Hawking não comparece a evento, mas apoia iniciativa de iBrain

No último sábado, a Universidade de Cambridge sediou uma conferência que demonstrou a tecnologia do iBrain, dispositivo portátil que pretende ajudar o físico Stephen Hawking a se comunicar através da mente. Philip Low, neurocientista de 32 anos e executivo-chefe de uma empresa de San Diego (EUA) contava coma participação do britânico para os testes em tempo real, mas ele não pôde comparecer e enviou um comunicado dizendo que participar do projeto de pesquisa é uma prioridade em sua vida.

"Tendo me comunicado eletronicamente por mais de 25 anos, sei do impacto da perda da fala em familiares e espero ajudar em insights e conselhos práticos para a pesquisa", afirmou Hawking, que sofre de esclerose lateral amiotrófica (ELA).

Low espera fazer com que Hawking consiga se comunicar de uma maneira mais fácil - e, a partir dessa experiência, quer revolucionar a forma com que pessoas com problemas parecidos tenham como externar seus desejos e pensamentos - além de ajudar em condições como apneia do sono e depressão.

O neurocientista espera que o equipamento decodifique o pensamento do britânico e transforme a simples tarefa de pensar em letras ou palavras em fala sintetizada por um computador. "Não criamos uma máquina que lê a mente, o que fizemos foi procurar um sinal que poderia ser gerado por ele para se comunicar", explica o americano.

Em comunicado, Stephen Hawking afirma que pretende ajudar ao máximo nas pesquisas. "Minha meta é tornar os meios de comunicação mais fáceis de usar e mais disponíveis para os que enfrentam desafios definidos pela vida", afirma. "Espero poder oferecer esperanças futuras a pacientes diagnosticados com ELA e outras doenças neurodegenerativas", conclui o físico.

"Tudo que posso dizer é que temos um sinal que não depende do corpo. Ainda não sei o quão perto estamos dos resultados, mas sei que estamos progredindo rapidamente", disse Low na palestra.

Como Hawking fala hoje 

Hawking ficou conhecido no meio científico por seu pioneirismo no estudo dos buracos negros e do Big Bang e fez fama em todo o mundo por seus populares livros sobre ciência para leigos e por sua história de vida. O britânico sofre de uma doença que lhe tirou os movimentos do corpo. Os médicos chegaram a dizer que o cientista viveria poucos anos, mas, mesmo assim, Hawkinjg conseguiu chegar aos 70. 

Em 1985, ele perdeu a fala devido a uma traqueostomia. O especialista em computadores Walt Woltosz criou então a conhecida cadeira de Hawking, que faz com que ele consiga escolher letras em uma tela simplesmente piscando um olho (hoje, ele apenas movimenta parte do rosto) e um sintetizador fala pelo físico.

O computador usado é trocado cerca de uma vez por ano por um mais recente e já conta com internet 3G. Curiosamente, durante anos Hawking não aceitou atualizar o sistema operacional, já que seu programa preferido de voz (Equalizer by Words-Plus) só funcionava em DOS. Foi a Intel que converteu o software para Windows para que o britânico pudesse usar.

A cadeira ainda conta com poderosas baterias, similares às de carro, para que o professor de Cambridge mantenha suas viagens. Ela ainda tem programas que permitem a Hawking fazer ligações, controlar as portas, luzes e itens eletrônicos (TV e aparelho de som, por exemplo) do trabalho e de casa.

Como os cientistas esperam que Hawking se comunique 

O iBrain faz parte de uma nova geração de equipamentos portáteis e algoritmos que monitoram a atividade cerebral e diagnosticam condições como apneia do sono, depressão e autismo. Criado por Low, o aparelho seria uma alternativa aos eletrodos e cabos usados em laboratórios e coletaria dados em tempo real enquanto o paciente faz coisas comuns do dia a dia - como ver TV ou dormir.

"A ideia é que Stephen possa usar a sua mente para criar um padrão consistente e repetível para o computador traduzir em, digamos, uma palavra ou letra ou um comando", diz o pesquisador ao jornal The New York Times.

Os cientistas viajaram para o escritório do britânico em Cambridge e colocaram o aparelho em Hawking. Eles então pediram para que o físico imaginasse que estava apertando uma bola com a mão direita. "Claro que ele não consegue movimentar sua mão, mas o córtex motor no seu cérebro ainda pode emitir o comando e gerar ondas elétricas", diz Low. Um algoritmo conseguiu distinguir os pensamentos de Hawking das ondas cerebrais que não interessavam.

A ideia tenta ajudar o famoso físico britânico a continuar se comunicando. Após cinco décadas de luta contra a doença, Hawking agora precisa de sensores cada vez mais precisos para captar seus cada vez mais diminutos movimentos faciais. Low espera assim ajudar uma das mentes que mais fascinam o mundo atual a não ficar presa ao próprio corpo, que deve perder em breve a capacidade de movimentar os poucos músculos da face que ainda comanda.