'FT': China e Brasil criticam países ricos por verbas para metas climáticas

“A China e o Brasil criticaram o montante de  dinheiro com que países ricos se comprometeram a ajudar nações pobres a enfrentar o aquecimento global num sinal que para fechar um acordo sobre clima no ano que vem ainda há sérios obstáculos”, é o que diz o Financial Times, em artigo publicado nesta terça-feira (2/11).

“Falando na véspera da Conferência de clima da ONU em Lima, no Peru, negociadores dos dois países disseram que os quase US$ 10 bilhões que os EUA, Japão e os países europeus prometeram nos últimos meses estavam longe dos US$ 100 bilhões no financiamento anual de medidas climáticas que países em desenvolvimento estão esperando para 2020”, diz o artigo de Pilita Clark e Lucy Hornby.

As críticas vieram quando a Oxfam disse que o Brasil deveria também começar a direcionar dinheiro a países mais pobres, apesar de ser classificado como país em desenvolvimento pela ONU. No entanto, a ONG – que baseou seus cálculos em distribuição de renda, níveis de pobreza e emissões de gases de efeito estufa desde 1990 – não incluiu a China.

A Oxfam disse que o fundo anual prometido de US$ 100 bilhões não seria suficiente para frear o aquecimento global e ajudar os países a se adaptarem à mudança  climática. “Só os países da África subsaariana vão precisar de  US$ 62 bilhões por ano para investir em adaptação climática,” informa.

José Antonio Marcondes de Carvalho, chefe dos negociadores do Brasil, afirmou que a verba prometida até agora era bem vinda “Mas também estamos cientes dos compromissos [OECD] que os países fizeram para trazer US$ 100 bilhões por ano de 2020 em diante para lutar contra a mudança climática”,

Xie Zhenhua, chefe dos negociadores da China, afirmou: “O número não é ideal porque US$ 10 bilhões ainda está muito longe de US$ 100 bilhões.”

Seus comentários são um lembrete dos obstáculos que continuam à frente de um acordo de mudança climática que deve ser assinado em Paris no final do ano que vem, apesar do entusiasmo gerado pelos Estados Unidos e a China quando eles anunciaram em parceria, planos para combater o aquecimento global há três semanas.

Um impasse entre os dois maiores emissores de gases de efeito estufa bloqueou anos de esforços para produzir um acordo climático internacional significativo, junto com disputas sobre o nível de ajuda de países desenvolvidos considerados mais responsáveis pelo aquecimento global. 

Países ricos disseram em 2009 que iriam “mobilizar” US$ 100 bilhões por ano por volta de 2020 para nações mais pobres, mas deixaram claro que a verba viria de recursos privados e públicos.

Grande parte do dinheiro deverá ser administrado por um Fundo Verde de Clima da ONU que disse na sexta-feira ter atraído US$ 9,7 bilhões de 22 países em sua primeiro arrecadação este ano. O fundo planeja usar o dinheiro para atrair somas maiores de órgãos privados.

Essa é uma das maiores somas arrecadadas num período tão curto para trabalhos com mudança climática  e inclui US$ 3 bilhões dos Estados Unidos, US$ 1,5 bilhões do Japão e mais ou menos US$ 1 bilhão de cada um de  Alemanha, França e Reino Unido.

Presume-se que financiamento acalme as negociações em Lima, que devem produzir um esboço do acordo de Paris.

Mas o financiamento é apenas um obstáculo que os negociadores enfrentam em Lima.

Marcondes de Carvalho disse que o Brasil também estava preocupado sobre o quão legalmente executável o acordo de Paris será. Essa visão é compartilhada por outros grandes países em desenvolvimento que temem que o presidente americano Barack Obama só vai concordar com um acordo flexível que deixem que governos futuros em Washington evitem cumprir as metas climáticas do país.

“Nós somos da visão de que o instrumento a ser acordado em Paris deveria ser legalmente vinculativo,” disse o embaixador. “O recuo é algo com o qual realmente estamos muito preocupados. Recuo é uma palavra que deveria ser retirada dos dicionários dos negociadores.”

Em uma alfinetada vagamente velada em países ricos como a Austrália, cujos líderes já abandonaram políticas climáticas de governos anteriores, ele disse: “Alguns países estão fazendo só estritamente o mínimo.”