Dilema sobre Temer

Há um consenso no Congresso: o governo acabou. Será difícil e até arriscado, para a própria democracia, atravessar com ele os quatro meses que faltam para a eleição. Para a posse do novo presidente serão seis. Mas há também um dilema: vale à pena varrer Temer agora? O tempo que falta é longo para a gravidade da situação mas é curto para uma troca segura de governo. A não ser pela renúncia, que dele não virá.

“Estes são os murmúrios dos bastidores. Não há dúvida de que estivemos muito próximos do abismo, da convulsão social. A população, embora tão castigada, apoia a greve porque ela é contra o Temer. Mas trocar o governo sem comprometer a eleição, que é o único caminho para a pacificação?”, pergunta o deputado Miro Teixeira, líder da Rede

A terceira denúncia até agora não veio. Um impeachment levaria alguns meses, e conturbaria completamente o processo eleitoral. Há quem pense na antecipação da eleição mas isso só aconteceria por um acordo interpartidário, e a centro-direita não topará porque não tem candidato competitivo. As pesquisas continuam mantendo Lula e Bolsonaro na dianteira.

A greve dos caminhoneiros declinou mas os guetos de resistência persistiam ontem, e não só por conta dos infiltrados de direita que tentam capturar o movimento pedindo golpe militar. É interessante que as autoridades evitam dizer que se trata da direita. “Pode haver movimento ‘volta Lula’, ‘Fora Temer’ ou ‘intervenção já’. Não pode é fechar estradas”, disse o ministro Marun. Enfim ou Lula de graça na conversa, pois não houve palavra de ordem com o nome dele na greve. Líderes dissidentes dos caminhoneiros disseram na Comissão Geral do Congresso que a greve persiste porque o acordo não contentou a todos. 

“As próximas horas serão cruciais”, diz o líder do PSB, deputado Júlio Delgado. “Ou a greve murcha lentamente, prolongando a sangria do país, ou a coisa vai engrossar, com a adesão de outras categorias e protestos de rua. Os petroleiros vão parar, os fiscais da Receita estão parados. Dependendo do que acontecer agora, alguma coisa terá que ser feita”, diz Delgado.

O líder do PSOL, deputado Chico Alencar, acrescenta: “Este dilema está posto, e foi agravado pelo temor de intervenção militar, mas até o Bolsonaro repudiou essa pregação insana. Não há governo mas parece que teremos de chegar à eleição pisando sobre este tapete roto e sujo que é o Temer”.

Miro recorda os dias finais do governo Collor, quando os ministros entregaram o cargos para facilitar seu afastamento. “Acho que as pessoas com algum brio neste governo podiam fazer o mesmo”. Ele defende a adoção de uma fórmula semelhante à adotada depois da derrubada de Getúlio Vargas, em 1945, quando o presidente do STF, José Linhares, assumiu o governo. “Teria que haver uma eleição indireta mas nenhum membro do Congresso teria a confiança da população”, diz ele.

Os (ex) aliados do governo também especulam sobre tudo isso, mas entre eles. O problema que, não tendo candidato viável, ainda preferem a travessia na pinguela, com todos os riscos.

SERÁ O JABUTI?

Passaram-se 21 anos e o STF nunca respondeu à consulta do então deputado Jacques Wagner sobre a possibilidade de mudança no sistema de governo por emenda constitucional. A Constituinte optou pelo presidencialismo e marcou para 1993 o plebiscito que o confirmou. Por isso há quem entenda que, mudança, só com outro plebiscito. Ao marcar a decisão sobre a matéria para 20 de junho, a presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, soltou pulgas no meio político. Mas se nem as regras eleitorais podem ser alteradas faltando menos de um ano para o pleito, adoção do parlamentarismo a toque de caixa deve ser impensável.

LISTA SUJA

Orgulho de Temer e alvo de Ciro Gomes, que promete revogá-la se eleito, a reforma trabalhista levou a Organização Internacional do Trabalho (OIT) a incluir ontem o Brasil em sua “lista suja” de países que violam normas internacionais do trabalho.