"Dia Mundial de Luta Contra a Aids tem que ser todo dia", diz mãe de Cazuza

Segundo médico, números oficiais sobre doença subestimam valores reais

Nesta quinta-feira (1º), durante a abertura da 14ª Conferência Nacional de Saúde, celebra-se o Dia Mundial de Luta Contra a Aids. A campanha deste ano, com o slogan “A aids não tem preconceito. Previna-se”, dará enfoque aos jovens homossexuais de 15 a 24 anos das classes C, D e E. Isso porque, segundo o Ministério da Saúde, os rapazes dessa faixa etária têm aumentado as porcentagens de contaminações. O número de infecções por HIV teria diminuído com relação aos anos anteriores, assim como o número de mortes pela Aids. Porém, segundo especialista, isso não significa que a quantidade de casos de Aids tenha reduzido, nem, tampouco, que estejamos diante de perspectivas positivas quanto à doença.

Ao longo da semana, unidades de saúde vão realizar salas de espera e distribuição de folhetos para informar sobre a doença e a prevenção. Também será feita a divulgação da campanha deste sábado (3), quando a população será incentivada a realizar testes para identificar o vírus HIV e a sífilis. O objetivo é a captação precoce de casos assintomáticos, mas que são soropositivos. Ou seja, pessoas que são HIV+, mas que ainda não apresentaram nenhum sintoma da Aids. Além disso, a meta é estimular a prevenção, principalmente entre os jovens, e conscientizar a população sobre o combate ao preconceito.

>> Saiba mais sobre a campanha deste sábado e onde realizar o teste 

De acordo com o Ministério da Saúde, 0,6% da população brasileira entre 15 e 49 anos é portadora do vírus. Mas, segundo o médico Mauro Schechter, chefe do laboratório de pesquisas em Aids do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, as perspectivas em relação à prevenção da doença não são positivas.

"As porcentagens divulgadas oficialmente subestimam o número real", alerta Schechter. "Esses números são para a vigilância, mas não podemos nos prender a eles. A quantidade de novas infecções diminuiu, e o número de mortes de pacientes com o vírus também. Isso parece bom, mas, por outro lado, se o número de mortes diminuiu, as pessoas com o vírus estão vivendo mais tempo com a doença, aumentando as chances de transmissão para outras".

A preocupação do médico é justamente a da campanha: o número de pessoas que se previnem ainda é baixo. Há quatro formas de contrair o vírus HIV: entre pessoas, através de transfusão de sangue ou em relações sexuais sem preservativo; e da mãe para o filho, durante a gravidez ou por ocasião do aleitamento. A boa notícia é que o aumento de testes rápidos diminuiu o número de crianças contaminadas por ocasião da gravidez da mãe, sendo a meta do governo para 2015, erradicar esse tipo de transmissão. A má notícia é que a informação não tem sido suficiente para a população se prevenir. 

J.F., 24 anos, descobriu há três meses, quando fez exames médicos para um novo emprego, que estava com o vírus HIV. Nem ele, nem o companheiro de quem contraiu o vírus sabiam. Segundo o jovem, o apoio da família e dos amigos foi fundamental, mas ainda existe muita ignorância em relação à doença.

"A gente sempre acha que não vai acontecer com a gente", admite. "Hoje, eu vejo muitas pessoas que têm medo da Aids, por pura ignorância mesmo. Eu fiquei assim quando descobri, mas depois percebi que podia ter uma vida normal. Para mim o que mudou foi que hoje eu ajo com responsabilidade. Mas eu já devia fazer isso antes. Acabei descobrindo da pior forma e muita gente acaba descobrindo assim. Hoje eu sei que preciso me prevenir".

Segundo o jovem, muitas pessoas soropositivas tem dificuldade de se relacionar com outras por causa do preconceito que sofrem. O médico Schechter lembra que, apesar dos números indicarem aumento do número de infecções entre os jovens homossexuais, todos estão suscetíveis ao vírus.

"Muitos acham que os homossexuais têm mais chance de pegar Aids, mas isso depende do comportamento. Se o homossexual tem um parceiro e o heterossexual, cem, quem corre mais riscos? O risco não vem da sexualidade, vem do comportamento", explica Schechter.

Aids e preconceito

A ideia da campanha é mostrar que o soropositivo não deve se isolar dos demais. É preciso se aceitar e entender a doença para que os outros possam fazer o mesmo, segundo explica a psicóloga Elizabeth Carvalho.

"Alguns pacientes trocam o rótulo do remédio, não tomam a medicação na frente dos outros, vivem escondidos", pontua. "O preconceito ainda é um grande problema, tanto de quem tem a doença como dos que não tem".

Na hora de se prevenir, a psicóloga destaca o papel da mídia. "O que tinha que ser divulgado é que a prevenção deve estar acima de tudo. De amor, de confiança".

Outra iniciativa para combater o preconceito e estimular a prevenção está sendo tomada pela Sociedade Viva Cazuza. Nesta quinta-feira, a fundação lança o Prêmio Cazuza de Vídeo. Vencem os vídeos de 30 segundos que melhor abordarem a conscientização para o Carnaval 2012 com o tema “Você que se cuide”. Para Lucinha de Araujo, mãe de Cazuza, e idealizadora de mais um projeto, ainda falta conscientização.

"Dia Mundial de Luta Contra a Aids tem que ser todo dia. As pessoas perderam o medo da doença. Pensam 'se eu pegar, eu tomo o coquetel e fico bom'. É ignorância. As pessoas tem que refletir sobre o que é melhor: 'chupar bala com papel' ou pegar uma doença que fará com que você tenha que se tratar para o resto da vida?", indaga Lucinha.

Lucinha lembra-se, ao falar do filho, da necessidade de enfrentar os preconceitos e não ter medo da doença.

"O Cazuza não queria ser exemplo para ninguém. Mas o exemplo que ele acabou deixando foi o de coragem, não só de grandes músicas. Ele encarou a doença e mostrou a cara".

Teste do vírus HIV

No Brasil, existem duas formas de identificar o vírus. Os exames laboratoriais como o Elisa anti-HIV, cujo resultado final leva dias ou semanas para sair e os testes rápidos - realizados a partir da coleta de uma gota de sangue da ponta do dedo - que detectam os anticorpos contra o HIV em um tempo inferior a 30 minutos. 

Qualquer pessoa pode realizar gratuitamente o teste para saber se possui o vírus HIV. Os testes para detectar o vírus HIV são realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) sigilosa e gratuitamente nos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA), que são unidades da rede pública. Laboratórios da rede particular também realizam estes testes. Hoje, a Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil têm 20.019 adultos e 376 crianças e adolescentes portadores do vírus HIV em tratamento na rede.