Médico tranquiliza sobre febre amarela, mas alerta: “Risco de reurbanização da doença existe”

Para infectologista e epidemiologista, aumento de casos no último ano foi exceção

A morte de cinco macacos no Horto Florestal, bairro da Zona Norte de São Paulo, reacendeu a preocupação com o avanço da febre amarela em áreas urbanas no país. O último surto da versão silvestre da doença teve 261 mortes confirmadas entre dezembro de 2016 e julho de 2017. No entanto, o médico infectologista e epidemiologista Celso Ferreira Ramos Filho demonstrou tranquilidade, e afirmou que a expansão da doença durante o ano foi caso “excepcional”.

De acordo com o médico, membro da Academia Nacional de Medicina, o que vem sendo feito pelas autoridades até o momento é condizente com a gravidade da situação. “Levando em consideração que a doença é silvestre, não temos como vacinar todos os macacos ou exterminar todos os mosquitos vetores. Precisamos sim de uma vigilância e acho que ela vem sendo bem feita.”

Para o especialista, o que vem ocorrendo agora é uma situação fora do comum, e lembrou que historicamente são poucos os casos da doença por ano. “Esses surtos episódicos tendem a ocorrer em intervalos de sete a dez anos. Não acredito que teremos um destes este ano. O que ocorreu no ano passado foi excepcional. Não havia como se supor que teríamos essa expansão do sul da Bahia até São Paulo no último ano.”

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Segundo ele, a morte dos macacos e a resposta que foi dada pelo governo de São Paulo – que informou nesta semana a pretensão de vacinar um milhão de pessoas – é a esperada para tal situação. “Com a morte dos macacos, a expansão da febre amarela silvestre é mapeada e torna possível que a vacina seja levada para esses lugares.”

Ramos Filho também destacou o que ele considera uma “diferença fundamental” entre o vírus da febre amarela e outros vírus semelhantes, como o dengue ou a zika. “Não temos uma vacina eficaz contra dengue. Além disso, o dengue ocorre em grandes epidemias urbanas. Já a febre amarela tem sido transmitida no âmbito silvestre, para o qual temos uma vacina.”

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No entanto, o especialista não descartou a possibilidade da volta da versão urbana da doença. O mosquito Aedes aegypti é transmissor da doença nas cidades. “O risco de urbanização da febre amarela existe. Não há dúvida. O risco existe desde o momento em que o Aedes aegypti voltou ao Brasil, há quarenta anos. Por exemplo, uma coisa que ninguém lembrou é que ocorreu um surto urbano desses no Paraguai, na vizinhança de Assunção, em 2008. E não era uma área afetada até então”, concluiu.

No Paraguai, foram registrados 28 casos da doença em 2008: 15 no departamento de San Pedro, nove no oriental de Central e quatro em Caaguazú. Foi a primeira vez desde os anos 1940 que a doença surgiu em sua versão urbana no país vizinho.

* do projeto de estágio do JB