Após ser recordista em casos de pólio, Índia vence a doença através da vacinação

Nazma, 16 anos, está condenado a viver em uma cadeira de rodas em sua aldeia no Gajner, deserto de Thar, no Rajastão, o maior Estado da Índia em área. Suas pernas ficaram paralisadas após uma poliomielite. Os pais de Nazma sabiam que a vacina administrada em dose única poderia ter livrado a criança desta doença, que o sentencia a somente olhar os amigos jogando. Como Nazma, muitas pessoas na Índia ficam inutilizadas por um vírus que ataca o sistema nervoso e pode provocar paralisia irreversível. Mas, agora, a Índia está prestes a tornar-se um país livre da poliomielite: nos últimos três anos não houve novos casos, até mesmo os previstos para o período de março, fato que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a certificar a sua erradicação.

"É uma grande vitória para a Índia e Ásia", disse nesta segunda-feira (13/1) Carmen Garrigós, chefe da campanha contra a poliomielite para o Unicef no Afeganistão. O importante é que o governo quer acabar com a doença e as agências devem fazer boas campanhas de sensibilização. “Seja onde for, as crianças têm direito à vacina", diz Garrigós.

A Índia tem feito um grande esforço. Ainda em 2009, o país registrou quase a metade de todos os novos casos no mundo: 741 de 1604, de acordo com o Unicef. Muitos especialistas afirmam que será o último país a erradicar a doença. Mas após uma campanha que persuadiu as famílias a vacinar seus filhos, com um bom acompanhamento e imunização voltada para os mais vulneráveis, em 2012, finalmente, nenhum caso foi registrado.

O último caso detectado foi em 13 de janeiro de 2011. Uma menina de 18 meses, Rukhshar Khatoon, de Shahpara, uma aldeia na Bengala Ocidental. A criança voltou ao normal após o tratamento, como relatado pela Fundação Bill e Melinda Gates, no ano seguinte em que houve o diagnóstico.

As campanhas têm sido enormes em todo o país: no ano passado cerca de 172 milhões de vacinas para as crianças menores de cinco anos foram aplicadas por 155 mil profissionais da saúde. O plano envolveu um investimento do governo na ordem de de US$ 2,5 milhões (1.800.000 €), em 1995 , de acordo com a Reuters.

"Atingimos as democracias com consistência e persistência e um esforço marcante", disse R. K. Saboo, um dos fundadores do programa contra a poliomielite no país. A partir de 2015, as gotas para as crianças serão substituídas pela injeção de vacina. O processo começará a ser implementado nos estados com alto risco.

Cada lugar tem suas dificuldades. No estado do deserto de Rajasthan, muitas aldeias são inacessíveis. Nestes locais não chega mensalmente a campanha "Domingo contra a pólio”. Os profissionais de saúde, para atingir as residências mais remotas, colocam as mensagens em lugares públicos como estações de ônibus e trens. "A chave para a luta contra esta doença atingiu todos os lares, e as pessoas estão conscientes de como evitar”, diz Ravi Mishra, da ONG Urmul, que atua no deserto. Ele garante que nos últimos anos tem notado uma maior consciência e não houve novos surtos.

Na verdade, os pais de Nazma, que vive condenada a não andar, imunizaram suas outras duas filhas, quando perceberam que apenas a vacina funcionou. O Unicef, juntamente com a OMS, divulgou que o exemplo da Índia é a prova de que a erradicação global desta doença não é mais questionada. A questão é quando esse processo global acontecerá. “Estamos muito perto”, disse Garrigós. Ela complementou que, depois da pólio completamente erradicada, as agências poderão se concentrar na erradicação de outras doenças infecciosas, como o sarampo.

Em 2012, a meta da OMS foi erradicar a poliomielite. Houve 148 novos casos no Afeganistão, Nigéria e Paquistão, três países com focos endêmicos em 2013. Além disso, no ano passado foram detectados 224 novos casos em países não endêmicos como Somália, Síria e Quênia. No Afeganistão, os talibãs não se opõem à vacinação, o que reduziu os casos da doença entre 2012 e 2013. No entanto, no Paquistão morreram muitas pessoas nos últimos dez anos, em sua maioria homens armados. 

Alguns pacientes se recusam a ser imunizados por uma questão de desconfiança. Em 2011, surgiram notícias de que a CIA havia organizado uma campanha de vacinação falsa para a hepatite B na cidade onde se acreditava que Osama Bin Laden estava escondido. De acordo com o The Guardian, o objetivo da missão era encontrar o terrorista. Desde então, em várias partes do Paquistão cresceram as teorias da conspiração, que levam a população a rejeitar a vacina contra a poliomielite.