A chegada dos haitianos e o  “racismo” contra os pobres 

O Brasil se encontra diante de um problema que pode agravar-se: o da chegada de haitianos ao país, em busca de vida melhor, pelas fronteiras do norte. Por enquanto, seu número  não é muito grande — mas o êxodo,  provocado pela miséria e a fome, só tende a crescer.

É quase certo que a presença brasileira  no Haiti, castigado pelo terremoto, pela exploração secular de seus habitantes e por ditadores, tenha contribuído para a escolha de nosso país como terra de promissão. Apesar de alguns episódios inevitáveis de conflito entre as nossas tropas e alguns haitianos, é natural a empatia entre os dois povos.

Não podemos negar aos haitianos esse asilo que pode ser considerado, além de humanitário, político. A democratização do Haiti não parece ser tão fácil como se imaginava, e a brutal desigualdade entre ricos e pobres é ali mais dramática do que em outros lugares. O Brasil é um país de mestiços, com forte presença negra, e negar-lhes a oportunidade de viver entre nós seria  absurdo inconcebível. Mas é necessário que saibamos exatamente quem está chegando e pedindo a oportunidade de viver entre nós. Não podemos selecionar os recém-chegados pela sua escolaridade e, menos ainda, pela sua origem de classe.  Podemos, sim  —  mediante os nossos representantes em qualquer país, e também no Haiti  —  verificar a ficha policial dos pretendentes, de forma a impedir a chegada de meliantes que também podem ser negros ou mestiços. Ou brancos, como a maioria dos mafiosos que chegam ao nosso país, e esse é o caso de russos e croatas, corsos ou italianos, espanhóis e portugueses, para infestar o nosso litoral com jogo, prostituição e a exploração de menores.

Não é admissível considerar racismo esse cuidado elementar das autoridades como racismo. Uma vez que não haja tais restrições, é de nosso dever solidário dar a melhor acolhida possível aos haitianos. O governo está agindo bem, ao proporcionar alojamento  —  modesto, como é de praxe  —  e alimentação aos haitianos que cruzaram a fronteira no Acre, e é bom que faça o mesmo em outros pontos  de cruzamento de nossas fronteiras. E se identificar, entre eles, indesejáveis, não pode aceitar sua permanência no país. Por isso mesmo, convinha designar o reforço policial nas cidades de fronteira,  e agilizar a seleção dos que devem ser admitidos como refugiados no Brasil. Em seguida, o Sine e outras agências governamentais tratariam de  encaminhá-los aos prováveis empregos. Na própria Amazônia há carência de mão de obra pouco qualificada, como na construção das hidrelétricas. Em todo o país há falta de trabalhadores para a construção civil.

Poderão objetar alguns que temos milhões de brasileiros ainda em condições de vida muito difícil, e a eles deveríamos dar atenção maior. Mas se trata de argumento que os sentimentos mais fortes da gente brasileira, que são os da solidariedade, rejeitam. Temos ainda, graças a Deus, espaço e recursos  suficientes para receber os tangidos por situação crítica de penúria. Os que chegarem devem compreender que, para viver entre nós, é necessário respeitar nossas leis e normas essenciais de convívio.

Temos sido muito negligentes.  No caso dos africanos, entre milhares que aqui desembarcam com suas mãos dispostas ao trabalho, há traficantes de drogas da conexão nigeriana e outros delinquentes; entre os asiáticos há contrabandistas notórios, muitos deles já identificados pelas autoridades. E há também os indesejáveis que chegam com muito dinheiro: os agentes das grandes empresas multinacionais, que adquirem terras na Amazônia, em Mato Grosso, no litoral  —  e ao longo de toda a fronteira  —  mediante a fraude, com a conivência de brasileiros, em invasão tanto mais perniciosa quanto mais dissimulada.

Os haitianos provavelmente serão discriminados aqui e ali. É necessária campanha educativa do governo a fim de protegê-los. A estupidez do racismo e do preconceito contra os diferentes não poupa nem mesmo os próprios brasileiros, negros ou não. São conhecidas as manifestações de ódio contra os pobres e os nordestinos, disseminadas na internet e em atos bárbaros, por grupos de descendentes de europeus, ainda com nostalgia do nazismo e do fascismo, principalmente no Sul.

O mais grave é que desses preconceitos participam autoridades estaduais e municipais. Ainda agora, em São Paulo  —  em lugar de lhes dar tratamento  —  as autoridades estão realizando pogroms na “Cracolândia” e pretendem devolver para suas cidades de origem as vítimas do narcotráfico. Da mesma forma, não só em São Paulo, que é o caso mais notável, em todas as grandes cidades brasileiras os moradores de rua são perseguidos e até mesmo assassinados.

Esses atos de ódio contra o direito à vida encontram, na impunidade, o estímulo a que se disseminem e se transformem em  infecção incontrolável.