Os reflexos da indignação

A direita mundial se articula para depreciar as manifestações do último sábado. É certo que elas foram menos expressivas nos países emergentes e nos mais pobres. Até mesmo para pensar e agir, é preciso comer antes. A maioria dos povos africanos, acossada pela fome, pelas endemias e pelos genocídios periódicos, não tem como sair às ruas. Nos países emergentes, em que as receitas neoliberais são contestadas, o crescimento econômico alimenta a esperança.

O caso brasileiro é exemplar: em momento de expansão da economia, o sistema financeiro está controlado pela supremacia do setor estatal, graças às instituições que escaparam da sanha privatizadora, como o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal.

A luta contra a corrupção, que continua atual e necessária, não conseguiu tampouco levar as multidões que vimos nas ruas, durante a campanha das diretas e no processo popular contra Collor, porque a cidadania teme a sua utilização contra a presidente Dilma Rousseff. Há a percepção de que ela se confronta com dificuldades conhecidas e atua, dentro de seu limitado espaço de poder, para moralizar a administração e os costumes políticos e defender os interesses brasileiros no mundo.

É um engano achar que o povo brasileiro está alienado das questões mundiais – e isso se verá, no momento necessário.

Os porta-vozes da direita, aqui e alhures, expressam seus desejos como constatações sociológicas. É o caso do mais obtuso dos políticos espanhóis contemporâneos, José Maria Aznar, que, em entrevista ao jornal El Universo de Quito, domingo, atribui “à extrema esquerda inexpressiva” o que começou na Tunísia, se ampliou ideologicamente na Porta do Sol, em Madri, e se espalhou pelo mundo. Um dos cartazes exibidos em Nova York  é significativo: “Wall Street acabou com o sonho americano”. E como o sonho americano, graças à manipulação dos meios modernos de comunicação, se tornou o World dream, o conluio político-militar-financeiro, globalizado, transformou a utopia da felicidade individual em pesadelo.

Um dos eixos da história universal, na busca do equilíbrio entre os movimentos opostos, é o do conflito entre Estado e sociedade. Estado e sociedade são, em princípio, uma só realidade. Essa ideia, fundada na concepção aristotélica da polis, foi restaurada por Hegel, em seus escritos juvenis. Mas a tensão interna sempre houve, e por uma razão elementar: a sociedade, como um todo, não consegue controlar diretamente o Estado, a partir de certas dimensões, quando o número de habitantes se multiplica e crescem os conflitos humanos, exigindo legislação sempre mais complexa. O instituto da representação se faz necessário, porque a democracia direta se torna inviável.

É nesse distanciamento entre o cidadão e o poder, com a intermediação dos agentes políticos e econômicos — como é do esquema clássico da filosofia da práxis — que o Estado deixa de servir à sociedade nacional como um todo, e é apropriado pela classe dominante. Quando essa apropriação se torna intolerável, surge a revolução política. Como disse Vitor Hugo, ocorre, então, “le retour du fictif au réel”, e o Estado volta a ser absorvido pela sociedade inteira, mesmo que por pouco tempo. A grande utopia política é a de que, em algum momento da História, esse retorno se torne permanente.

O grande resultado dessas manifestações, que poderão, a partir de certo momento de auge, diminuir de intensidade, é a reflexão dos intelectuais e dos povos. Há um axioma da física, o da inconstância do universo, cujas leis podem ser alteradas em qualquer momento — e a experiência com os neutrinos, se estiver correta, demonstra-o, ao desmentir Einstein — que pode ser aplicada à inteligência. Os intelectuais, por comodismo ou convicção, são acometidos por certa ociosidade mental. Deixam de analisar a realidade em sua essência e em suas lições históricas, e se contentam em deslizar sobre as ondas superficiais do conhecimento, em adorná-las com recursos adjetivos. São os não intelectuais, em seu saber feito de sofrimento, que costumam despertá-los para a ação, como está ocorrendo agora.

Por falar nisso, há declarações da senhora Hillary Clinton que merecem ser cotejadas com o discurso de Lula, em Iowa. Falando de improviso, e com a razão do sentimento, o brasileiro resumiu as suas ideias na constatação de que o primeiro dos direitos do homem é o de comer. Assim, o primeiro dever dos governantes é o de trabalhar pela vida, não pela morte. A senhora Clinton disse que o seu país deve agir como agem a Índia e o Brasil, que, na condução de sua política externa, colocam em primeiro plano a criação de empregos em seus países.

Ela se engana: nós não estamos fazendo nada mais do que imitar os Estados Unidos, que sempre agiam assim. Antes dela, outra secretária de Estado, Madeleine Albright — que, por coincidência, se encontra no Brasil, dando conselhos a empresários nacionais — disse alto, e em bom som, quando exercia o cargo, que o objetivo da política externa de Washington era o de garantir o pleno emprego para os cidadãos norte-americanos.

Ainda que o movimento dos indignados contra o neoliberalismo venha a arrefecer por algum tempo, retornará muito mais poderoso e mais amplo. Contraria a lógica que 1% da população norte-americana (em outros países é provável que a relação seja ainda maior) detenha 99% da renda nacional — conforme seus cidadãos indignados denunciam.

No Congresso, como anotou Paul Krugman em recente artigo, os republicanos parecem não ouvir o clamor das ruas, e não se dispõem a repensar seu dogma, mas, ao contrário, adotam uma versão ainda mais grosseira — tornando-se dele mesmo uma caricatura.