Vale tudo, torcer e arbitrar 

Em carreira meteórica o vale-tudo se transformou no esporte mais popular no mundo. Dizem que superará o futebol. Sem julgamentos e longe das prospecções morais cabíveis, o vale-tudo é um perfeito símbolo dos nossos tempos. Mas o vale-tudo, que mudou de nome, se espalhou por toda a parte. O símbolo do vale-tudo é que as regras hoje favorecem o predador, quem cria o fato, o mais rico ou os milhões de “você sabe com quem está falando?”. Nesta nova versão da lei do mais forte, isso equivale a dar passagem para quem dá mais porrada, quem tem o joelho mais pontiagudo e quem se adaptou melhor ao Coliseu das competições.  A competição, dizem, tem sido o combustível do progresso. Nos jogos temos que escolher um lado e, para escolhê-lo, temos que torcer. Pouco importa que seja Fla-Flu, Gre-Nal Cor-San, Olimpíadas, megassena ou a novela das oito, o fato é que todo mundo torce por alguma coisa.

Ouviu-se dizer que Dilma torce para que os acusados da “ação penal 470” sejam absolvidos. O PT torce para que seus candidatos não saiam prejudicados, já que o projeto original continua. Isso já com a sociedade “avisada” de que, se o julgamento for “político”, a Central Sindical paralisará o país. Os réus, incluindo o acusado de ser comentor do esquema, torcem para que seus nomes pulem de réus para o hall dos mártires injustiçados. Os intelectuais de partido torcem para que tudo passe rápido a fim de que ninguém mais lhes cobre o silêncio indevido. Os marquetólogos torcem pela grande borracha na mídia (já que a mordaça desta vez não colou). Os jornais sensacionalistas torcem por furos que escapem dos autos do processo, enquanto os advogados de defesa por brechas jurídicas e meios de desqualificar os consistentes relatórios do procurador-geral. Os promotores torcem para que eles não as enxerguem. O homem comum torce para que se dê um basta no assunto, de preferência com alguma consequência que ele possa entender (80% das pessoas desconhecem o significado do mensalão).

A oposição encurralada torce para que o processo não respingue sobre suas hostes. A imprensa paga pelo Estado pode se dar ao luxo de torcer discretamente enquanto, bem alimentada, cuida da guerra de dossiês. Os partidos nanicos torcem por sobras: com mais pressão da mídia,  barganhas são trunfo extra nas negociações do horário eleitoral. O PMDB torce para ser esquecido e assim permanecer o mesmo: indefenestrável dreno no pescoço do Estado. Os juízes torcem para que suas análises técnicas não sejam deturpadas. Para os apaixonados por causas, não há mesmo muita saída. No julgamento mais relevante da história republicana qualquer condenação será tomada como golpismo conservador, toda absolvição, obrigação histórica. Para nossa sorte a opinião publica brasileira é muito mais complexa do que as previsões do poder.  

Como se vê estamos todos enrolados em bandeiras, especialmente naquelas que não conseguimos enxergar. Pois esse é o ponto mais perigoso na estrada da democracia. Quando um árbitro julga, ele não deve ser parte interessada, e a isso convencionou-se chamar de ”conflito de interesses”. Pois, rapidamente, um dos ministros superou o drama de consciência, tomou partido e escolheu arbitrar. O problema, nesse caso, não está em como julgará, mas o equilíbrio de sua avaliação. O autojulgamento requer um prumo milimétrico, instrumento para poucos, na balança entre legalidade e moralidade, lealdade e dever. A divisão é sutil, o impacto gigantesco. Agora é tarde, mas a análise deveria começar lá atrás, quando o problema foi gerado, numa legislação equívoca, que prevê indicação de Juízes a partir dos lobbies e interesses do Executivo.

Na cadeira magistral, especialmente instalada bem longe dali, repousa incólume  a cabeça mãe de todos os estratagemas adotados. Ela é a única que não torce, porque para torcer seria necessário qualquer dúvida da vitória. E ela pensa que já ganhou. Está mais do que certa que fez o que precisava fazer, e que é assim que se governa (daí o pavor que a liberdade tem dos homens de convicção). Estas certezas provêm da crença em sua estrela, afinal seria muito improvável que alguém que comandou a deixasse cair. Esta cabeça não torce pela verdade, ela seria insuportável. Sem os dogmas, a verdade desabaria sob o peso de  sua comprometida coroa. Ainda que  muitos ali sejam réus confessos, ninguém tem autoridade suficiente para lançar a primeira pedra, mesmo que pareçam muito distantes do arrependimento. Os críticos e gente onde a palavra ética ainda tem valor prático torcem por punições, os pragmáticos pela repatriação do dinheiro público desviado do Banco do Brasil. Aqueles que amam a República e a liberdade acima das causas torcem pela pedagogia simbólica das eventuais penalidades, para ultrapassar o castigo e alcançar a reeducação. Vale dizer, afastá-los de vez da coisa pública. Mesmo que a justiça tarde, cabe enxergar o mérito antecipado e a inconteste vitória de toda sociedade nesse julgamento. Isso, mesmo que os cabeças saiam da sala do STF impunes. Um julgamento desta natureza, inconcebível há alguns anos, é, hoje, notável avanço institucional, conforme reconheceram os editorialistas do The Economist.

O papel das pessoas é facilitar o nascimento nascer do que não é espontâneo ou óbvio numa sociedade. Nem tudo vale, e assim como na indução aplicada num experimento científico, nossa prerrogativa é viabilizar os sentidos para as coisas. A escada é alta, a direção incerta, mas o passo foi dado: um degrau rumo à justiça.