O balé argentino

Todas as nações se fazem no confronto de suas perturbadoras e diferentes realidades, mas a Argentina, nossa mais próxima e instigadora vizinha, exagera nesse jogo permanente. Por mais tentemos enganar o nosso juízo, os argentinos nos superam em quase todos os aspectos da cultura. Os êxitos de sua educação nos deixam envergonhados; seus cientistas e pesquisadores só recentemente se deparam com a ainda tímida competição brasileira. 

Os argentinos obtiveram cinco prêmios Nobel, dois pela sua atuação política na promoção da paz (Carlos Saavedra Lamas, em 1936, e Adolfo Pérez Esquivel, em 1980), dois de Medicina (Bernardo Houssey, em 1947, e Cesar Milstein, em 1984) e um de Química, Luis Leloir, em 1970. O Brasil nunca obteve esse reconhecimento internacional, nem mesmo tendo em vista a sua singular literatura.

Privilegiada pelas ricas terras do pampa úmido, fertilizadas durante milênios geológicos pelo húmus das florestas brasileiras, contrabandeado pelos nossos rios impatrióticos, o Paraguai e o Paraná, a Argentina foi um dos maiores exportadores de trigo e de carne para a Europa, quando os preços, altos, a enriqueceram. Os recursos fartos lhe permitiram construir grandes cidades, começando por Buenos Aires, criar a Universidade de Córdoba ainda no século 17 (1613) e proporcionar aos seus habitantes um nível de vida superior ao de todos os seus vizinhos.

Mas a Argentina é também um país denso de mistérios, dividido, desde os primeiros tempos, entre os imigrantes europeus e os indígenas e seus descendentes. Não houve ali o imediato amálgama entre os colonizadores e os nativos, como ocorreu entre nós. E essa situação se agravou, depois das Guerras Napoleônicas, com a imigração massiva de europeus do Norte, mais ciosos de sua superioridade do que os espanhóis.

Muitos argentinos concluem que a nação se tornou bipolar, com o duelo permanente entre os cabecitas negras e os cabecitas rúbias. Como os europeus se concentram na Província de Buenos Aires, esse confronto, em termos políticos, se fez entre a grande cidade e o norte, uma vez que a Patagônia não era expressivamente política até o aparecimento dos Kirchner.

Outra forte característica da história argentina é a presença de algumas mulheres no centro do poder. Antes mesmo de Eva Perón, com sua forte personalidade, e de Isabel Perón, um equívoco do general, a Argentina contou com a forte personalidade de Encarnación Ezcurra, mulher do ditador Juan Manuel de Rosas, e, depois de seu falecimento, com a influência poderosa de Manuelita de Rosas, sua filha. Rosas foi obstinado guerreiro, que se propôs a eliminar os índios da Patagônia, a exemplo do que faziam os norte-americanos com os seus nativos. Em razão disso, o governo da Província de Buenos Aires era, na prática, exercido por Encarnación e, mais tarde, por Manuelita, até a derrota de Rosas por Urquiza, com a ajuda brasileira, na Batalha de Monte Caseros, em 1852.

Mas nenhuma outra mulher superou Evita. Seu reinado foi curto, muito curto, e, por isso mesmo, fulgurante e denso. Ela, morta aos 34 anos, não viveu o bastante para que viesse a perder seu carisma, nem sua discreta beleza. Os deuses, como mostra a História, preferem dar tudo a alguns jovens, até mesmo a morte prematura, a fim de preservar seu encanto.

Assim ocorreu com Evita, a astuta mulher do povo, que, sendo cabecita negra, oxigenou seus cabelos tão logo chegou à capital, ainda adolescente, para encontrar seu lugar ao sol. Os historiadores concluem, com algum açodamento, que sua sorte foi ter encontrado Perón, em uma festa beneficente, no Luna Park. Na verdade, foi o contrário: sem Evita, Perón não teria voltado ao poder, depois de ter sido expelido de seus cargos, em 17 de outubro de 1945.

Foi Eva, ao mobilizar os trabalhadores, que obrigou os militares não só a retirarem Perón de um hospital militar, em que se encontrava detido, levá-lo ao balcão da Casa Rosada para acalmar as massas operárias — decididas à rebelião — e a entregar-lhe o governo. Perón não deu dignidade a uma aventureira, como as elites argentinas consideravam Evita; Evita é que deu o poder a Perón.

Agora outra mulher encarna o poder na Argentina. Cristina Kirchner faz questão de definir-se como criatura e sucessora do marido, Nestor Kirchner, dentro da tradição argentina, simulacro de monarquia europeia em uma república que parece deslocada no continente. Ao contrário de Eva, que era uma cabecita negra da Província de Buenos Aires, ela procede do extremo-sul, de Santa Cruz, de escassa população e reduzida importância econômica. Ela é beneficiada pelos novos tempos, abertos à crescente presença feminina nos centros de poder. Sua reeleição, tida como certa, possibilitará a emulação entre ela e Dilma Rousseff, no comando das duas maiores nações da América do Sul. De certa forma, desde o exemplo de Lula, que apoiou Nestor Kirchner, os dois países caminham mais ou menos no mesmo passo.