'WSJ': Como o cérebro usa glicose para abastecer o auto-controle

Novas experiências mostram como baixos níveis de glicose e problemas de auto-controle estão ligados

O Wall Street Journal publicou nesta sexta-feira (5/12) um artigo com um estudo científico recente sobre a influência da glicose no cérebro e no comportamento. “A energia do vapor coloca em movimento turbinas enormes e pesadas. O cavalo-vapor envolve explosões, com motores impulsionando carros na estrada.  A energia solar utiliza o incrível poder do próprio sol e poderá algum dia iluminar cidades inteiras”, diz a matéria de Robert M. Sapolksy.

Ele prossegue: “Mas a força de vontade parece diferente. Por um motivo, costuma mais descrever inatividade disciplinada, como resistir a uma tentação, do que uma ação perceptível. Enquanto os cavalos metafóricos produzem cavalo-vapor e o sol produz energia-solar, não é fácil enquadrar  ‘vontades’ de uma forma equivalente. Não vai dar certo dizer ‘A loja de doces foi logo ocupada por milhares de vontades frenéticas, mostrando suas formidáveis forças de vontade ao recusar comprar qualquer coisa’.

Porém, acontece que a “força” contida na expressão “força de vontade” não é uma figura de linguagem. O cérebro é uma entidade biológica de sangue e vísceras tão real quanto… seu sangue e suas vísceras. O cérebro requer toneladas de energia — em repouso, consome cerca de 25% de nossa glicose que circula no organismo, apesar de constituir apenas cerca de 3% do peso do seu corpo”, escreve Sapolksy. 

“A medida em que você desenvolve um comportamento específico, a taxa de consumo de glicose pula na região pertinente do cérebro. Se você ouve uma sinfonia, seu córtex cerebral auditivo eleva a taxa  metabólica. Se você aprende algo novo, é o  hipocampo que dispara. Sapateado acende o córtex motor. E quando você está manifestando força de vontade, pensando, “Não faz isso, não faz isso, você vai se arrepender...” é seu córtex frontal que entra em ação.

Um trabalho desenvolvido por vários cientistas, com destaque para Roy Baumeister da Florida State University, mostra o quão literal é o poder por trás da força de vontade. 

Vamos supor que os pesquisadores fazem o córtex frontal de uma pessoa trabalhar duro com uma tarefa cognitiva de auto-controle - por exemplo, recitar rapidamente os meses do calendário para trás, resistindo à tentação de listá-los na direção fácil, para frente. Quando você aumenta uma ‘carga cognitiva’ como essa no córtex frontal de alguém, ele ou ela mostra menos auto-controle em tarefas subsequentes — assim como um músculo que andou fazendo exercícios pesados, e depois resiste em ter que te mover para mais um passo”, diz a matéria do Wall Street Journal.

O jornalista prossegue: “Além disso, durante uma dura tarefa de auto-controle, os níveis de circulação de glicose despencam, consumidos por neurônios frontais que trabalham duro. E, notadamente, o auto-controle melhora se a pessoa ingere bebidas açucaradas durante a tarefa (com os demais participantes da pesquisa consumindo bebidas sem açúcar).

Então se o auto-controle requer energia (e portanto glicose), os pesquisadores podem rastrear a luta do cérebro para controlar impulsos agressivos vendo níveis baixos de glicose? Brad Bushman da Ohio State University e seus colegas exploraram essa questão num artigo publicado recentemente na Proceedings of the National Academy of Sciences.

Duplas de casais voluntários tiveram seus níveis de açúcar no sangue monitorados diariamente por semanas. A cada noite os participantes listavam o nível de qualquer raiva que estavam sentindo pelo(a) parceiro(a). Os participantes indicaram seus níveis de raiva através do número de alfinetes que espetavam num boneco de vodu que representava o(a) parceiro(a). A técnica não-ortodoxa de medida mostrou que quando os níveis de glicose no sangue estavam mais baixos, as pessoas tendiam a espetar mais alfinetes.

Será que essa relação entre níveis de glicose e impulsos agressivos se traduz em comportamento de pessoa para pessoa também? Casais, sentados em quartos diferentes, em seguida jogaram um game competitivo no computador que acabou com o perdedor recebendo uma rajada de um barulho desagradável. Participantes decidiam o volume do barulho que seu parceiro teria que ouvir — até 105 decibéis. Mais uma vez, quanto mais leves os níveis de glicose, o mais alto e longo era o barulho infligido no ser  amado”.

“Podem tirar várias lições desses resultados. Em primeiro lugar, parceiros talvez devessem comer chocolate antes de ter discussões tensas (a não ser que seja uma discussão sobre alguém que está trapaceando na dieta). De forma mais ampla, o efeito da glicose baixa no sangue sobre a força de vontade e o julgamento se encaixa em uma história maior sobre como o stress tem os mesmos efeitos ruins (e perturba a função do córtex frontal) quando se trata de comportamento violento também. A maior lição é que quem somos e o que fazemos deve ser sempre considerado no contexto da biologia que ocorre dentro de nós”, conclui o artigo.