Intelectuais e déspotas 

Não foi um caso isolado da Rio+20. Às cotoveladas, sessenta intelectuais (sempre bom recorrer à etimologia para saber se a atribuição ainda bate com o significado: intelecto - ação de compreender) se apertaram para assistir à explanação do ditador iraniano. Uma possível compreensão, nesse caso legítima, seria que os doutores tivessem ido até lá para saciar a curiosidade frente a um homem deselegante, que já negou o Holocausto, considera mulheres seres de terceira categoria, persegue minorias como Bahai e Sufis e prega a reforma “por bem ou por mal” dos homossexuais. Sem contar os criminosos atos contra os protestos da oposição nas comprovadas fraudes eleitorais que o levaram à reeleição. Eleição é modo de dizer, sufrágio indireto, que só se concretiza com aval do líder supremo.

Ninguém duvida que é sempre interessante ter a oportunidade de ver uma “criminal mind” ao vivo, tudo para tentar entender como funciona a mente onipotente, como raciocina o fanático, a astúcia do mitômano. Mas parece que não é isso que tem levado intelectuais do mundo a aderirem ao pensamento monológico e ao culto dos déspotas que proliferam pelo mundo. Talvez, cansados da anomia e do fracasso crônico das experiências com os projetos sociais pelos quais se batem, só encontrem recompensa naqueles que prometem implantar a justiça plena na Terra. Com o fim das doutrinas e a morte dos heróis, só um ungido pode saciar os intelectuais de nossos tempos.

A perplexidade máxima aflora quando se identificam na plateia  herdeiros de tradições ideológicas consistentes, a maior parte  daquela vertente que um dia convencionou-se chamar de esquerda. A adesão se dá basicamente por uma única afinidade: a postura antiamericana. Ficou fácil conclamar fiéis, bastando para isso desfraldar a bandeira “morte à América”. No caso de professores e gente esclarecida e com tanto currículo na bagagem, que espontaneamente escolheu ir ao encontro, o fato nos deixa à deriva. Melhor dizendo, à lona! O fenômeno transcende a razão, e, como evitamos a parapsicologia, precisamos nos contentar com a velha psicopatologia.  Alguém pode explicar como o carisma agressivo e non-sense entorpeceu tantas cabeças a ponto de asfixiar a região onde se aloja a capacidade critica?   

Pode ser que seja inevitável que chefes de partidos ou figuras do executivo tenham que ciceronear ditadores e gente que, para conquistar o poder, deixou rastro de cadáveres. Costuma-se aturar isso dignamente com a ajuda de autocontrole, respiração iogue e banhos frios. O fenômeno leva o nome de pragmatismo selvagem, o que conduz inevitavelmente a uma espécie de esquizofrenia política. Basta um exemplo: sabe-se que o regime teocrático do Irã apoia abertamente o regime sírio de Assad e sua atual política genocida. Pois, decerto alguns dos bem pensantes que sentaram nas cadeiras da frente assinaram petições, ao menos devem ter pensando nisso, contra o massacre do povo sírio. Pois, é o que a selvageria política faz com as pessoas: produz incoerências seriadas. Ninguém tem compromisso com a coerência nem com a lucidez, mas há uma ambivalência ética que é capaz de dissolver o caráter.

Esta fusão de ideologia tosca com pragmatismo já foi o estuário de desastres políticos importantes em outros continentes. A adesão de extensas camadas da população universitária na Alemanha nazista — o maior apoio vinha dos profissionais liberais com 50% dos médicos alemães dando endosso à ideologia ariana do Fuhrer.  

E não é que persiste a maldição dos “formadores de opinião”? As massas finalmente aderiram, e produziu-se um consenso perto do absoluto, a favor do expansionismo belicista germânico. O mesmo apoio das camadas intelectualmente mais esclarecidas marcou nos primórdios a Revolução Soviética. Até que testemunhando o desvirtuamento e a implantação de um regime tão sanguinário e opressor quanto o de seus antecessores, os intelectuais mais críticos começaram a ser internados em hospitais com o ajuda de um sistema nosológico criado sob  encomenda aos psiquiatras comunistas. Dissidentes começaram a ser diagnosticados como insanos: refusiniks.  Para um regime totalitário, só um doente mental pode recusar o sistema perfeito.

Foi Hanna Arendt quem escreveu que, quando “termina a autoridade, começa o autoritarismo”. Agora que a autoridade natural no Brasil está no início do declínio, já que sua sustentação depende da bonança econômica, e a inadimplência chegou a um patamar perigoso, o desespero já começou: alianças desastradas, chantagens e ameaças institucionais chegando ao destempero com promessas de mordidas. Nossa sorte é que hoje o homem comum no Brasil deixou de ser bobo e já sabe como deve sair de casa: discreto, sem lenço, cheque ou documento e, se possível, com caneleiras à prova de predadores.