Livro denuncia que mundo projetado por homens coloca as mulheres em perigo

Ataques cardíacos mais frequentes e mal diagnosticados, ferimentos graves em acidentes de trânsito: as mulheres estão pagando o preço de um mundo projetado para homens, afirma a ativista feminista britânica Caroline Criado Perez em seu novo livro, "Invisible Women" ("Mulheres Invisíveis", tradução livre).

Lançado esta semana no Reino Unido, o livro proporciona uma lista de complicações, simplesmente irritantes ou potencialmente fatais, resultante do paradigma de considerar o homem como o gênero padrão para a elaboração desta ou daquela norma, um conceito conhecido como "gap de dados de gênero".

Do urbanismo à política, da vida cotidiana ao design, a autora pretende mostrar como o preconceito sexista na sociedade "distorce os dados supostamente objetivos que cada vez mais governam nossas vidas".

"A vida dos homens sempre foi considerada representativa do conjunto de toda a humanidade", diz Caroline Criado Perez, acrescentando que a maioria dos dados registrados na história da humanidade é significativamente carente de informações sobre mulheres.

"Invisible Women" é "uma apresentação sobre como as desigualdades no processamento de dados estão prejudicando as mulheres", resume a autora.

 

 

Em seu livro, ela explica que descobriu que os médicos são mais propensos a erros de diagnóstico em exames de mulheres com problemas cardíacos, especialmente porque seus sintomas - dor de estômago, falta de ar, náusea, cansaço - diferem dos sintomas dos homens e são classificados como "atípicos".

"Eu não pude acreditar", disse ela ao The Sunday Times em uma entrevista recente. "A ciência supostamente é objetiva".

A autora também observa que os sistemas de segurança da maioria dos modelos de carros são projetados usando bonecos de colisão baseados na morfologia de um homem "médio", contribuindo para o fato de que as mulheres têm 47% de risco de serem gravemente feridas em um acidente.

Quanto às mulheres socorristas, elas recebem equipamentos de proteção muitas vezes baseados no tamanho e nas características dos homens, com consequências muitas vezes dramáticas.

O setor de novas tecnologias não é poupado, e a autora toma como exemplo o software de reconhecimento de voz, muito mais inclinado a reconhecer com precisão a voz dos homens, ou telefones celulares, muitas vezes grandes demais para as mãos de muitas mulheres.

"Os designers podem acreditar que fabricam produtos para todos, mas, na realidade, é especialmente para os homens que eles o fazem", lamenta Caroline Criado Perez.

"É hora de começar a pensar em um design para mulheres".

 

 

Para Sarah Hawkes, diretora do Centro de Gênero e Saúde Global da University College London, especializada no estudo das desigualdades de gênero, Caroline Criado Perez apontou uma triste realidade histórica: "Há 2.000 anos, o default da medicina é voltado para os homens", declarou à AFP.

O livro de Caroline Criado Perez não é seu primeiro ato militante: a jornalista fez seu nome no Reino Unido depois de uma campanha bem sucedida para que uma mulher fosse colocada nas cédulas britânicas, e também que uma estátua da sufragista Millicent Fawcett fosse erguida em frente ao Parlamento de Westminster em Londres.

A advogada Helena Kennedy, uma influente defensora dos direitos das mulheres no Reino Unido, elogiou o "olhar penetrante" da autora sobre a ausência de mulheres na criação de "mais normas sociais".

"Estes são fatos. A informação é poder, todos nós precisamos saber como nossos sistemas funcionam se quisermos mudar".

Reduzir essas desigualdades exige uma solução clara, enfatiza Caroline Criado Perez.

"Devemos preencher a falta de representação das mulheres".

"Quando as mulheres participam da tomada de decisão, pesquisa, produção de conhecimento, elas não são esquecidas", argumenta.

"A vida e as perspectivas das mulheres sairão das sombras", conclui.

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