Lula e a consequência maior do que a causa

O ex-presidente Lula acredita piamente ter sido dotado de poderes especiais e não faz cerimônia em apelar às  fontes impuras de votos, enquanto desce a ladeira rumo ao terceiro mandato que lhe foge ao alcance. Considerando que a História não providencia a reparação que esperava receber em vida, Luiz Inácio atravessou a última fronteira — que vem a ser o respeito aos cidadãos  —  sem considerar o que sua interferência introduziu na sucessão municipal de São Paulo, com a assinatura conjunta, dele e de Paulo Maluf, como avalistas de Fernando Haddad.  Uma parceria com sotaque árabe, sem  nada a ver com a esquerda.

 Não foi bom sinal o modo estabanado com que Lula deu um  chega pra lá na candidatura Martha Suplicy a prefeita de São Paulo, para abrir espaço ao politicamente desastrado ex-ministro da Educação. A consequência foi pior do que a causa. Como as pesquisas não reconheceram no pretendente a capacidade de elevar além de 3% a intenção dos eleitores de elegê-lo prefeito de São Paulo, o ex-presidente Lula  —  por conta própria e risco alheio  —  não fez cerimônia. Bateu à porta de Paulo Maluf, encolhido politicamente pelas razões que a razão não desconhece, e acertaram um ajuste que parecia bom para ambos: a comunicação do apoio de Maluf  e os votos de seus eleitores seria feita numa visita de Luiz Inácio Lula da Silva  —  com toda pompa e circunstância, como se viu no ato  —  a Paulo Maluf, posto em recesso remunerado em sua casa. Dito e feito.

O imprevisto foi a ocorrência do choque entre a escolha da candidata a vice-prefeito, Luiza Erundina, e, por parte de Lula, a aceitação da exigência de Maluf, para salvar a aparência do que lhe dizia respeito,  de receber em casa a visita do candidato e do seu padrinho. O andaime construído por Lula, com material de procedência duvidosa, não aguentou o peso político do arranjo. Sem mais aquela, num rompante de indignação ética, a companheira de chapa de Haddad retirou sua candidatura e, para marcar posição e limitar o efeito negativo do ato, confirmou sua participação na campanha, mas sem pisar no palanque em que esteja Maluf.

 Não se conhece o efeito da ressalva ética sobre o artífice da confusão, mas pode-se avaliar que não deve ter havido senão pelo avesso. Como de hábito, Lula nem se dignou oferecer suas razões particulares. A própria Erundina enquadrou o episódio da visita, ao lancetar o tumor e garantir que podiam contar com ela na campanha, desde que garantida a completa autonomia crítica em relação a Paulo Maluf. A impressão é que, desta vez, Lula foi longe demais, e não teve como voltar. Moralmente, sem ter o que dizer, ficou devendo. Ela se retirou do  episódio com saldo para olhar nos olhos os eleitores e os adversários. Lula terá de usar óculos escuros para se poupar dos efeitos da claridade.

Duas lições já foram extraídas do episódio: uma, singularíssima, é que Maluf vai para a margem humorística da nossa história menor, por ter sido mais esperto e  embrulhado Lula para consumo dos seus adversários tradicionais. Outra, que permitiu a Erundina voltar ao palco e faturar lição de ética política às custas de quem se acha acima do bem e do mal por considerá-los eleitoralmente supérfluos.

A lição de moral política veio tarde, mas a tempo de mostrar que a democracia pode ser vulnerável mas não está perdida enquanto houver quem se disponha a dizer palavras apropriadas em momentos que merecem ser aproveitados. Não se trata de recuperar aquele Lula que começou lá atrás e já não é o mesmo quando está de saída, empurrado pelas circunstâncias e necessidades que ele deve considerar luxo supérfluo.

Também  se pode medir o efeito histórico dos episódios negativos pelo outro lado. Quem vai capitalizar politicamente o retorno de Paulo Maluf, que fez Lula engolir o que dizia com  sotaque de esquerda e  se ajoelhar em penitência por um punhado de votos, é Luiza Erundina. Uma lição exemplar de moral política. Sem alarde e em  demonstração de respeito ao eleitor, desistiu do convite para ser vice–prefeita de São Paulo, pela questão ética implícita numa candidatura incapaz de manter-se de pé sem o apoio em ombros alheios.