Desobstrução da democracia 

De tudo se cogitou, menos do que sobrou para Luiz Inácio Lula da Silva, voltado para o terceiro mandato e sem condições de  se escafeder —  moralmente, bem entendido  —  da questão central do mensalão. O ex-presidente não perde de vista a oportunidade de voltar em 2014, nem se descuida da carga sobrenatural reservada ao julgamento do mensalão no mês de agosto. Não há qualquer relação, nem insinuação, entre o problema ético em destaque e o mês sobrecarregado de episódios que, passados sete anos de PT e Brasil, se aproximam  da solução final numa equação política de múltiplas incógnitas. Qual seja, o desencontro entre a democracia e a cidadania, desde os primeiros tempos da República, no final do século 19.

O Brasil paira  acima do saldo negativo que o passado acumulou e vai se situar também acima do julgamento que, queiram ou não os personagens da peça, não deixará de ser político. Nem que a vaca tussa. E, como vaca não tosse, o que for possível terá o desenho de ornamento democrático e ajudará o Brasil a se localizar a  uma distância, pelo menos razoável, da impunidade que o ronda. Agosto tem fama, que vem de longe,  de cultivar dificuldades, mas com cuidado para não reforçar o viés negativo com que costura a vida política. Para encurtar o tempo que ainda faltava para a proclamação da independência nacional, o príncipe regente dom Pedro de Orleans e Bragança declarou, no dia primeiro de agosto de 1822, que trataria como inimiga qualquer tropa de origem portuguesa que desembarcasse por aqui naquela oportunidade. Não precisou. Nenhuma tropa militar estava a caminho e, depois do versão,  Pedro tocou para a frente a história  (que se escreveria, logo depois, com inicial maiúscula) do Brasil, rumo ao 7 de Setembro. Começou bem aquele agosto. Falta um nome apropriado ao que se entendeu provisoriamente  por mensalão. O ex-presidente Lula, em entrevista que, dependendo das consequências, pode vir a ser histórica, foi taxativo ao dizer ao Estadão, edição do dia 25 de agosto de 2007, sobre  o que ficou do projeto de 20 anos de governo ininterrupto:

“Ficou o seguinte: quem erra paga. Eu acho (o ex-presidente sempre acha alguma coisa) que quem errar pagará pelo erro que cometeu”. Foi o começo da contagem regressiva que continua em curso.

— Tem gente que acha que isso é um trauma —  observou Lula na entrevista de 4 páginas no Estadão — mas, para mim, não. Para mim é um canal de desobstrução da democracia brasileira.

A opinião do ex-presidente não teve a repercussão que merecia, mas Dilma Rousseff  ainda pode  incluir no PAC, como investimento, a desobstrução proposta pelo seu antecessor para a democracia se livrar das tentações que rondam o petismo e não deixam Lula esquecer que já disse e repetiu que deve sua ascensão política à liberdade de imprensa. E não aos veículos que são responsáveis pelo que publicam e a que respondem legalmente. A liberdade de informar e avaliar não é favor a ser pago ou retribuído.

Perguntado  sobre José Dirceu, o então presidente se mandou pela janela, simbolicamente, àquela altura,  da questão política que se encaminhava para as proporções que tomou.

— Quem o traiu? — Quis saber o repórter do Estadão, que ficou sem resposta. 

Outra pergunta preencheu o silêncio presidencial:

— O senhor teve indícios da existência do mensalão?

— Não. Não. Eu quero  ver o resultado do julgamento.

E arrematou: “Eu acho determinadas coisas abomináveis”.

Por último, Lula retirou do bolso a sovada ideia da reforma política, que de tão desgastada ninguém mais escreve com iniciais  maiúsculas, e mandou:

— Reforma política mediante Constituinte exclusiva, porque (no seu modo  de entender)  não dá para fazer reforma constitucional “com as mesmas pessoas  que estão lá” na condição de deputados e senadores.

Vendeu o peixe que não será entregue  enquanto o país voltar a ser como tem sido.Enquanto vai e vem, já sem disposição oral  suficiente para desobstruir a vida democrática. E saiu pela tangente, sem agradecer à geometria a facilidade, ao se referir a José Dirceu, que chefiava seu Gabinete Civil e a quem demitiu sem fazer cerimônia.

À indagação sobre quem saiu do governo por força das circunstâncias, Lula não respondeu. O que não deixa de ser uma forma de admitir sem se comprometer. Foi curto  a respeito do impacto da demissão de Dirceu no governo:

— Não. Só teve impacto para ele. No governo, nenhum.