Vai ver ali na esquina 

Era costume na primeira metade do século passado alguém interromper a narração de um fato ou versão sem pé  nem cabeça e, sem nada a ver com o que se conversava,  repetir a fórmula de efeito imediato: “Vai ver se eu estou ali na esquina”.  O freguês não ia, mas era como se fosse. Desconversava. Despachado o porta-voz de disparates, o episódio se esvaziava e a roda se desfazia. O recurso teve vida longa, mas saiu de circulação.

De volta ao Brasil, depois do mais longo período desde que a República Velha foi arquivada em 1930, a democracia não teve vida mansa de parte dos que estimam mais as restrições do que os favores da liberdade. Faltava àquela altura o peso da classe média na vida social e no consumo. Depois de duas ditaduras, uma denominada Estado Novo, com duração de oito anos seguidos do intervalo constitucional de 18 anos, ainda haveria mais  vinte anos de poder praticamente absolutos. É dose.

A democracia retomou então a recontagem de um novo período legal, que já deixou para trás o temor de retrocessos políticos  e espera por um levantamento definitivo de resultados e prejuízos de todas elas, ao longo do século 20. O assunto se interrompeu e, se alguém o propuser, corre o risco de ser convidado e ver se a ditadura continua ali na esquina.

Está faltando alguém ocupar espaço e decidir o que fazer com o tempo franqueado à oposição, que não se mostra disposta a reformular a visão política dos insatisfeitos localizados na classe média. Sem oposição que se dê ao respeito, não há democracia. Falta sintonia democrática ao discurso oposicionista e sobra despudor  ao que os políticos vocalizam coletivamente em nome de partidos políticos e no interesse pessoal de cada qual. Ficou definitivamente para trás a época em que, para salvar a aparência, pedia-se ao narrador de lorotas que  fosse ver se ele, o autor do aparte, estava ali na esquina.      

A iniciativa presidencial de recomendar espírito de resistência a figurões e figurinhas ministeriais envolvidos em altas assessorias e estonteantes remunerações não deixou de ser gentileza de que se vale Dilma Rousseff  para demitir ministros. Entende-se como a variante republicana da maneira de pedir a alguém que vá primeiro à esquina verificar se estaria lá. A opinião média não entende, à luz das explicações, o que continua a atordoar a cidadania quando um ministro extrapola do ministério e se recolhe ao anonimato, sem quitar o resto legal e moral  implícito. A presidente Dilma Rousseff tem aptidão e disposição tanto para nomear quanto para demitir, se bem que tenha perdido boas oportunidades de confirmar a vontade de limpar a casa para hospedar a democracia.

A verdade é que, se a presidente não está na esquina, a oposição deveria ocupar o espaço ético pelo qual os governos não se interessam e lhe retiram a prioridade, mesmo quando não passam de simulação.

Toda semana caberia aos vocalistas da oposição estilo “vai ver se estou ali na esquina” subirem à tribuna, na Câmara e no Senado, e, diante do plenário vazio de homens e de ideias, convidar o pessoal de plantão oficial a ver se a presidente está ali na esquina. Mesmo que a oposição suscitasse questão de outra ordem, a dificuldade – como se sabe – é que Brasília não tem esquinas exatamente para evitar zonas de atrito entre governo e oposição, a fricção democrática de dois  conceitos que não conseguem, por natureza, ocupar o mesmo espaço, como tantas vezes já ficou provado e dispensa contraprovas.

O eleitor brasileiro ficou, para pagar, com a conta dos mandatos presidenciais de quatro anos. Depois da queda veio o coice, a reeleição que está  indo à forra e ninguém fala mais em extinguir. Há até quem já tenha cogitado do terceiro mandato. O Brasil esgotou a cota de soluções para simular democracia, sem abrir mão de restrições disfarçadas a muitas das liberdades mantidas à distância do cidadão, a começar do impostos que paga sem saber que paga, e para quê.