Conheça a startup brasileira contratada por Barack Obama

Enquanto o playback da cantora Beyoncé e outros eventos da posse de Barack Obama na última segunda eram acessados meio milhão de vezes em iPhones e iPads de eleitores e entusiastas da política americana, um grupo de desenvolvedores no bairro Santo Amaro, em São Paulo, estava de olho no desempenho, da cantora e do app, por trás dos streamings. Isso porque o primeiro app oficial da posse americana foi desenvolvido por programadores brasileiros, da startup I.ndigo.

De olho no produto dentro da I.ndigo está Edmar Miyake, que ao lado de Danilo Toledo e John Tomizuka fundou a empresa em 2008. Hoje com 30 anos, Miyake já esteve no lugar da rapaziada - com idades entre 23 e 25 anos - que programou o aplicativo da cerimônia de Obama.

Self-made hacker

A história de Miyake com a informática começou com um computador que 'nasceu' no mesmo ano em que ele, um MSX, cujos primeiros modelos foram lançados em 1983. Em 1990, Miyake colocou os dedinhos em uma dessas máquinas sem drive de disquete. "Eu escrevia e apagava, escrevia e apagava", relembra, em entrevista ao Terra.

As primeiras linhas de código para aparelhos móveis vieram em 1997, depois de um curso técnico na área de informática. Em 1997, ele escrevia código para Poket PCs e modelos da Palm. A afinidade com as linguagens de programação fizeram Miyake a preferir a Administração de Empresas à Informática. "A parte técnica eu vi que conseguiria dar conta sozinho", complementa. Hoje, ele programa para Android e iOS, "mas só como hobby".

Os produtos da I.ndigo - que incluem além do app para a posse de Obama, o aplicativo do casamento real inglês - ficam a cargo da "competentíssima equipe" de estudantes da USP, ressalta o empresário. "O mérito é todo deles", faz questão de destacar.

No caso da posse, foram 830 mil acessos ao produto desde o lançamento, em 10 de janeiro.

Vitrine no exterior

Os programadores brasileiros fizeram um guia para tudo relacionado à posse. Entre os recursos estavam o streaming de vídeo em tempo real dos principais eventos, agenda completa com mapa e guia das atividades, vídeos e fotos dos bastidores.

Todo o código foi produzido em quatro semanas, incluindo o Natal e o Ano Novo.

Valeu o esforço. A aplicação foi badalada e chegou na vitrine da mídia norte-americana, sendo comentada em jornais como o USA Today e Wall Street Journal e sites especializados como o Mashable. A articulação com o partido Democrata, no entanto, foi feito pelo braço americano da empresa, a Taqtile - nome da empresa nos Estados Unidos, criada para facilitar o contato com clients estrangeiros.

"Nós já tínhamos um contato prévio com a operadora AT&T e participamos de pré-projetos com os Democratas", disse Miyake. O contato era Tomizuka, ex-funcionário da Spring Wireless, para quem Miyake prestava serviços antes da fundação da I.ndigo.

Orgulhoso pelo mérito, Miyake ressalta que escolha nada teve que ver com política. "Não tenho acompanhado muito (a administração Obama). Eu simpatizo com ele mais pela comparação com o presidente anterior (Bush). Independente disso, o partido se disse satisfeito com o aplicativo", finaliza.

Hacktoon eleitoral

A tecnologia foi um ponto importante na campanha Obama. Uma equipe de programadores de grandes empresas americanas - entre elas o Google - participou no desenvolvimento de aplicações de e-mail, arrecadação de fundos e para celulares e tablets do comitê eleitoral. Vencido o pleito, a louvada TI é motivo de polêmica. Enquanto os hackers que trabalharam no esforço tecnológico - muitos de forma voluntária - querem abrir as fontes dos programas à comunidade, os Democratas dão uma de conservadores e fecham a cara, e o código, alegando que a abertura acabaria com um dos maiores trunfos do partido para futuras campanhas.

Nada disso respinga na I.ndigo. "No nosso caso, todo o código é fechado, não existindo a possibilidade de abertura do mesmo, uma vez que possuímos um acordo de confidencialidade estabelecidos com todos os nossos clientes", diz Miyake.

A I.ndigo se defende também de outra polêmica: o uso dos dados dos usuários pelo comitê. Cinco dias depois do lançamento do app oficial, pipocaram no Twitter críticas ao contrato de termos de uso. Segundo alguns internautas, os Democratas teriam acesso a dados pessoais. Como consequência, os usuários poderiam ir parar em listas de e-mail do partido e outras organizações relacionadas à política, sem querer.

"Apenas as informações consentidas pelo usuário final foram coletadas e armazenadas. Para tanto, o usuário deveria permitir informar manualmente o número do seu celular para receber notificações. Não temos conhecimento de como será a exploração futura destas informações", disse Miyake.