishment. O novo apareceu, e os hippies se inscreveram na história. Não só os valores eram contestados mas a vida, ela mesma, se voltava para existir fora dos cânones estipulados na mídia, pelos políticos e a moral da época. Hoje vivemos condições análogas àquelas dos anos 60, a mesma desesperança, o mesmo ceticismo, a mesma dualidade estúpida entre ideologias envelhecidas. Tudo agravado pela crise financeira mundial e o embrutecimento dos valores éticos.   

Há uma aspiração de retomada das tradições espirituais — precocemente descartadas pelos esclarecimentos científicos  —  assim como uma sensação generalizada de que algo precisa mudar se quisermos uma versão melhorada deste mundo. Nada de polir o discurso introduzindo a frase mágica “em nome das próximas gerações”. Tudo é para nós mesmos, aqui e agora. Chegou a hora de chocar, radicalizar para assumir certa marginalidade, de preferência que nos faça redescobrir a honra da dissonância, da oposição e da discórdia. 

Sem estabelecer essa urgência, a inércia vencerá a necessidade, e, mais uma vez, o conformismo será a desculpa para a mesmice que nos assola.  Talvez devamos começar desobedecendo a critérios de vitória aos quais fomos condenados e que, sob a batuta da educação formal, virou doutrinação social. Como o sentido da vitória se esgota, chegou a vez dos perdedores. Muito provavelmente, teremos que redescobrir sozinhos o valor das tradições às quais pertencemos e reafirmar que não só há valor na derrota e na depressão nossa de cada dia como elas são as maiores responsáveis pelo amadurecimento que nos fará gritar o “não” e desadaptar-se.

Emancipação é se insurgir contra os destinos previamente traçados por outros, em nosso nome.  Por isso mesmo, para uma filosofia libertadora só há um sentido, obrigatório, o da contramão.