Uma pergunta como resposta

De Nova Deli – onde se refazia dos assuntos nacionais no encontro dos cinco emergentes  reunidos no grupo dos Brics – a presidente Dilma Rousseff rebateu uma pergunta com outra, e revalidou o método de devolver ao repórter, como resposta, o que ele queria saber sem que ela se comprometesse. Valer-se desse recurso deverá, daqui por diante, ser a nota dominante no relacionamento da presidente com a reportagem política, ao menos, enquanto as questões pendentes entre o Executivo e o Congresso Nacional não merecerem  outro tratamento e forem levados a sério pelos meios de comunicação.

A presidente quis deixar claro o que o tom de excitação, para não dizer crise, com que a imprensa se refere às relações entre o governo e sua base de sustentação política, não é mais do que “ajuste permanente”, que os repórteres acham insuficiente. Foi como se, pessoalmente, a presidente tivesse dito – “crise, que crise ?” enquanto esmagasse um inseto. Não esquecer que, a bem da verdade, nem na Índia, Dilma Rousseff   partilhou as restrições que o petismo propõe para o exercício da liberdade de imprensa. Fez jogo de palavras para não responder, e  não ficar mal com a reportagem e nem com os seus.

Digamos que, no Brasil atual, crise política não tem o sentido da palavra com que os gregos voavam alto no pensamento e formulavam definições que não se aplicam à vida política brasileira. Crises políticas, bem entendido, por aqui não se prezam o suficiente para ir mais longe do  que o significado usual das palavras. 

Quando a democracia ainda funciona a meia bomba, depois de dois mandatos de Lula – e, por sua  vez, precedidos dos  dois governos anteriores, ditos e havidos como social-democratas -  não sobrou oposição capaz de dar o recado que ninguém quer entregar. Uma oposição que não se aplica ao que é da sua exclusiva competência (que é o que o governo deixa de fazer, ou faz mal), enquanto o tempo passa e não volta, está condenada ao imprevisto tão logo venha a cair o véu de obras de ficção administrativa. 

Vai-se encolhendo a própria democracia feita com cacos das ditaduras e de constituições de duração temporária. O Brasil ficou maior do que suas crises, que se desvalorizaram politicamente. Quem tem medo de crise? Houve quem considerasse  possível a democracia sobreviver a roubalheiras institucionalizadas, que prosperam sem que os roubados percebam? 

O fato é que não há, nem pode haver,  governo democrático sem oposição que o honre. Não é conceito novo, mas anda negligenciado pela própria oposição, à espera de  situação favorável que pode ter passado e não se disponha a voltar. Foi-se a idéia do golpismo, substituído pelo enriquecimento rápido: dois os três mandatos eletivos obtidos de um eleitorado  que, no mês seguinte à eleição, não mais se lembra em quem votou.  Lula não fez mais do que inibir a oposição, que vinha de um tempo de transição em que o que sobrou de mais duradouro foi a infeliz idéia da reeleição presidencial, reforçada em seu equivoco pela imprudência de abarcar governadores e prefeitos como se fossem indispensáveis. Ficou apenas mais difícil voltar atrás. 

A oposição que nasceu da reeleição (e se vulgarizou a  ponto de não mais ser referida com a inicial maiúscula nos meios de comunicação) desafinou. E os governos de ficção esquerdista não fazem outra  senão  gerir a própria reeleição como direito adquirido, numa rede de interesses menores, de cunho eleitoral, por onde entra dinheiro com o aval da corrupção. O partido que se comprometeu com a reeleição não se reencontrou eleitoralmente e o que ocupou o lugar vazio se instalou, de olho gordo nos benefícios da privatização dos resultados, pouco importa se por fora ou por dentro.

Estamos neste ponto do mapa. A presidente Dilma não vê a crise que pode estar por aí, disfarçada sob outra aparência. A oposição também não. Não há crise. Passou a moda. E não há como conseguir uma com a característica  insofismável,  com causas e conseqüências  que não enganem mais ninguém. E, principalmente,  uma crise que seja  movida pela disposição   de resolvê-la com os recursos que a democracia tem, e com a  disposição de aplicá-los.